Talvez a palavra seja nova – veio à tona há menos de 20 anos – no vocabulário de pais, pedagogos e alunos no Brasil, mas o Bullying infelizmente não é um fenômeno recente.

Este comportamento predatório é responsável por cicatrizes físicas e psicológicas que muitas crianças vão levar para toda a vida, além de prejudicar seu desenvolvimento intelectual. Bullying faz com que crianças tenham medo de ir à escola, mudando o seu comportamento de forma a afetar todos os aspectos de sua vida – incluindo o meio familiar.

Bullying também não é uma ocorrência rara. Em um estudo recente, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) descobriu que 150 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos são vítimas de Bullying.

No Brasil, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) apontou que 17,5% dos adolescentes de 15 anos afirmaram ser vítimas de bullying mensalmente, enquanto 9% afirmaram ser vítimas frequentes deste tipo de agressão física e psicológica.

Mas afinal, o que significa Bullying?

O termo bullying tem se tornado uma expressão que encapsula um tipo específico de assédio físico e moral que acontece principalmente no ambiente escolar entre alunos. Bullying, assim, é uma forma persistente e importuna de uso de poder de alguém sobre o outro ou grupo mais fraco.

Deste modo, o bully (agressor) exerce tipos de maus tratos – físico, verbal, sexual ou material – gerando danos morais, físicos e/ou psicológicos que podem ocorrer no plano real ou no virtual.

O bullying acontece principalmente quando um ou mais integrantes de um grupo escolhe um indivíduo para ser agredido sem que este consiga se defender.

Os agressores podem ainda induzir a opinião dos demais colegas por meio de boatos que o difamam ou apelidos que caracterizam de forma negativa sua aparência física, seu meio social, hábitos, cultura e o intelecto da vítima.

Bullying é um problema sério e não deve ser ignorado ou naturalizado como um comportamento normal de crianças e adolescentes.

Quais são as diversas vítimas do Bullying?

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Foto-campanha do instituto “STOMP Out Bullying” – junto aos heróis da Marvel -, para prevenir e reduzir o bullying, cyberbullying e outros abusos em escolas e outros ambiente.

Embora em termos semânticos seja interessante categorizar os envolvidos entre vítimas e agressores, a realidade é que este tipo de violência afeta negativamente a todos os envolvidos, direta ou indiretamente.

Bullying abarca diversos fatores complexos, e não se pode analisar de forma simplificada e reduzida.

A preocupação com a vítima está primariamente relacionada ao seu bem estar físico e psicológico.

Conforme destaca estudo da Unicef (2018), o bullying está ligado a uma série de problemas no desenvolvimento infanto-juvenil. Isto afeta a vida escolar e a saúde mental, podendo causar ansiedade, depressão, ideias de suicídio, autoflagelo e comportamento violento. Consequências, essas, que muitas vezes são levadas para a vida adulta.

Contudo, é hoje sabido que a chamada “long shadow” (“grande sombra”) que prejudica as vítimas do bullying além da infância e adolescência, também se aplica aos agressores.

Os bullies (agressores), também apresentam desenvolvimento educacional inferior e pior qualidade de vida quando adultos. Agressores seguem para a vida com grande probabilidade de apresentar comportamentos antissociais, maior propensão a correr riscos e a envolverem-se na criminalidade.

É importante ter em mente que os bullies não são os únicos responsáveis pela violência, uma vez que também são produtos dela. Agressores tendem a vir de famílias desestruturadas, possuir baixo aproveitamento acadêmico e serem eles próprios alvos de violência e intimidação anteriores, reproduzindo este tipo de comportamento.

Contudo, todo o contexto escolar acaba por ser afetado por esse tipo de violência. Segundo a pesquisadora Yekaterina Chzhen, da UNICEF, ambientes com maior ocorrência de bullying tendem a apresentar piores desempenhos acadêmicos.

Analisar o bullying implica na compreensão das consequências de diversas violências e conflitos que envolvem o contexto escolar, incluindo os alunos, seus núcleos familiares e seu meio social.

Como identificar e prevenir o bullying?

Talvez a maior mentira divulgada por muitas escolas seja que ali “é uma zona livre de bullying”. Isso porque, em teoria, acabar com o bullying só é possível exercendo controle extensivo e proibitivo sobre os estudantes, essencialmente privando-os de qualquer liberdade.

Fato é que, em qualquer meio social, interações negativas irão emergir e o bullying, seja com maior ou menor agressividade, tende a ocorrer mesmo que momentaneamente.

Há, assim, realisticamente, uma constante batalha para dirimir este tipo de comportamento, que deve contar com olhares atentos de alunos, professores, equipe escolar e também da família.

Professores e funcionários devem ser devidamente qualificados para identificar atos de bullying e intervir junto aos alunos envolvidos, levando o caso aos coordenadores. Assim, a escola deve comunicar às famílias para trabalhar os eventos conjuntamente.

Atenção especial deve ser dada a crianças com postura mais introspectiva, mais tímidas e que possuem maior dificuldade em fazer amizades. Estas crianças costumam ser o principal alvo de bullies e possuem maior dificuldade em pedir ajuda. A falta de amizades também as torna mais vulneráveis e mais frágeis para sair de situações de assédio.

Quanto aos pais e à família, é importante estarem atentos a sinais, muitas vezes sutis. Alguns sinais são a reclamação excessiva sobre a escola e sobre os colegas, a ausência de amigos e de convites para eventos sociais.

Mesmo a falta de vontade em convidar colegas para brincadeiras ou aniversário pode ser um sinal.

Conversar diretamente com a criança, entrar em contato com a escola e investigar a situação ou mesmo buscar apoio com psicólogos podem ser formas de identificar potenciais problemas.

É importante que a escola apresente políticas institucionais consistentes contra o bullying. A conscientização através de campanhas, seminários e debates é importante, mas não suficiente.

É preciso também construir caminhos claros para que alunos possam procurar ajuda ou denunciar a ocorrência. Ou seja, é preciso que haja espaços de diálogo.

Acima de tudo, é importante que a escola fomente um ambiente amistoso, cooperativo e que estimule nos alunos posturas éticas e humanas, respeitando as diferenças e individualidades.

O que é Cyberbullying?

Quando o bullying transfere-se para o ambiente virtual, recebe o nome de cyberbullying.

Através da internet, o agressor muitas vezes se faz valer (e se fortalece) do anonimato. Ao esconder-se por trás da tela (de um computador, tablet ou celular), o bully acredita-se impune. E, certamente, é bem mais difícil – mas não impossível – identificar o(s) autor(es) da agressão, nesses casos.

Além disso, o alcance e velocidade da internet intensifica o dano potencial do cyberbullying, visto que rapidamente uma fofoca ou fotomontagem espalha-se pelas redes em um caminho muitas vezes sem volta e de difícil reparação.

Assim, por mais que o cyberbullying não atue como uma violência física, pode causar danos psicológicos bastante severos, visto que amplifica humilhações e discriminações.

O Brasil recentemente posicionou-se em segundo lugar no ranking global de ofensas na internet, quando 29% dos pais ou responsáveis brasileiros consultados na pesquisa relataram que os filhos já foram vítimas de violência online.

Qual é a legislação vigente sobre o Bullying?

Em 2016 entrou em vigor a Lei nº 13.185/2015, que instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying).

O objetivo principal desta Lei respalda-se em prevenir e combater a prática de bullying em toda a sociedade.

Para tanto, propõe-se a:

  • capacitar docentes e equipes pedagógicas para a implementação de ações de discussão, prevenção, orientação e solução do problema;
  • implementar e disseminar campanhas de educação, conscientização e informação;
  • instituir práticas de conduta e orientação de pais, familiares e responsáveis diante da identificação de vítimas e agressores;
  • prestar assistência psicológica, social e jurídica às vítimas e aos agressores;
  • integrar os meios de comunicação de massa às escolas e à sociedade, como forma de identificação e conscientização do problema e forma de preveni-lo e combatê-lo;
  • promover a cidadania, a capacidade empática e o respeito a terceiros, nos marcos de uma cultura de paz e tolerância mútua;
  • evitar a punição dos agressores, privilegiando mecanismos e instrumentos alternativos que promovam a efetiva responsabilização e a mudança de comportamento hostil;
  • promover medidas de conscientização, prevenção e combate a todos os tipos de violência, com ênfase nas práticas recorrentes de bullying, ou constrangimento físico e psicológico, cometidas por alunos, professores e outros profissionais integrantes de escola e de comunidade escolar.

Apesar da lei não prever sanções ou mostrar de que forma erradicar a prática do bullying, traz avanços simplesmente por reconhecer e trazer o assunto à agenda política ao reconhecê-lo como um problema de repercussão nacional, que precisa de uma normatização própria.

A lei promove, ainda, respaldo e credibilidade às vítimas que, a partir de então, possuem base e amparo legal para fortalecer suas reivindicações.

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“Mas nos meus tempos de escola todo mundo tinha apelido e ninguém morreu por isso!”. Será que é tão simples assim?!

Quase tão danoso quanto a prática em si, é um pai, professor, responsável ou gestor escolar naturalizar o bullying considerando-o uma brincadeira banal inerente à infância ou adolescência.

Por mais que não seja simples (ou até mesmo possível, talvez) combater o bullying, ele pode e precisa ser cuidado, pensado, refletido e discutido entre todos os membros da comunidade escolar e, até mesmo, da sociedade.

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