Se os termos “aulas online”, “ensino a distância”, “ensino remoto” foram alguns dos mais utilizados em 2020 quando o assunto era educação e distanciamento social, para o retorno às aulas em  2021 o destaque vai para o “‘ensino híbrido”. Mas você sabe o que é e como funciona?

Na verdade, este conjunto de metodologias pedagógicas não é uma novidade, nem foi criado devido aos recentes acontecimentos. Contudo, sua implantação nas escolas certamente foi acelerada por causa do cenário de isolamento social, vista a necessidade de uso mais intenso dos recursos tecnológicos como suporte para a aula.

Conforme José Moran, em capítulo do livro ‘Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação’, “a educação sempre foi misturada, híbrida, sempre combinou vários espaços, tempos, atividades, metodologias, públicos. Esse processo agora, com a mobilidade e a conectividade, é muito mais perceptível, amplo e profundo: é um ecossistema mais aberto e criativo” seja para o professor como para o aluno.

Afinal, as crianças e jovens estão cada vez mais integradas às tecnologias digitais em sua rotina diária. É uma geração conectada que empreende diferentes relações sociais com o conhecimento. Este cenário exige, portanto, mudanças significativas na escola.

Mas, então, o que é ensino híbrido?

Conhecido também como blended learning, o ensino híbrido proporciona uma associação entre o presencial e o online (ou mesmo off-line, tanto no uso de recursos digitais como no uso de recursos físicos) de forma complementar, caminhando, cada vez mais, para a personalização do ensino.

Esta metodologia é uma das maiores tendências da Educação do século XXI, visto o crescente relacionamento da sociedade com as tecnologias e a compreensão de diversidade, quando cada sujeito é único e tem um modo peculiar a ele de aprender.

No entanto, para a prática do ensino híbrido, não basta disponibilizar computadores e outros aparatos tecnológicos às crianças, como recurso para as aulas. O método de ensino vai além das plataformas e atividades digitais como acessórios das aulas.

A prática traz transformações à organização da sala de aula, ao planejamento pedagógico e à gestão do tempo na escola, a partir da inserção de outras metodologias possibilitadas pelo bom uso da tecnologia no processo de ensino-aprendizagem.

Lembram do retroprojetor, em que o professor tinha o conteúdo das aulas em slides e a cada ano que passava, ele apresentava os mesmos slides para a nova turma, sem fazer nenhuma alteração?

Entenda que a chegada do retroprojetor enquanto tecnologia trouxe enormes benefícios ao ensino, mas quando mal utilizado transformava a sala de aula em puro tédio. O mesmo acontece com qualquer tipo de tecnologia.

Então, o ensino híbrido com suas diversas metodologias e com o auxílio das tecnologias veio para incrementar e dinamizar o aprendizado, engajar mais o aluno no que foi proposto e torná-lo mais autônomo em suas descobertas. É para tornar o ensino mais ágil e amplo, assim facilitar a horizontalização do conteúdo e engajar mais os estudantes. Enfim, para o aluno por si só sair da superficialidade e do senso comum.

Portanto o papel do professor é fundamental como articulador das metodologias voltado para  potencialização do processo ensino-aprendizagem.

Vantagens do ensino híbrido

Cada vez mais conectados com o mundo digital, crianças e adolescentes estão desencadeando novas formas de se relacionar com o conhecimento. Alguém tem alguma dúvida quanto a isso? A escola, portanto, não pode ignorar estas transformações e, por meio de mudanças significativas, responsáveis e modernas pode proporcionar uma aprendizagem mais próxima da realidade dos alunos.

É uma forma de integrar as tecnologias digitais ao processo da aprendizagem de forma diferenciada, promovendo autonomia, pensamento crítico e alunos mais ativos na protagonização da construção do conhecimento.

Inclusive, junto ao professor, o aluno pode definir o seu processo de aprendizagem, elegendo os recursos com os quais está mais familiarizado e/ou que identifica como melhor para sua compreensão dos assuntos. Nesse sentido, o professor está próximo (no modo virtual ou no modo presencial) e segue cuidando e orientando cada aluno.

Nesta perspectiva é dada a oportunidade do professor atuar na personalização do ensino. Questões como ritmo, tempo, lugar, modo de aprender são contemplados favorecendo a criação de outras estratégias de ensino e adaptar atividades com maior fluidez. Isso por meio dos recursos digitais, ou não, e pensando o aluno em seu modo de ser e de aprender.

Outro benefício diante da ampliação das metodologias de ensino ao mundo digital é a possibilidade de o professor se dedicar mais às dúvidas e acompanhamento individual dos alunos, especialmente àqueles com maiores dificuldades.

O acompanhamento pode ir além da observação presencial e, com o apoio da tecnologia e, inclusive, da inteligência artificial, o docente consegue obter com rapidez dados sobre cada aluno que poderão ser analisados de forma personalizada, a fim de se criar outras estratégias em função de um ensino mais diversificado.

Um bom exemplo de personalização de ensino, tecnologia e mediação:

Para melhor ilustrar, temos um bom exemplo que representa o resgate de um aluno que, no ambiente virtual, não estava conseguindo fazer link com a professora de sala de aula e nem com a professora do Atendimento de Educação Especial. Aqui vai parte do resgate do aluno no uso das tecnologias e recursos digitais:

Ricardo apresenta dificuldades em significar as leituras e situações, o que ficou mais evidente no ensino remoto. Ele precisava de ajuda individualizada após cada texto lido pela turma pois não acompanhava as discussões.

No ensino remoto, a professora da Atendimento de Educação Especial saiu dos conteúdos da turma e fixou um objetivo específico para Ricardo: significar de maneira detalhada uma narrativa e, a partir dela, realizar uma produção textual coerente.

Na condição de ensino remoto, a professora disponibilizou para Ricardo uma série de curtas de animações em vídeo para que ele escolhesse apenas um, o que melhor lhe agradasse.

Após discussão e entendimento bem detalhados sobre o vídeo escolhido, Ricardo sinalizou as cenas mais significativas, assim para recriar a história de outro jeito.

O Print do computador congelou as várias imagens escolhidas pelo aluno, as quais possibilitariam reunir uma nova sequência da narrativa com base no roteiro original.

A cada imagem, Ricardo escreveu um diálogo referente à história em forma de balãozinho, do gênero HQ.

A transposição do vídeo para a história em quadrinhos foi permeada pelas tecnologias, mas o uso do caderno também ocorreu na hora de pensar e escrever as falas.

Em função do bom planejamento e mediação da professora ao longo dos 5 encontros fizeram de Ricardo um aluno autor e protagonista que aprende e, inclusive, compreende bem o que faz. E isso é muito bacana.

Parece simples assim, mas para que isso acontecesse foi necessário que as tecnologias se aliassem às intenções e ações da profissional que trabalhou com Ricardo no paciente ato de educar, cuidar e ensinar, agora usando recursos que interessam mais o aluno sem deixar de lado as velhas e boas tecnologias como o caderno e o lápis.

E o que são as metodologias do ensino híbrido?

Como já foi mencionado no início, a variação das metodologias de ensino sempre existiram. Mas, com a intensificação das tecnologias na vida dos alunos e professores, algumas delas estão sendo bem comentadas em função do aprimoramento do ensino. Muito bem pensadas e arquitetadas no planejamento do professor, as metodologias mais à vista são:

Rotação por estações

Neste modelo os estudantes são divididos em grupos com diferentes propostas de atividades, conforme os objetivos do professor para a aula. As tarefas não são sequenciais, mas se complementam. Em um período determinado, os alunos se revezam nas estações, de maneira que os grupos passem por todas elas.

Enquanto isto, o professor media a realização das atividades. No grupo de estudantes que precisa de mais atenção, o professor, por estar mais próximo, tem a possibilidade de intervir mais. Nas diferentes estações podem ser explorados diversos recursos, como vídeos, literatura, atividades online, entre outros que são debatidos entre os componentes dos grupos. A realização da atividade ser individual ou em grupo fica a mercê do planejamento do professor.

Sala de aula invertida

Como a própria nomenclatura da técnica diz, há uma inversão da prática de ensino relacionada às aulas expositivas em função de um aluno mais ativo. Nesse modelo, os alunos têm contato com o conteúdo teórico em casa, em formato de vídeo, texto ou em outro formato. O momento em sala de aula é utilizado para discussões, atividades práticas ou tirar dúvidas. Na ocasião, o aluno deverá apresentar o que aprendeu e elaborou em casa de forma a criar novas situações de aprendizado.

Laboratório rotacional

Nesta dinâmica de aula, o professor organiza a turma de estudantes em dois grupos. Enquanto um ocupa o espaço do laboratório com a utilização da tecnologia digital, o outro grupo permanece na sala de aula com a presença do professor ou organizados em pequenos grupos de estudo.

Flex

Os estudantes recebem uma lista de atividades ou roteiros a serem realizados de acordo com o ritmo de cada perfil de aluno. As tarefas são executadas principalmente no ambiente online e o professor opera dando suporte para esclarecimento de dúvidas, apoio na organização dos roteiros de estudos e elaboração de projetos em grupos.

Nesse sentido, o roteiro é um bom recurso que pode acompanhar as distintas metodologias e quando bem construído, pensando o grau de desafio dado ao aluno, gera a confiança e, consequentemente, aumenta a autonomia do aluno.

À la carte

Nesse modelo, usado no Ensino Médio em escolas do primeiro mundo, em que a autonomia do estudante é ainda mais valorizada, o estudante traça o seu percurso de formação a partir de possibilidades quando ele se torna o responsável pela organização dos seus estudos – em parceria com o educador. As disciplinas são eleitas pelo aluno, sendo pelo menos uma no formato online. Também é escolha do estudante o local mais conveniente para a aprendizagem.

Virtual aprimorado (ou virtual enriquecido)

O contato com as disciplinas é por meio online. Desse modo com o conteúdo disponibilizado em alguma plataforma de ensino o aluno trabalha em casa e só vai à escola uma vez na semana para a realização de atividades, como projetos e discussões sobre o conteúdo aprendido.

Esta metodologia não pode ser confundida com ensino síncrono, quando tanto o aluno que está na escola como aquele que está em casa ouvem, simultaneamente, a voz do professor com suas explicações.

Cabe entender que há toda uma intencionalidade por trás de cada metodologia e nem sempre uma metodologia se ajusta a todos os alunos.

O papel dos educadores e seus desafios

Um dos grandes desafios para a prática do ensino híbrido é a junção das diferentes gerações envolvidas no processo de ensino-aprendizagem.

Por um lado, temos as crianças e adolescentes, nativos digitais, que nasceram imersos na cultura digital. Estes têm uma relação com a tecnologia baseada no aprendizado intuitivo – a partir do uso dos recursos e plataformas digitais, adquirem conhecimento.

Por outro lado, temos os professores, considerados da geração de imigrantes digitais: pessoas que não tiveram acesso às tecnologias digitais durante sua infância e, agora, buscam se inserir no mundo digital e se familiarizar com as inovações.

Lilian Bacich, doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP) – que atuou na equipe de gestão do Grupo de Experimentações em Ensino Híbrido, parceria entre a Fundação Lemann e o Instituto Península – esclarece: “a maioria dos professores, imigrantes digitais, tem uma forma de ensinar que nem sempre está em sintonia com o modo como os nativos aprendem melhor, ou pelo menos, que lhes desperta maior interesse”.

A educação transforma a vida das pessoas. E as interações sociais também transformam a educação. O ensino híbrido, neste contexto, compreende e vem abarcar estas mudanças.

A metodologia também promove a educação para o domínio do conhecimento e valoriza as relações interpessoais já tão exploradas na cultura digital.

São novas relações a serem construídas e alinhadas: a forma de ensinar dos professores/imigrantes com a forma de aprender dos alunos/nativos digitais.

Ficou interessado em se aprofundar mais neste assunto? Confira então o nosso texto sobre a Educação 3.0