O ser humano interage com sons, silêncios e com a música em sua maneira de ser e estar no mundo. Fazer música não é privilégio dos músicos. Realiza-se de maneiras e motivos diversos, com diferentes níveis de competências, conhecimentos, possibilidades e recursos. O que varia é o grau de complexidade.

A música possui um papel fundamental para o ser humano. Pesquisas e teorias indicam que o relacionamento com o sonoro tem início ainda no útero, com os sons provocados pelo corpo da mãe e também com estímulos vindos do ambiente externo.

O bebê ouve e produz sons e silêncios, realizando, à sua maneira, um jogo que parece apontar para a origem do fazer musical.

Novamente, o que muda entre as primeiras experimentações sonoras de um bebê, as primeiras composições e improvisos de uma criança, e uma performance de um músico “profissional” é apenas o grau de complexidade.

Assim, é importante reconhecer que as crianças são produtoras musicais, observando e dando espaço para seu fazer musical.

O reconhecimento dessa importância levou o Governo Federal a aprovar a Lei 11.769 de 2008, determinando a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica – portanto, na educação infantil, no ensino fundamental e médio.

Infelizmente, essa é mais uma das leis que “não pegou” e até hoje não consegue ser implementada integralmente. O esforço para o ensino da música, desta forma, precisa partir de cada escola ou da família.

Contudo, não é exagero dizer que de uma forma ou de outra, a maior parte das escolas trabalha música com crianças. Mesmo que sem instrumentos, o incentivo ao canto – como em cantigas de roda – já pode ser considerado um passo nesta direção.

Quanto mais amadurecem as crianças, menos incentivo é dado ao estudo da música. Isso parece fazer sentido dentro do conceito de hierarquia de disciplinas discutido em posts anteriores. Afinal, porque a música deveria ocupar espaço que poderia ser usado para “assuntos sérios” como matemática ou gramática?

Embora obviamente a música possua valor por si só, enquanto arte, sabe-se hoje que a música contribui muito para o desenvolvimento cognitivo, além de ser um estímulo fundamental para a criatividade. Ela gera, assim, benefícios que transbordam para outras áreas.

Muitos estudos comprovam essa importância, e é por isso que as escolas podem contribuir muito abraçando a educação musical como ferramenta didática, o que veremos com mais atenção a seguir.

Música alimenta o Cérebro

Alguns estudos da Neurociência têm se dedicado a desvendar o papel da música no desenvolvimento do cérebro humano. Usando ferramentas como Tomografias por Emissão de Positrons (imagens em 3D do cérebro) e Ressonâncias Magnéticas, é possível descrever os efeitos da música tanto para quem escuta quanto para quem produz.

De acordo com Koelsch (2009), o que estes estudos têm descoberto é que as atividades que envolvem música são capazes de ativar diversas estruturas cerebrais envolvidas em processos cognitivos, emocionais, sensoriais e motores. A música, assim, engaja:

  • Atenção; 
  • Processos relativos à memória; 
  • A mediação percepção-ação; 
  • A integração multisensorial;
  • As mudanças de atividade em áreas centrais do processamento emocional;
  • Processamento de sintaxe musical; 
  • Processamento de significado musical;
  • Cognição social.

Estas diferentes áreas do cérebro são trabalhadas pelo simples ato de escutar música. No entanto, segundo o pesquisador, elas se tornam muito mais ativas e engajadas através da prática musical.

Um estudo de Brown Zatorre e Penhune (2015) explica com riqueza de detalhes como a atividade musical atua no cérebro.

Pense por um momento: O que envolve o ato de fazer música? Para fazer música é preciso planejamento e execução, memória e controle. Esses elementos estão presentes em qualquer performance musical e são fundamentais para uma apresentação precisa e encantadora.

O que o cérebro de um músico faz durante uma apresentação é:

  • Usar sua memória de longo prazo (conhecimento musical e do planejamento prévio);
  • Usar a memória de trabalho, necessária para a execução e correção de cada segmento musical; 
  • Usar habilidades motoras, ou seja, transformar a memória de longo prazo e de trabalho em som através da execução dos movimentos físicos;
  • Controlar a apresentação monitorando o feedback – atentar para a qualidade da performance durante a mesma, alterando e o corrigindo o que for necessário.

O resultado disso é um desenvolvimento maior do córtex visual, motor e auditivo. Praticar  música envolve engajar tanto o lado esquerdo do cérebro, que possui maior responsabilidade por funções linguísticas e matemáticas, com o lado direito de cérebro, que é mais responsável por funções criativas.

Isso ajuda no desenvolvimento do corpo caloso do cérebro, responsável por fazer a ponte entre os dois hemisférios. Com esta conexão melhor desenvolvida, a comunicação entre os dois hemisférios se torna mais rápida e toma rotas diversas.

O que isso faz é tornar possível pensar na solução de problemas de forma mais efetiva e criativa, algo que não vale apenas para a música, e que pode ser usado tanto na academia, quanto no meio social.

A música auxilia em outras disciplinas

A prática estruturada e disciplinada de música é algo que vai ajudar no desenvolvimento das funções cerebrais, sendo que os benefícios são colhidos nas diversas áreas do saber.

O estímulo realizado no cérebro, assim, incentiva a capacidade de concentração e foco, a memória, a criatividade, a resolução de problemas, dentre outras habilidades que são fundamentais em toda a vida acadêmica e também profissional.

O que um estudo canadense de 2019 conseguiu demonstrar é que alunos que praticam atividades musicais apresentam consistentemente desempenho escolar acima dos colegas que não estão envolvidos nestas atividades.

De forma semelhante, outro estudo de 2008 demonstrou que ganhadores do prêmio Nobel possuem uma maior probabilidade a ter hobbies musicais do que o restante da população de cientistas.

Assim, não é que a música por si só irá tornar o aluno um gênio da matemática ou saber tudo de história, mas irá ajudar no desenvolvimento de habilidades fundamentais que o permitirão ter melhor desempenho acadêmico.

Música na Escola

A escola é um ambiente perfeito para inserir a educação musical desde a primeira infância.

No espaço escolar, a música pode ser implantada de diversas formas, desde a observação e percepção dos sons ao redor, até por brincadeiras e contações de histórias.

O fazer musical – principalmente quando se refere à educação infantil – ocorre em sua forma de experienciar, desenvolver e construir conhecimentos no campo musical num processo que se enriquece e assume maior significado gradativamente.

O reconhecimento da importância da educação musical escolar no Brasil já é inclusive respaldada por Lei, que exige a educação musical no ensino básico em todas as escolas públicas e privadas do Brasil, sem, no entanto, a necessidade de uma disciplina exclusiva para tal.

Se existe a possibilidade de um profissional especialista em arte musical, melhor ainda! As aulas de musicalização e todos os momentos de vivência musical e contato com esta linguagem artística são espaços de estreitamento da relação com o sonoro.

Um projeto escolar de educação musical deve considerar a música como sistema dinâmico de interações e relações entre sons e silêncios, entre repetições, atenção, escuta, replicações, produção e movimento, entendendo que o processo de musicalização caracteriza-se pela construção de vínculos e aproximações com essa linguagem.

Para tanto, é preciso permitir que a experiência musical no plano da educação seja território para o jogo do perceber, do intuir, do sentir, do refletir, do criar, do transformar etc.

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As atividades de criação (adaptadas a cada faixa etária) – que incluem jogos de improvisação, composições, arranjos, construção de instrumentos, formas de registro e grafia – integram o cotidiano musical dos alunos, em cada fase, com base na tradição e também na pesquisa de novas possibilidades.

Estas atividades devem ser realizadas em contextos de intersecção com os conteúdos trabalhados e também com as demais formas de realização musical.

O caminho se revela por meio de um conjunto de atividades que ampliam:

  • A atitude para escutar, relacionar e estruturar sons e silêncios; 
  • O domínio técnico para produzi-los com qualidades diversas e em diferentes meios (voz, percussão corporal e outros instrumentos); 
  • A maestria para construir instrumentos musicais; 
  • A possibilidade de codificar e decodificar os produtos musicais; 
  • A capacidade de conhecer, analisar e interagir com os sistemas de produção musical vigentes na cultura; 
  • A capacidade de superar e transformar tais sistemas
  • A maneira de entender e significar a atividade musical dentre as ferramentas de expressão, comunicação e representação do mundo.

Música não é só meio, é fim também!

“Por que a música é suplementar à educação e preparatória para a vida e não a ‘vida’ por si só?”

(Natalie Frakes)

Já está mais do que comprovado que a música é uma ferramenta poderosa para melhorar o cérebro, a memória, para fazer crianças se saírem melhor em outras disciplinas.

Mas muitas vezes esquecemos de mencionar que a música, por si só, já é! Ela tem um fim em si mesma.

A música é importante porque é abstrata, não significa nada além de si mesma. No entanto, quando você toca ou ouve um som, você pode interpretá-lo à maneira que quiser.

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Cada som, cada canção evocará coisas diferentes em pessoas e momentos diferentes.

Música não descreve, não narra, não conta histórias, a música evoca, sugere, implica e abre a mente de uma criança de forma específica e extraordinária – diferente do teatro, da dança ou das artes plásticas.

Trabalhar com música incita a escuta ativa que, por sua vez, revela-se criativa e crítica de nós mesmos e do mundo que nos rodeia. Esse processo vivo inclui os momentos e movimentos de expressão e criação dos sons, naturais ao universo infantil.

As canções, cantigas, histórias e brincadeiras de roda enriquecem e ao mesmo tempo corporificam o fazer musical.

Ouvimos nossas vozes, mas também podemos sentir os sons e brincar de formas mais elaboradas na medida em que vivemos os processos de escuta, produção e improvisação sonora.

Quando aliada à poesia, a música já oferece outro potencial expressivo. Letras simples ou complexas, unidas aos sons e às vezes à dança, promovem diversos diálogos entre os indivíduos e anseios emocionais, estéticos, a forma como se percebe e se relaciona com o mundo, as reflexões políticas e críticas sobre questões que nos rodeiam e temas que saltam aos nossos olhos, ouvidos e corações.

Digo, sem medo de errar: A música é agente de transformação!

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