Para muitos, a morte “não é assunto de criança” e na ânsia de poupá-las emocionalmente, procuram blindar os filhos sobre a compreensão dessas circunstâncias. Certamente, não é o melhor caminho. Pode ser o animal de estimação ou um parente querido, as recomendações é que não se esconda esta perda da criança.

Ao longo da pandemia de Covid-19, que já dura mais de um ano, infelizmente a doença tem levado alguns amigos da família e parentes próximos, sendo inevitável que o assunto chegue ao contexto infantil.

Entendendo que a morte é um fato dentro do processo natural da vida, é cada vez mais importante levar  o assunto ao diálogo. A linguagem precisa ser simples, sem infantilizar a criança e sem metáforas do tipo “ vovô virou estrela”.

É bom estar preparado para saber como tratar o luto infantil com respeito, acolhendo a dor da criança e dando chance para que ela amadureça para a vida.

Pois entenda que a maneira como a notícia chega à criança pode facilitar ou dificultar a questão.

Como falar sobre a morte com uma criança?

Fale sempre a verdade

Tal qual tantos outros assuntos difíceis que são tratados entre adultos e crianças, a morte deve ser enfrentada com a verdade.

Lembre-se que os pais, ou outros adultos envolvidos na educação da criança, são pessoas de confiança dos pequenos. E, da forma deles, identificam quando não estão recebendo sinceridade dos mais próximos a eles. Tal atitude por parte do adulto, abala a confiança e a segurança dos pequenos, mesmo que eles não digam nada.

Os pequenos se sentirão mais protegidos sabendo a verdade e sendo permitidos a viver os momentos difíceis junto à família.

Inclusive as crianças sabem muito mais do que o adulto pensa. A psicóloga Juliana Mello da Casa Escola tem reunido as crianças de diferentes turmas e idades para trazer o assunto morte para a fala delas e o resultado é supreendente.

A discussão em sala de aula pega o gancho com algum estudo específico da turma. Por exemplo, com as crianças de cinco anos,  Juliana aproveitou a pesquisa desenvolvida sobre animais de estimação e foi conversar com elas sobre perdas.

Para chegar às famílias, Juliana teve o cuidado de comunicar os pais, com antecedência, sobre o material que seria apresentado às crianças. O vídeo mostrado como gatilho para o debate vem logo a seguir.

Esteja pronto para acolher

Na hora da perda, o que as crianças precisam saber é que existe uma pessoa sensível ao seu sofrimento. De uma maneira ou de outra, elas receberão a notícia que mexerá com as suas emoções assim como a de todos os envolvidos com a perda.

Porém as crianças podem ter o seu modo próprio de vivenciar a morte. Às vezes não reagem como os adultos e nem no mesmo momento em que os adultos estão enlutados. Elas podem continuar brincando e mesmo que não chorem ou fiquem desoladas, elas se ressentem sim e podem ser tomadas pela insegurança.

Esteja atento! Em alguns casos a tristeza não está aparente e a busca pela significação da morte é mais importante do que ficar triste. Como perceber? Isso pode aparecer no meio de uma brincadeira ou através de perguntas que revelam o interesse da criança pela própria morte.

Daí podem surgir perguntas do estilo  Como se morre? Será que vai voltar? Para onde ela foi?” Esse é um momento de desestabilização da criança em função de seu desenvolvimento e compreensão sobre as coisas. Geralmente não tem nada com que se preocupar, entretanto é importante acolher as distintas manifestações por aproximação e validação. Nesses casos, acolha e receba o que a criança tem a dizer.

Caso haja perguntas, haja com simplicidade, escute com gentileza e seja o mais objetivo possível, elegendo bem as palavras, com um tom de voz tranquilo e observando as reações corporais da criança. Nessa hora não dê explicações desnecessárias, procure saber bem o que a criança quer saber. Não fale além da conta.

Evite fantasias

É importante que a conversa seja direta, sem delongas e sem histórias fantasiosas. Claro, respeitando o nível da linguagem e maturidade da criança.

Evite trazer eufemismos como “dormiu para sempre”, “foi viajar”, “virou uma estrelinha”. Além de ser mais difícil compreender a subjetividade da fantasia (a depender da idade),  isto pode causar inquietação emocional.

A criança pode ficar com medo de dormir, toda vez que alguém viajar, temer que não volte mais, ou até não querer mais olhar para o céu à noite…

A dificuldade de adormecer ou acordar no meio da noite pode ser um dos sintomas de insegurança associado à alguma perda da família. Portanto dê o espaço para a criança falar em vez de colocar palavras em sua boca. Escute e aprove, diga que entende o que ela está sentindo com autenticidade.

Tais atitudes protegem a criança e dão espaço para ela crescer emocionalmente.

Não esconda os seus sentimentos

Não é errado permitir que a criança participe da tristeza e da saudade, ambos são sentimentos comuns às pessoas adultas e isso mostra que ela não está sozinha.

As crianças têm clareza e percepções não esperadas, por isso é preciso deixá-las falar sobre o que compreendem sobre a tristeza, principalmente quando se perde alguém amado.

No calor de umas das discussões sobre morte com as crianças do 3o ano (9 anos) da Casa Escola, em função do clima de pandemia, uma delas declarou ter saudades de todos os animais que já morreram. Logo a seguir uma outra criança contestou dizendo que a gente pode ficar triste ao saber que muitos animais morrem, mas só se pode ter saudade, realmente, daqueles que conhecemos.

As crianças pensam e filosofam sobre os assuntos mais profundos, inclusive acerca dos sentimentos e elas precisam reconhecer o que sentem como parte do  que é humano. Acredite, isso as ajuda a amadurecer de forma saudável.

Nessa conversa com as crianças, os adultos também expuseram  seus sentimentos contando o que fazem para se lembrar das pessoas queridas que partiram. E isso pareceu confortar as crianças. O sofrimento de um pode aplacar o do outro e nem tudo vira tristeza. A memória tem o poder de recuperar, também, as coisas boas.

O que fazer no processo do luto infantil?

Evidente que cada pessoa, cada família, enfrenta o luto de uma maneira. A forma como aconteceu a morte ou  o nível de proximidade implica na reação do acontecimento. Mas, para todas as situações há alguns cuidados que podem facilitar o processo do luto.

Como assim, processo? Sim, para adultos ou crianças, o luto não é um fato que começa e acaba em um mesmo instante. Ele tem início, meio e… digamos que não tenha um fim, mas a perda se transforma em lembranças, saudades, insegurança e até mesmo em aflições ou traumas.

Quanto tempo dura o luto? Também não existe um tempo determinado como normal, ou anormal. Porém, a maneira com que se enfrenta o sofrimento demonstra o estágio do processo (independentemente do tempo cronológico).

Para atravessar o processo de luto com a criança, é aconselhável:

  • Admita sentir a dor: não diga à criança para esquecer, ou tente entretê-la a todo o momento tentando distraí-la. Dê espaço para os sentimentos dela. Jamais contenha ou tente reprimir o choro, pois as emoções fazem parte da vida e precisam ser expressas.
  • Permita a memória: trazer à memória os bons momentos vividos e características da pessoa, podem trazer um afago aos sentimentos.
  • Não a estimule substituir a pessoa que partiu: não tem um novo vovô, novo tio, novo pai. A pessoa perdida sempre será única. Tentar substituir pode acarretar mais confusão dos sentimentos.
  • Avalie com a criança a ida ao velório: A depender da idade, pergunte se a criança deseja ir ao velório/enterro. Caso seja o desejo dela, explique o que irão encontrar no local, que ficarão tristes, mas estarão juntos.
  • Sugira um ritual de despedida: caso não seja adequada a ida à cerimônia, para a compreensão dos acontecimentos e resguardo emocional é importante que haja algum ritual de despedida. Se não for com a ida ao enterro, pode ser desenhando ou escrevendo uma carta, plantando uma árvore em memória à pessoa, ou outra ação de homenagem.
  • Avise à escola: a equipe escolar e os colegas de sala podem ser um bom apoio à criança neste processo de luto. Avise-os antecipadamente do ocorrido para que possam estar preparados para ajudar.

Cada criança reage diferente ao luto

Além do contexto social e familiar, a idade da criança pode influenciar em sua compreensão sobre a morte. Entender isto pode facilitar aos pais, ou adultos responsáveis, a perceber a fase do luto em que se encontra a criança.

Com o tempo, as crianças vão amadurecendo e aprofundando o entendimento sobre a morte. O nível de compreensão da perda pode ter relação direta com a reação emocional ao fato.

Conforme a Sociedade Brasileira de Pediatria:

  • Até os cinco anos, as crianças veem a morte como algo reversível, dependendo do laço familiar, podem ver a morte como um estado de ausência temporária.
  • Entre os 5 e 7 anos, eles já conseguem entender como inevitável, como uma situação que as diferentes partes do corpo param de funcionar.
  • É só após os 9, 10 anos, é que elas alcançam melhor a complexidade da morte, sobre suas diferentes causas e que pode alcançar qualquer um, a despeito do estado de saúde, idade…

Neste contexto, a lembrança da ocorrência da morte ou o sentimento de falta pode se sobrepor à compreensão da criança e ela não conseguir expressar bem o que está sentindo.

Daí, o luto infantil pode repercutir na alteração do comportamento habitual (uma criança mais agitada, ou mais quieta do que o comum), nos hábitos alimentares, alteração no sono, irritação acentuada, medo de perder outra pessoa e até no xixi na cama.

Contudo, se estes comportamentos permanecerem em intensidade e a criança demonstrar ainda muita aflição com o acontecido, pode ser o caso de procurar ajudar de um profissional, como um psicólogo, que a auxilie a lidar com a situação e oriente os pais também.

Atividades para trabalhar o luto infantil

Neste processo de luto, algumas atividades podem facilitar pais e crianças na compreensão dos sentimentos e auxiliar a superar a perda.

  • Desenhar e colorir as emoções é uma boa forma de ensinar às crianças sobre as fases do luto;
  • Desenhar e/ou escrever também pode ajudar a expor os sentimentos;
  • Praticar uma ação em homenagem à pessoa pode trazer bons sentimentos à criança como no exemplo da árvore comentada acima
  • Realizar algo que lembrava a pessoa que partiu relacionado ao fazer junto ou apenas trazer para perto algo que a simbolizava de maneira afetiva.
  • Ter um objeto pessoal do familiar, ou amigo, isso pode ajudar a manter as boas lembranças;
  • Produzir um álbum de memórias com fotos e desenhos? Deixe a criança escolher o que deseja inserir no álbum, o que ela quer sempre lembrar sobre a pessoa;

Alguns filmes e livros abordam o tema, o que pode trazer identificação à criança e facilitar seu processo de luto. Alguns exemplos são:

  • Bambi
  • Rei Leão
  • Up, Altas Aventuras
  • Entre os livros:
    • O Pato, a Morte e a Tulipa (Wolf Erlbruch, Cosac Naify)
    • Meu Filho Pato: E mais contos sobre aquilo de que ninguém quer falar (Ilan Brenman e Rafael Anton)
    • Para onde vamos quando desaparecemos? (Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso)

Além do contexto da morte, outros assuntos podem ser difíceis de serem abordados com as crianças. Saber conversar sobre estes temas e os diversos sentimentos que nos ocorrem, constrói uma vida emocional saudável. Confira mais sobre o assunto em nosso artigo Como ajudar os filhos a lidar com as emoções?