É perceptível que, para toda uma geração, o Youtube está substituindo a televisão. É fácil perceber isso no cotidiano das crianças, tanto em casa como na escola, com mudança nas expressões utilizadas, nos ídolos e nas influências. Isso acontece em um mundo à parte sobre o qual muitos pais sabem pouco ou quase nada.

Youtube é uma plataforma que tem sido utilizada por todos, e para muitos é um hábito diário. De todo o tráfego de dados da internet móvel, 37% é apenas do acesso ao Youtube. Por um lado, há uma carga positiva, tanto em termos de entretenimento quanto no fator educacional; Por outro lado, a plataforma também abre a porta para muitos perigos.

Se você se preocupa com as longas horas que seu filho passa olhando vídeos e a dificuldade que ele tem em se desligar da plataforma, você está certo. Com milhões de horas de conteúdo voltado para crianças de todas as idades, a plataforma possui muitas possibilidades encantadoras e de qualidade, mas também há o lado negativo.

Devido ao próprio design inerente à ferramenta, não precisa de muito para o conteúdo de qualidade se misturar com o questionável ou mesmo o claramente inadequado.

Retirar totalmente a utilização do YouTube pode ser uma solução drástica e até mesmo inviável dentro do contexto sociocultural das crianças. É preciso pensar em formas de como lidar de maneira saudável com a plataforma de vídeos.

Assim, neste artigo, vamos explicar um pouco mais sobre como o Youtube funciona, quais os perigos que muitos pais ignoram ou desconhecem e como traçar estratégias para lidar com isso.

Youtube não é uma nova televisão

A televisão nos últimos 50 anos foi um elemento de grande influência na vida de muitas crianças. O aparelho normalmente ocupava o centro da sala e era o canal pelo qual os pequenos poderiam assistir seus programas favoritos.

Uma vez que nenhum programa de interesse da criança estivesse passando, não havia alternativa a não ser buscar outra forma de entretenimento. Assistir em conjunto com os irmãos, amigos ou familiares também proporcionava um fator de sociabilidade.

Dito assim, nem parece que a televisão sempre foi muito questionada em termos de sua influência para o desenvolvimento das crianças. Programas e desenhos apelativos e conteúdos impróprios, assim como centenas de propagandas voltadas para o público infantil, sempre existiram nas emissoras de televisão.

No entanto, programas de televisão são elaborados por grandes equipes de especialistas, passam por análise por parte da emissora e são escrutinados por órgãos reguladores. Mesmo em uma operadora de TV por assinatura, com grande número de canais, é mantido esse criterioso controle de qualidade – apesar de alguns poucos canais acabarem por deixar passar esses conteúdos inadequados de forma despercebida.

Sendo assim, um televisor no meio da sala passando programação imprópria tende a chamar mais facilmente a atenção de pais e responsáveis que estejam acompanhando a rotina do filho, facilitando o controle.

É possível até ficar tentado a imaginar que o Youtube é uma evolução natural disso, com mais ou menos as mesmas consequências, mas não é tão simples assim. O Youtube funciona por uma lógica completamente diferente, como discutimos a seguir.

Está acessível e ao alcance a todo o tempo

Crianças e adolescentes têm muitas opções para acessar a plataforma. Celular, Tablet, Smart TV, computadores ou até videogames: Todos são dispositivos facilmente encontrados dentro de muitas residências de classe média brasileira e são passíveis de acesso ao Youtube.

Essa ampla disponibilidade torna possível o acesso estando na sala de casa, na cozinha, no banheiro, no quarto, na escola, no carro, na casa da avó no interior, no restaurante ou no playground… Basicamente qualquer lugar que tenha acesso à internet.

Mesmo com a supervisão dos pais, o acesso da criança segue seus próprios interesses e vontades acerca de qual conteúdo quer consumir naquele momento, de forma individualizada.

Não é raro hoje em dia a cena de dois irmãos, cada um com seu dispositivo, assistindo coisas completamente diferentes, por horas a fio. Há, desta forma, uma tendência ao isolamento dentro de uma bolha muito particular.

Tudo o que você imagina (e não imagina) está ali

O controle sobre o conteúdo postado na plataforma é, na melhor das hipóteses, frágil. A cada dia, 600 mil horas de vídeos são colocados na plataforma, somando-se a uma quantidade absurda de conteúdo já existente ao longo dos últimos 15 anos.

Estes vídeos são completamente aleatórios. Vídeos sobre animais de estimação,  documentários, brincadeiras, cópias piratas de filmes e séries, vídeos destinados ao público infantil, notícias, conteúdo erótico ou sexual, e discussões políticas: É possível encontrar conteúdo sobre absolutamente tudo.

Muitos vídeos indicados e recomendados para o público infantil são muito semelhantes a propagandas de brinquedos. Um dos conteúdos mais acessados em toda a plataforma são os chamados “unboxing”, em que o vídeo mostra um novo produto sendo retirado da caixa.

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Essa lógica também funciona com brinquedos e existem canais com milhões de visualizações dedicados simplesmente a isso: retirar brinquedos da embalagem.

O controle sobre o conteúdo é insuficiente

Levando isso em consideração, o Youtube possui algoritmos que analisam automaticamente tudo o que é postado. Em teoria, esse sistema busca banir automaticamente qualquer vídeo que infrinja as políticas de conteúdo: pornografia e conteúdo violento, violações de direitos autorais e da privacidade alheia, assédio, propagandas enganosas e golpes.

Essa enorme peneira digital, no entanto, invariavelmente deixa muita coisa passar. É simplesmente impossível monitorar todo o conteúdo postado. Mesmo os avanços recentes em termos de inteligência artificial não são suficientes para garantir que as normas do site sejam plenamente cumpridas.

O resultado disso é que qualquer usuário em potencial está apenas a alguns cliques, ou a uma pesquisa pouco específica, de conteúdos em desconformidade com as políticas da plataforma. E é neste universo que crianças e adolescentes podem acabar mergulhando.

O controle sobre a produção de conteúdo é realizado unicamente por quem os produz, e existem mais de 24 milhões de canais. Alguns são organizados por empresas e equipes profissionais, enquanto outros trabalham de forma amadora. É um lugar onde todos têm voz, o que inevitavelmente leva a alguns absurdos.

Mas se há uma característica principal do Youtube enquanto plataforma, é o uso de algoritmos para sugerir vídeos aos usuários. Este é o principal fator que leva ao “vício” no site e o que pode fazer com que conteúdos inapropriados sejam transmitidos automaticamente para crianças e adolescentes.

Algoritmos e Maximização do Tempo de Tela

Se você já experimentou abrir o Youtube no celular ou computador de outra pessoa, talvez tenha percebido que as recomendações, as propagandas e mesmo os resultados das buscas podem ser radicalmente diferentes.

Este é o ponto principal do Youtube: descobrir tudo o que pode ser de seu interesse e oferecer a você atrativos para que fique o máximo de tempo possível no site e, assim, consuma o máximo possível de propagandas também.

Para fazer isso, ele primeiro usará as informações básicas de quem está acessando: idade, sexo, localização geográfica e outras expectativas básicas sobre sua faixa de renda e hábitos.

Lembre-se que a qualquer momento em que você interage com o Facebook, Instagram ou alguma das ferramentas do Google (site de buscas, o Youtube, ou o Gmail, por exemplo), ele coleciona informações sobre você (usuário).

A partir destas informações básicas, o Youtube irá continuar a construir a sua experiência com base no seu consumo de vídeos. O que mais você gosta de assistir? Vídeos de culinária? Trailers de filmes? Músicas? Animais “fofíneos”? Conforme as suas buscas por vídeos, o tempo de engajamento e o consumo das recomendações, um algoritmo irá descobrir qual a melhor maneira de prender você ao site assistindo vídeo após vídeo por horas a fio.

Muitos vídeos indicados e recomendados para o público infantil são muito semelhantes a propagandas de brinquedos – como no caso dos vídeos sobre “unboxing”. Vídeos sobre adultos usando vozes infantilizadas tirando brinquedos das caixas (muitas vezes quinquilharias) possuem um apelo muito forte com crianças, gerando milhões de acessos. E quanto mais popular se torna o vídeo, maior as chances de ser recomendado.

O Youtube se torna melhor em prender o usuário a cada novo vídeo assistido, pois está sempre aprendendo o que vai atrair maior atenção. Não há qualquer interesse que o usuário saia da plataforma para engajar em outra atividade.

Se para adultos, perder-se em uma cascata de recomendações pode ser algo fácil, o que dirá uma criança ou um adolescente que ainda está aprendendo a lidar com compulsividade e que possui uma curiosidade natural?

Mais preocupante ainda é quando as recomendações descambam para o puro mau gosto ou mesmo o grotesco, algo que não é muito difícil de acontecer. Mesmo uma busca por conteúdos de interesse infantil, como “slime”, “música”, “vídeo game” podem levar a recomendações inadequadas.

Não adianta proibir

É preciso deixar claro que estes aspectos negativos precisam ser geridos e que proibir o uso simplesmente não é adequado.

Em primeiro lugar porque é praticamente impossível. Lembre-se de todos os dispositivos onde o Youtube está disponível e a facilidade de acesso para muitas crianças e adolescentes. Mesmo que o controle seja feito em casa, isso não pode ser feito na casa de coleguinhas, na escola ou em visitas a parentes.

É também preciso considerar que a plataforma possui um efeito cultural muito grande no mundo atual, que é ainda maior para as gerações mais novas.

As personalidades, o lazer, os “memes”, a informação e o entretenimento são compartilhados entre amigos de forma a gerar um entendimento comum acerca do humor e dos interesses do grupo. Crianças e adolescentes dentro de um grupo tendem a assistir os mesmos canais e conversam sobre eles, fazendo sempre recomendações entre si sobre o que acharam mais divertido ou interessante.

Assim, proibir a plataforma totalmente pode gerar alienação do meio social e ressentimento, além de não funcionar. O ideal é estar sempre presente e gerenciar da melhor forma o que seu filho está tendo acesso.

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