Sou a terceira de quatro irmãos e podem ter certeza que a disputa entre nós era parte da rotina durante a infância e adolescência.

Estávamos sempre muito juntos, principalmente os de idade mais próxima. Entre brincadeiras e brigas que às vezes eram até difíceis de distinguir para quem chegasse ali de repente.

A verdade é que a imagem da relação ideal entre irmãos é de muito companheirismo, amizade e solidariedade. Contudo, no processo de construção deste relacionamento é bastante natural que ocorram episódios de rivalidade, brigas e muitas reclamações.

Os motivos das discussões são diversos. Podem ser originados por ciúmes, necessidade de atenção, competitividade, diferenças de personalidade, falta de habilidades socioemocionais, entre outros fatores.

A idade e o nível de desenvolvimento das crianças também podem colaborar para estes episódios. Sobretudo porque cada criança pode interpretar de forma diferenciada os acontecimentos na família.

Mas na hora do desentendimento entre irmãos, o que fazer para pacificar a situação?

Neste cenário, cabe aos responsáveis auxiliar as crianças a gerirem estes conflitos e conduzi-los às melhores soluções.

Nunca assumindo o papel de juiz da briga, mas dando espaço para que as crianças consigam restabelecer o diálogo.

É muito importante que a cada ocorrência haja o entendimento sobre o que está sendo construído na mente da criança.

Relacionar-se com o outro, neste caso o irmão/irmã, proporciona às crianças a vivência de um comportamento e de emoções que são diferentes das suas.

Auxiliar a lidar com a rivalidade pode ajudá-las a significar melhor as suas emoções e sentimentos e até desenvolver sensibilidade ao outro e empatia.

Nesse contexto, o posicionamento e intervenção (ou não) dos adultos pode ser crucial para que não seja gerado um conflito ainda maior, chegando à violência, ou até causando marcas emocionais mais profundas.

Vamos conversar aqui no texto sobre algumas medidas para minimizar esta rivalidade entre irmãos.

Construa a relação desde cedo

Já dizia o ditado: “prevenir é melhor que remediar”. Se a intenção é de não existir a rivalidade entre irmãos, isto pode ser trabalhado antes mesmo que surja o momento dos conflitos.

O tempo de gestação do irmão seguinte é uma boa oportunidade de trazer à criança valores positivos sobre ter mais um membro na família.

É possível também promover afetividade e vínculo com pequenas ações. Envolver a criança na composição do enxoval, brincar com a barriga, planejar juntos para depois do nascimento, são algumas das ações.

Isto não é garantia da inexistência de ciúmes e disputa por atenção dos pais, principalmente quando o irmão mais velho ainda é pequeno e imaturo para compreender a chegada do próximo filho, mas ajuda a preparar as emoções.

Valorize a relação afetiva

Lembre que o período da infância é um tempo de formação e todas as ações realizadas em família, escola e outros ambientes, podem colaborar neste processo. Por isso, aja intencionalmente a fim de demonstrar o valor afetivo da relação entre irmãos.

Aproveite para elogiar os bons momentos, em que há convivência pacífica, as iniciativas de compartilhamento e brincadeiras em equipe. Dê importância às situações em que há um entrosamento.

Também é interessante pronunciar palavras de incentivo à amizade sempre que oportuno. Não frases soltas ao ar, mas em uma fala direta aos seus filhos, olhando no olho. “Veja como sua irmã fica feliz com você”, “seu irmão gosta disso igual a você”, são algumas das alternativas.

Estas palavras podem significar sementes nos corações das crianças. Afinal, é importante elas compreenderem que um relacionamento firme e sadio entre irmãos pode durar toda a vida.

Incentive a resolução dos conflitos

E na hora do conflito, o que fazer?

Bem, ao surgir a discussão, é importante primeiro avaliar se as próprias crianças conseguem resolver a situação sem a intervenção do adulto. Isto pode ocorrer quando há o incentivo ao diálogo e compreensão do outro.

Oriente para que as crianças conversem e cheguem a uma solução juntos e, paralelamente, observe o andamento desta resolução.

Para facilitar este processo, é bom as crianças compreenderem as diferenças entre elas, que nem todos pensam e agem da mesma forma, ou valorizam as coisas com a mesma intensidade.

Analise o momento de intervir

Se os ânimos já estão bem alterados e longe de uma solução, certamente já é o momento de intervir. Nesta situação, procure primeiramente auxiliar os filhos a resolverem o problema e não tomar a frente para resolver por eles.

Ouvir os dois lados com imparcialidade, mesmo que isso seja difícil, é essencial. Uma atitude de mediador mesmo, mas sem tomar partido. Mas por que isto? Esta postura é um investimento para que eles consigam visualizar o caminho da resolução.

Ah, é de extrema importância que a atitude não traga agressividades – incluindo a fala. Afinal, não soa estranho você pedir para não gritar, gritando, né!?

Isso não é ceder às vontades das crianças. Ter uma postura firme é diferente de ser agressivo.

Tenha momentos individuais

A depender da idade de cada criança e da personalidade de cada uma, algumas vezes um demanda mais atenção, ou tem uma postura de maior afago do que o outro. Mesmo assim, planeje seus dias para que haja momentos individuais com os filhos. Seja uma conversa ou brincadeira.

Esta é uma atitude de respeito à individualidade. A sós podem falar sobre sentimentos ou situações da intimidade. Além de se sentirem amados pela ação do adulto proporcionar um momento só para eles.

É muito comum pai e mãe dizer aos filhos que eles são amados igualmente. Isso não é verdade. Assim como não existem duas pessoas iguais, também não há amor igual e nem escala para mensurar esse sentimento. Mas é muito importante que todos os filhos sintam que têm o seu espaço, amor e atenção.

Esteja saudável

Na vida diária podem haver diversas situações que tendem a provocar uma alta carga de estresse aos adultos. Na família, trabalho, trânsito, mercado e outros locais potenciais geradores de conflitos. Por isso, é importante se autoavaliar e cuidar das próprias emoções,  para estar saudável mentalmente para melhor auxiliar os pequenos.

Os pais costumam esconder dos filhos a real situação da sua saúde mental quando não estão bem. Mas dependendo da situação e gravidade, os filhos podem ser afetados e o ambiente familiar se transformar em um local de estresse propício às brigas.

O que não fazer?

Tão importante quanto saber o que fazer nestas situações é saber também o que não fazer. Muitos conflitos podem ser prevenidos quando se evita tomar atitudes impensadas.

  • Evite favorecer o irmão mais novo por proteção. Isso pode gerar ressentimento nos mais velhos e estimular o caçula a enfrentar os outros;
  • Não faça comparações, isso cria competitividade e mina a autoestima;
  • Não desmereça as reclamações, mas as escute com atenção e observe o sentimento por trás delas;
  • Favoritar um dos filhos é uma das ações mais tóxicas para a boa relação entre as crianças. Elas são diferentes e demandam condutas diferentes, muitas vezes, mas o sentimento e postura devem ser os mesmos com todos.

Construir uma relação sólida e saudável entre irmãos é firmar uma rede de apoio para a vida toda. É um vínculo familiar com alguém que desde cedo aprendeu a conviver e que poderá permanecer na vida.

Como você lida com conflitos entre irmãos? Nos conte suas dicas a respeito do tema!

E se você chegou até aqui nesse texto, te compartilho a minha pilha de irmãos em uma foto de 1993 e na tentativa gostosa de reproduzi-la em 2019.

1993

2019

2019