Discutir a educação pensada de forma humana é algo absolutamente lindo!

Tem se percebido um despertar na busca por uma educação mais humanizada. É um movimento que une muitos pais, escolas e profissionais da educação, cientes de que o desenvolvimento de crianças e adolescentes vai muito além do cognitivo – e, ainda assim, o desenvolvimento cognitivo dos alunos só se torna mais frutífero em um ambiente mais humano.

No entanto, olhar para o cenário da educação, hoje no Brasil, parece dar certeza de que uma série de fatores estruturais torna as escolas cada vez mais desumanizantes.

Existe também a utilização do conceito de forma superficial e ingênua, em um discurso muitas vezes academicista, e que não se traduz na prática. É fácil dizer que a escola busca uma educação humanizada, mas continua seguindo as mesmas práticas educacionais burocráticas de sempre.

O padrão contemporâneo da educação visa a eficiência no ensino e o desempenho objetivo em provas. Esse estilo de educação ignora plenamente o lado humano.

Privilegiando o aspecto cognitivo, confundem educação com condicionamento e o resultado são jovens desencorajados a demonstrar individualidade e a expressar qualquer traço de genialidade.

Vamos explicar melhor por partes, continue lendo!

Como funciona a educação burocrática?

No Brasil existe uma coisinha chamada ENEM, que você já deve ter ouvido falar, e que leva muitos adolescentes, pais e professores à beira da loucura.

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) unificou a prova de entrada em muitas das universidades mais cobiçadas do país, embora algumas universidades públicas e privadas ainda possuam também seus próprios vestibulares.

O conceito parece simples, puro e justo. Meritocrático, até. Através de um único critério objetivo – o desempenho na prova – os alunos conquistam vagas na Universidade. O que pode haver de errado nisso?

Os melhores alunos são, então, aqueles que mais extraíram do conteúdo programático, e são capazes de responder corretamente mais questões objetivas em tempo hábil. Se esforçaram mais para isso e, assim, têm melhores condições de cursar o ensino superior.

Se um excelente desempenho no ENEM torna-se o ápice do que um aluno deve almejar, não faz sentido que a preparação para a prova se torne o objetivo central?

O resultado é uma cultura educacional fixada na preparação para A Prova, e que se torna, infelizmente, predominante. Escolas anunciam o desempenho de seus alunos em outdoors. Projetos educacionais se vangloriam de alunos fazendo simulados cada vez mais cedo.

As apostilas, as atividades, os professores: a escola se transforma em uma unidade de condicionamento preparando alunos cada vez mais craques em responder provas.

Isso é uma questão observada por especialistas na educação de uma forma ou de outra. Grosso modo, o ensino básico se tornou, ao longo do tempo, uma grande preparação para o ingresso no ensino superior.

A prova, que deveria ser apenas um dos vários recursos avaliativos possíveis, uma medida comparativa da absorção do conhecimento, e, portanto, um auxiliar no processo educacional, ganha protagonismo máximo.

Assim, durante a vida escolar, as provas são mais frequentes e formuladas buscando emular as questões do ENEM/vestibulares. Simulados se tornam grandes eventos educacionais, com divulgação e premiação.

A todo instante em sala de aula, durante o momento que deveria ser focado em ensinar, o momento da prova e do vestibular é retomado. Ensina-se como resolver questões e não como contextualizar o conhecimento.

O que era para ser educação vira condicionamento e, no momento em que o aluno conclui o ensino médio, ele se torna uma máquina de marcar X e escrever redações padronizadas, sabe todos os famosos “macetes” das questões e é especialista em gerir o tempo durante a prova.

O conteúdo do ENEM/Vestibular determina o que é importante e, portanto, estabelece o currículo das salas de aula.

Qualquer atividade extra, que não seja de cunho teórico e, portanto, passível de cobrança na prova, é deixado em segundo plano. Esportes, artes, conteúdo crítico, político e social, discussões éticas, filosóficas, morais e cívicas… Pautas fundamentais no desenvolvimento de seres humanos e de cidadãos ganham espaço somente quando não interferem no condicionamento feito nas salas de aula.

Infelizmente esse é o cenário.

Forçando alunos dentro de caixas

Ken Robinson, um dos grandes expoentes da educação contemporânea, nos fala que a educação atual busca, acima de tudo, a conformidade.

Em sua visão, há uma clara hierarquia entre disciplinas. Em primeiro lugar, estão a matemática, ciências e idiomas. Em segundo lugar as humanidades. E por último estão as artes.

Existem motivos para isso: O pragmatismo da sociedade que valoriza certas profissões em detrimento de outras, e valoriza certas inteligências em funções de outras.

Assim, educamos dentro de um ordenamento hierárquico, e, no caso específico brasileiro, isso é ainda mais forte pois também considera o que é mais importante memorizar (e não aprender) para as provas.

E assim se educa para a conformidade. Inibem-se as diferenças individuais, os diferentes interesses, tolhem-se possibilidades e os alunos são colocados dentro de caixas.

O aluno ideal formado na escola brasileira, não é aquele que desenvolveu um grande hábito de leitura. Seu hábito de leitura apenas é válido se leu os livros que vão cair na prova. Não interessa que o aluno escreva de forma brilhante. Sua redação no ENEM apenas será 100% se seguir a métrica ideal: 5 parágrafos, introdução, desenvolvimento e conclusão. Um aluno que é brilhante em robótica mas não tem paciência para as listas de exercícios, se depender das notas das provas, vai acabar longe de um curso de engenharia.

A educação como ela existe hoje na maioria das escolas funciona muito mais como uma forma de garantir um nível mínimo de conhecimento para um grande número de pessoas.

A liberdade dos alunos para explorar e desenvolver suas habilidades acaba acontecendo em segundo plano, nas horas vagas, apenas quando ele não está cumprindo o protocolo de conformidade.

Buscar a conformidade, reprimir a individualidade e atender padrões mínimos: Estamos falando essencialmente de uma linha de produção. É educação desumanizada.

Nesse cenário, não há espaço para o acolhimento do aspecto socioemocional dos estudantes: O reconhecimento de fragilidades, frustrações, medos e conflitos. É mais comum, principalmente entre escolas de ensino médio, o reforço psicológico apenas como motivacional (“você precisa estudar mais se quiser passar!”) ou orientação de carreira (“você gosta de matemática? Faça engenharia!”).

Questões afora isso são observadas como problemas individuais – que só servem para atrapalhar o desempenho dos alunos – e que precisam ser resolvidas da porta da escola para fora.

Em uma educação fria, desumanizada e resultadista, o ponto principal não é pensar nos alunos como seres humanos sujeitos de uma formação completa – cognitiva, social, emocional e corporal.

Com o foco demasiado sobre os aspectos cognitivos – e apenas os aspectos que interessam para a prova – todo o resto se degrada.

A degradação do social vem na construção da competitividade através do desempenho nas provas. Algumas escolas estimulam alunos a enxergar os colegas de sala como concorrentes na busca de vagas na Universidade – o próprio sistema de rankings, por meio de simulados, cria um modelo competitivo.

O aspecto emocional rui por sequer ser reconhecido dentro desse sistema. E quando reconhecido, observado como algo que atrapalha o desempenho.

E o aspecto corporal dos alunos acaba sendo mais prejudicado. Não faltam estudos e especialistas para apontar que a prática de atividades físicas auxilia no desenvolvimento cognitivo, mas na pressão por mais horas dedicadas ao estudo, a prática de esportes é a primeira a ficar de lado.

Muitas vezes isso acontece bem mais cedo, com as pressões para a aquisição da leitura e escrita precoce, pode-se suprimir a importância do brincar, fazer-de-conta, imaginar, subir em árvores e, inclusive, ralar os joelhos!

Tudo isso é vendido no pacote dos sacrifícios que devem ser feitos em nome da aprovação.

Mas o que falta a esse discurso é a percepção de que o maior sacrifício desse sistema é a educação em si.

A importância de humanizar a educação

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Humanizar a educação envolve pensar no desenvolvimento de crianças e adolescentes de forma integral. Se a situação das escolas hoje levou a uma ênfase nos resultados das provas, a educação humana compreende que há mais a se explorar quanto ao desenvolvimento cognitivo, além disso entende que é preciso trabalhar com os aspectos socioemocionais e psicológicos.

Trata-se, assim, de confrontar o paradigma contemporâneo da educação e buscar uma abordagem que contemple o indivíduo de forma completa, o que concebe não apenas o aspecto intelectual e acadêmico, mas também o desenvolvimento humano.

A escola é a organização mais importante na vida de crianças e adolescentes. É o local onde passam cerca de 20% do seu dia e cuja influência transborda para as outras esferas do cotidiano.

Na vivência condominial dos tempos atuais, a escola se torna também o principal ponto de socialização. É, assim, um lugar onde os alunos vivenciam tanto momentos de alegria, quanto conflitos e frustrações.

Desta forma, quando o aluno chega na escola, não vai apenas para extrair conhecimento. Ele vai ao encontro de um espaço em que irá desenvolver suas habilidades sociais.

Cada aluno leva consigo seus hábitos e suas paixões, mas também suas inseguranças e seus temores. Cada aluno tem sua riqueza individual, sua complexidade e a escola precisa possuir estrutura e ferramentas para abraçar isso.

A ideia de que o aluno é uma tábula rasa e que chega na escola para simplesmente receber o conhecimento (o que os pedagogos freireanos irão reconhecer como educação bancária) torna-se, então, prejudicial para o próprio fim pretendido.

O desenvolvimento cognitivo não existe dentro do vácuo, mas sim dentro de um contexto cultural, social, emocional e psicológico, facetas que devem ser abraçadas por uma educação mais humana.

O aluno traz conhecimento para a escola, mesmo que esse conhecimento não seja conceitual. Ele traz consigo diferentes interesses e vontades, além de traços de personalidade e habilidades que o torna único.

Ao abraçar a individualidade, ao contrário da conformidade, a escola reconhece que existem diferentes tipos de inteligências e que todos são caminhos válidos para o desenvolvimento cognitivo.

Ao invés de inibir esse potencial em prol da conformidade com um estilo de aprendizagem e um conteúdo rigorosamente estabelecido, a educação humana deve saber reconhecer e estimular o potencial de cada indivíduo.

A verdadeira genialidade de cada aluno será despertada quando ele encontra liberdade e ferramentas para se desenvolver, ao invés de ser forçado por um caminho que não é compatível com a sua personalidade.

Esse é o caminho para criar um encantamento no processo de aprendizagem. Aprender nunca é algo chato, descobrir coisas novas é absolutamente espetacular!

No entanto, cada aluno aprende de forma diferente. Leitura, vídeos, aulas expositivas, experimentos, encenação, projetos de pesquisa, são todas formas válidas e deve haver liberdade para que os estudantes explorem estes caminhos alternativos.

Da mesma forma, alunos também possuem interesses muito particulares. Matemática é absolutamente importante, mas não é razoável imaginar que todos os alunos terão facilidade ou mesmo paixão pelo tema.

É na escola que a criança ou jovem deverá ter contato e experimentar as diversas áreas do conhecimento. Seja nos idiomas, literatura, geografia, história, educação física ou artes, os alunos devem ter liberdade para explorar enquanto formam sua base de conhecimento. Quando suas aptidões se tornam mais claras e seus interesses mais definidos, isto deve ser estimulado, pois é nelas em que provavelmente vão conseguir construir futuros brilhantes!

Educação Humanizada acolhe o socioemocional

Como um espaço inerentemente social, a escola é um local de interação tanto positiva quanto negativa. Tanto o que o aluno traz consigo de casa quanto o que ele constrói na convivência com colegas e professores possui significância e não pode ser ignorado.

Quando os aspectos socioemocionais são vistos como secundários sinaliza que o ambiente entre os alunos e questões psicológicas individuais são menos importantes que o conteúdo.

Ao mesmo tempo em que a escola fica mais fria e menos afetiva, pois não há reconhecimento desses aspectos substantivos da natureza humana, ela se torna um local onde esses problemas se tornam mais graves.

Este é o contexto em que o bullying prevalece, em que animosidade e rivalidade entre grupos de alunos se constrói e em que as fragilidades dos alunos não são abraçadas. Nesse ambiente, a empatia, a autoestima, a confiança e a cooperação emergem apenas por acaso.

Esses são justamente alguns dos problemas que se busca tratar com uma abordagem mais humana da educação.

Há, portanto, o reconhecimento de que o ambiente da escola é fundamental para o desenvolvimento pleno dos alunos, e que não é possível fomentar o intelectual ignorando aspectos sociais e psicológicos.

Uma escola humana abre as portas para o diálogo, para a construção de consenso através de demonstrações de insatisfação. As portas são abertas para exteriorização de frustrações e de medos que precisam ser reconhecidos e trabalhados.

Os alunos são encorajados a avaliar suas próprias atitudes e seu comportamento, contribuindo para uma auto reflexão e amadurecimento.

Caminhar em direção a uma educação humanizada é favorecer um ambiente saudável, em que alunos têm liberdade para dizer o que sentem e pensam, em que a escola acolhe as diferenças e busca trabalhar as individualidades.

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Não é fácil nos desprendermos da ideia que temos de escola, aquela ainda herdada da Revolução Industrial. Foi nela que nossos pais estudaram, foi nela também que os nossos professores estudaram, provavelmente foi nela que muitos de nós estudamos e onde muitas crianças desta geração estudarão.

Contudo, para fazer uma escola humana não existe uma receita de bolo que nos dará o passo a passo a se seguir. Há muito estudo, experiência, trocas, parcerias, aprendizados, e principalmente desejo de fazer diferente.

Achou essa ideia interessante? Que tal ler também sobre a Escola 3.0?