Quem nunca foi vítima do Saci? Sabe aquele momento em que você encontra a  chave do carro perdida dentro do refrigerador? Só pode ser coisa do Saci!

Antigamente, quando não havia energia elétrica, o Saci entrava nas casas e apagava o fogo. Hoje em dia, ele adora desaparecer com seu celular e em tempos de coronavírus, é ele quem faz cair a internet na hora daquela Live que você esperou o dia inteiro para assistir.

Pois é, o rapazinho de cachimbo na boca, bem pretinho como carvão e que pula em uma perna só dá muito trabalho mesmo. Seu principal divertimento é atrapalhar as pessoas para elas se percam.

Mas se você quiser se livrar dele, basta tomar o seu gorro vermelho (assim ele perde os seus poderes sobrenaturais), aprisioná-lo em uma garrafa e tampa-la. Nela, marque o sinal da cruz. Fica a dica.

Pois então, quando falamos em folclore, pensamos de maneira lúdica e cultural, daí a brincadeira acima. Para enriquecer a vida brincamos de trava línguas, parlendas e saboreamos comilanças em festejos que todos conhecem e adoram (em alguma fase da vida).

Dentro desse universo cultural, não podemos deixar de lembrar dos personagens tradicionais das lendas brasileiras, seus seres fantásticos, cujas histórias são de arrepiar.

Alguns personagens lendários, como o Curupira, são grandes defensores das florestas e, sem dó, não poupam o inimigo diante da destruição da natureza.

Outros personagens exploram a sexualidade, como o Boto Rosa. Sendo ele extremamente galante e sedutor, engravida as moças da aldeia sem muita explicação.

Mas, gente, tem personagem mais assustador do que a Mula-sem-cabeça?

Reza a lenda, que toda mulher que tivesse relações amorosas com um padre seria castigada e, por isso, transformada em uma mula-sem-cabeça. Que sina, hein?

Melhor pensar direitinho antes de ficar vagando pelas noites com fogo ardente no lugar da cabeça e com o corpo de mula. Que medo!!!!

Mas para quem assistiu as cenas do Sítio do Picapau Amarelo para TV, da obra de Monteiro Lobato, com certeza, os personagens lendários ficaram marcados na memória.

Quem não tinha medo na hora da Cuca aparecer?

 

É indiscutível, as lendas ainda emocionam e são as mesmas histórias que ouvimos de nossos pais, avós, tios e nas escolas, na preocupação de trazer, também para a sala de aula, as riquezas da cultura popular.

Apesar de tradicionalmente o folclore ser abordado no mês de agosto no ambiente escolar, os aspectos da cultura popular podem e devem estar no nosso dia a dia, inclusive as manifestações do folclore devem estar presentes nas escolas durante o ano todo.

Afinal, deparar-se com o folclore de uma região ou de um país e se reconhecer nele é uma questão de formação de identidade.

São as marcas de um povo expressas nas manifestações culturais, o que cria o sentimento de pertencimento.

Com isso se torna importante contar lendas folclóricas para as crianças e adolescentes, tanto como elemento de entretenimento (especialmente neste período de distanciamento social) e como um investimento na formação identitária da criança.

Então, para incrementar este momento de contação de histórias, que tal adicionar algumas lendas do folclore no roteiro de histórias para a criançada?

Primeiro, vamos falar sobre o que é folclore

Se pesquisarmos o significado literal, vamos encontrar que a palavra folclore tem origem no inglês folklore que significa sabedoria popular. A palavra é formada pela junção de folk (povo) e lore (sabedoria ou conhecimento).

No entanto, o conceito de folclore é mais abrangente do que parece. O folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo define o termo como “a cultura do popular tornada normativa pela tradição”.

Dessa forma, podemos entender por folclore as manifestações da cultura popular que caracterizam a identidade social de um povo, com elementos de significados comuns encontrados nas músicas, danças, relatos orais, rezas, lendas, mitos, artesanatos, festas populares, brincadeiras, jogos etc.

Tudo se dá de forma muito lúdica, apesar do aspecto sério, crítico e histórico que está embutido dentro das manifestações culturais.

Como exemplo, podemos trazer os cordéis que são poemas de cunho literário marcados singularmente pelos elementos da cultura brasileira.

A escrita dos cordéis é única e conta com uma linguagem coloquial recheada de humor, ironia e sarcasmo. Além disso, o cordel para ser cordel tem que ter a presença de rimas, métrica e marcas de oralidade, nada é por acaso.

Portanto, para uma manifestação como a lenda se torne cultura, tem que conter as tradições aceitas e construídas por um povo. Um tesouro que deve alimentar as gerações com a sabedoria popular, sejam elas mito ou realidade.

E como surgiram as lendas do folclore brasileiro?

Como destacamos anteriormente, as lendas representam as manifestações culturais de um povo. Em diferentes nações existem diferentes histórias míticas que são contadas e recontadas, inclusive de formas diferentes.

Mas nem tudo é tão diferente assim. Existe uma equivalência entre um mito de um povo e de outro, de uma região e outra, pois cabe entender que, por mais que pertençamos a países diferentes, formamos uma grande nação planetária de seres humanos. E todas as culturas criaram seus mitos e suas lendas a partir do comportamento humano.

Segundo historiadores, as lendas e os mitos brasileiros nasceram principalmente da cultura indígena, em conjunto com as lendas dos portugueses e africanos. A junção das diferentes culturas permitiu desenvolver mitos únicos com pequenas distinções entre um lugar e outro.

Pode-se dizer então que os mitos folclóricos das diversas comunidades que constituem o Brasil trazem traços comuns, formando assim um brasileirismo.

As lendas surgiram por algum motivo que muitas vezes já não nos cabe mais compreender. Mesmo assim deixaram o seu rastro social a partir de um assombro ou de um encantamento, a fim de explicar os acontecimentos quando não havia Ciência para dar conta do recado.

As lendas não se comprometem a trazer um final feliz, mas muitas vezes recuperam a honra de quem sofreu ou perdeu a vida de forma injusta como conta a lenda do guaraná ou da mandioca.

Assim as lendas foram inventadas a partir de uma realidade para proteger a comunidade de alguma ameaça, sustentar uma moral ou explicar, de certa forma, como surgiu uma planta como a vitória régia ou até mesmo a estrela mais brilhante no céu.

E a partir de sua disseminação, passada geração após geração, a lenda virou cultura e tradição.

São histórias que misturam fatos reais com fantasia e episódios sobrenaturais. Boa parte dessas lendas tem um forte componente simbólico, o que é muito bacana para incentivar a criatividade e imaginação das crianças.

Como contar histórias folclóricas?

Podemos contar as lendas para as crianças como contamos as histórias tradicionais dos contos de fada: Frozen de vez em quando pode ser substituída pela Iara, por exemplo, e seu filho vai ter oportunidade de navegar em uma aventura bem brasileira.

E sim, é importante adequar a história de acordo com a idade e preparo emocional da criança, visto que as histórias folclóricas mesclam a realidade com a fantasia e algumas podem trazer uma certa carga de medo ou até mesmo de pavor.

Mas até esse medo não é de todo ruim, se for utilizado como uma emoção da narrativa. É a forma de transmiti-lo que deve ser explorada, de forma lúdica e bem expressiva, aproveitando-se dos mistérios da narrativa e das fantasias que envolvem cada personagem.

É importante ainda ressaltar os aspectos da cultura popular brasileira envolvidos em cada lenda, como uma forma de aprender de maneira divertida sobre a história e a tradição dos povos que formaram e formam o nosso país.

Outra opção, também, é explorar obras literárias que utilizam os personagens folclóricos em situações e enredos diferentes dos contos originais. Muitos deles tratam das diferentes peculiaridades dos personagens de forma divertida, como acontece no já citado Sítio do Picapau Amarelo.

Livros e canais no youtube com lendas folclóricas

Conheça algumas opções de títulos que contêm lendas do folclore ou abordam os personagens de diferentes formas, e escolha as preferidas para contar para seu filho:

Livros

  1. Macacos me mordam!, de Ernani Ssó. Ilustrações de Florence Breton
  2. O primeiro homem, de Betty Mindlin. Ilustrações de Luana Geiger
  3. Mata: Contos do folclore brasileiro, de Heloisa Prieto. Ilustrações de Guilherme Vianna
  4. Os Príncipes do Destino – Coleção Mitos do Mundo – Reginaldo Prandi, ilustrado por Paulo Monteiro
  5. Jacaré não – Antonio Prata com ilustrações Talita Hoffmann
  6. Histórias à brasileira: A Moura Torta e outras, de Ana Maria Machado. Ilustrações de Odilon Moraes
  7. Os meninos que viraram estrelas e outras histórias do Brasil, de Sávia Dumont. Ilustrações de Jô Oliveira
  8. Quem tem medo de Curupira?, de Zeca Baleiro. Ilustrações de Raul Aguiar
  9. Mula sem cabeça: A origem, de Ilan Brenman. Ilustrações de Marjolaine Leray
  10. Minha querida assombração, de Reginaldo Prandi. Ilustrações de Rodrigo Rosa
  11. Como nasceram as estrelas: doze lendas brasileiras, de Clarice Lispector. Ilustrações de Suyara
  12. Lendas brasileiras para jovens, de Câmara Cascudo (Global)
  13. Eu vi o Saci, de José Carlos Pontes. Ilustrações de Gladir Arruda
  14. A Cuca de batom que dançava balé, de Adriana Felicíssimo
  15. Os guardiões do verde, de José Maurício Séllos. Ilustrações de Lavínia Lopes.
  16. Dois chapéus vermelhinhos, de Ronaldo Simões Coelho. Ilustrações: Humberto Guimarães

Canais de Youtube

Já estes canais no youtube trazem as lendas em uma linguagem adaptada ao universo infantil:

  1. Turma do folclore
  2. Animaflix

 

Além da contação de histórias, existem outras atividades que podem ser realizadas em casa para um momento de descontração em família.

Veja nosso texto sobre Crianças em casa: atividades para fazer durante a quarentena e promova momentos prazerosos junto ao seu filho. Ele vai adorar!