Ao buscar uma escola para o seu filho, pais muitas vezes procuram nas salas de aulas por alguma pista de futurismo tecnológico, algo que assinale que a educação ali é “moderna”.

Assim, se a sala de aula possui televisores de tela plana 50 polegadas ligados ao computador, se o quadro branco agora é digital/interativo, se os alunos largaram os livros por tablets e são encorajados a fazer buscas e atividades usando o celular e a internet… todas essas seriam garantias de que a escola realmente está educando seu filho para o futuro, certo?

Errado.

Não me leve a mal quando digo isso: Smart TVs, quadros interativos, tablets e celulares são ferramentas educacionais fantásticas.  Elas absolutamente possuem lugar em sala de aula.

No entanto, ao mesmo tempo, eles são apenas evoluções digitais – e, por consequência, mais rápidas – das mesmas ferramentas utilizadas 30, 50, 70 anos atrás.

Sim, pesquisar no celular permite acesso a uma grande quantidade de conhecimento de forma quase instantânea e a troca dos livros pelos tablets permite uma integração entre vídeos, imagens, pesquisa e textos fabulosa.

No entanto, isso, por si só, não é nada revolucionário; pois as novas tecnologias têm sido utilizadas por muitas escolas na manutenção da estrutura clássica de ensino em sala de aula.

Com mais brilho, mais botões e mais rápido, o funcionamento do ensino permanece muito parecido com o de 100, 200 ou 300 anos atrás: um professor no centro das atenções – detentor do conhecimento – e alunos perfilados para aprender – receptores do conhecimento.

E se você estiver pensando “Oras, não é esse exatamente o ponto?”, eu sinto muito lhe informar que não. Talvez essa tenha sido a sua experiência e das pessoas ao seu redor, mas isso não irá preparar os alunos de hoje para a realidade de amanhã.

 

O movimento da Educação 3.0 é, na verdade, um termo guarda-chuva utilizado por teóricos da educação atual justamente na concepção das mudanças necessárias na sala de aula para não apenas melhorar a transmissão de conhecimento, mas também desenvolver as habilidades necessárias aos alunos para as novas realidades do século XXI.

A forma que o futuro tomará não pode ser enfrentada pensando a sala de aula como ela era 300 anos atrás.

A ambição aqui vai muito além da transmissão de conhecimento e educação ética, envolvendo também a promoção do raciocínio crítico, autonomia, criatividade, empreendedorismo e proatividade, elementos que ficam de fora de muitas salas de aula de hoje em dia.

Sim, a tecnologia é parte importante disso – e será cada vez maior -, mas é apenas parte de um conjunto de mudanças na postura e desafio aos paradigmas de pais, alunos e professores.

Da Educação 1.0 para 2.0

Feche os olhos e imagine uma sala de aula. Grandes são as chances de você ter visualizado uma sala com um quadro branco na frente em que o professor faz suas anotações e fala diretamente aos alunos, que se sentam de forma enfileirada voltadas para o quadro.

Percebam, essa é a mesma formatação das salas de cinema, de auditórios e do teatro e o motivo é muito simples: à frente e ao centro se encontra o conteúdo que quer ser consumido e ao fundo o maior número possível de pessoas interessadas em recebê-lo: espectadores.

A sala de aula clássica foi construída para a aula expositiva, em que o aluno se relaciona de forma passiva ao conteúdo (recebendo), com forçada atenção voltada ao professor. Essa estrutura inibe também a interação entre os estudantes.

Esta era a melhor forma para o ensino em uma relação em que as fontes de conhecimento eram basicamente bibliotecas e experiência. O professor, nesta relação de assimetria de informação, era fonte vital de conhecimento.

Dados os recursos tecnológicos da época, a Educação 1.0 teve sua importância. As provas, como as conhecemos hoje, talvez façam muito sentido nessa relação de ensino, avaliando o que o aluno conseguiu captar do processo de aprendizagem.

A este tipo de educação, os teóricos Derek Keats e Phillip Schmidt (2007) apontaram como parecido aos princípios da internet, ou a Web 1.0, em que a relação dos usuários é principalmente de consumo de conteúdo. Seja através de vídeos, informações, produtos, tudo parece ocorrer como uma via de mão única.

A Educação 2.0, seguindo a lógica destes mesmos autores, se aproxima assim da mudança na Internet em que os usuários deixaram de ser simplesmente consumidores de conteúdo (Web 1.0) e passaram a interagir com estes conteúdos e mesmo com outros usuários (Web 2.0).

Como funciona esta lógica aplicada ao contexto educacional? Para Gerstein (2014), a Educação 2.0 valoriza o aspecto humano do processo educativo da mesma forma como a Web 2.0 abre espaços para a colaboração dos usuários através de blogs, podcasts, redes sociais e fóruns.

Assim, nas salas de aula há maior encorajamento da interação entre os alunos e entre alunos e professores, aumentando a comunicação, a colaboração, e a contribuição.

O Professor na Educação 2.0 ainda é o responsável por orquestrar o processo de aprendizado, mas faz isso de forma criativa e conectada. Ferramentas que podem ser utilizadas são o aprendizado baseado em projetos e em problemas reais, aprendizagem cooperativa, além de ferramentas de conectividade como blogs, redes sociais e wikis.

Utilizam-se, então, ferramentas de aprendizagem ativa e experienciada, em uma abordagem que se aproxima da educação construtivista. Os alunos adquirem maior protagonismo, contribuindo entre si e com os professores na sala de aula.

Dito isso, olhe para como a educação funciona hoje. A Educação 2.0 ainda está longe de ser disseminada na maioria das escolas!

Exatamente como disse no começo, aparelhos tecnológicos não são suficientes para mudar a estrutura da sala de aula. É preciso treinamento, mudança na postura por parte de pais, professores e alunos, e uma escola que realmente acredite nessa filosofia.

Mas e se Educação 2.0 ainda não é norma, porque já se fala na 3.0?  E o que exatamente ela significa?

A Educação 3.0 e a reconstrução da sala de aula

Quando Keats e Schmidt primeiro falaram da Educação 3.0, era o ano de 2007. Se isso não parece que foi há tanto tempo assim, tente lembrar de como era o seu telefone celular nesta época.

Como um conceito, o que estes autores observavam era uma mudança capaz de colocar aos alunos o papel de protagonistas na produção de artefatos de conhecimento. A ideia aqui era de cocriação e oportunidades de conhecimento e a escolha ativa com base nos próprios interesses.

O conhecimento seria não dos livros e materiais disponibilizados pela escola e adquiridos pelos alunos, mas providos por plataformas globais e de livre acesso e criados e reutilizados por outros alunos e outras instituições.

O que esta ideia inicial de uma Educação 3.0 previa era a possibilidade dos próprios estudantes se tornarem coautores e ativos na decisão do que e como aprender, levando em consideração interesses e necessidades particulares. O aprendizado ultrapassa os limites das disciplinas e mesmo da escola, desconstruindo a sala de aula.

Se isso parece um tanto drástico, a verdade é que hoje estamos muito mais próximos disso do que se imagina e é aí que a contribuição da tecnologia e dos avanços da ciência realmente acontece.

O conteúdo, antes disponível em livros, está hoje espalhado de múltiplas formas por toda a internet. Sim, há muito conteúdo de baixa qualidade, mas também há muito conteúdo de excelente qualidade que proporciona aos estudantes e professores opções.

O assunto que antes era relegado à apostila agora é oferecido na forma de vídeos, textos, artigos, imagens, áudios. Muito é produzido por professores e acadêmicos, outros são produzidos por estudantes e tudo isso está disponível em sua maioria como livre acesso.

Na era da informação, a quantidade de conhecimento disponível ultrapassa os limites de qualquer livro didático e de qualquer professor. E isso é algo excelente ao considerarmos que a sala de aula é um ambiente plural cheio de diferentes demandas.

A grande verdade sobre a educação é que nem todo aluno aprende igual. Alguns alunos aprendem mais rápido, outros mais devagar. O resultado é que em uma sala de aula com 20 alunos, 5 acompanham o professor, 10 se perderam no meio do caminho e outros 5 estão entediados, pois já entenderam o conteúdo.

Existem alunos que não conseguem aprender sem a exposição do professor; outros preferem aprender sozinhos, explorando o conteúdo; há aqueles que preferem ler sobre algo, outros preferem assistir vídeos; alunos que gostam de atividades; outros, experimentos.

Com a abundância de informações, a Educação 3.0 abre a oportunidade para personalização. Permite maior paciência e cadência para alguns, mais velocidade e agilidade para outros. Se a sala de aula permite autonomia e cocriação, também abre espaço para a exploração de interesses individuais.

O aluno que se desenvolverá em um futuro economista está a 20 segundos de uma lista do Banco Mundial com o PIB de todos os países; o futuro médico pode explorar facilmente quais são as doenças tropicais que mais matam no mundo e seus tratamentos.

Isso se torna possível quando os alunos possuem poder de voz, são respeitados em seus interesses e têm liberdade para explorar o conhecimento além da sala de aula.

É assim que a Educação 3.0 busca preparar estudantes com maior autonomia, criatividade, empatia, inovadores e imbuídos de pensamento crítico, e que possuem as ferramentas para construir/criar coisas.

O aspecto tecnológico da Educação 3.0

Grande parte da discussão acerca da Educação 3.0 se ocupa em buscar formas de como melhor integrar as tecnologias na educação. A bem da verdade, a educação 3.0 envolve tanto os campos da pedagogia, psicologia e neurociência quanto tecnologias educacionais. Mas são as possibilidades da tecnologia atual e futura que possibilitam esta transformação.

A economia de hoje e do futuro, é uma economia baseada principalmente em ideias. A tecnologia é o que vai proporcionar que estas ideias sejam materializadas.

Digamos que um aluno queira estudar sobre a era das grandes navegações.

A aula do professor provê uma base, o livro fornece maiores detalhes e algum site de conteúdo educacional como a Khan Academy possui detalhes em vídeo e texto sobre cada viagem entre 1450 e 1600. O aluno é responsável por unir tudo isso.

Em seu tablet ele pode abrir um aplicativo com um mapa e traçar cada viagem organizando por ano e por navegador. Cada traçado pode ter um link para um resumo desta viagem e para a biografia de cada navegador.

Feita esta atividade, por intenção própria, o aluno pode exibir ao professor (que pode ter auxiliado ou não nesta tarefa), enviar para os colegas (de sala ou mesmo de outras escolas) ou simplesmente colocar na internet.

Tudo isso hoje já é possível com as tecnologias atuais e vai se tornar cada vez mais fácil. Perceba, contudo, que a tecnologia apenas possibilitou a materialização de uma ideia e facilitou o processo de criação.

O espaço e a liberdade para essa materialização e a possibilidade de compartilhamento: estes são elementos que devem ser complementares ao aspecto tecnológico da Educação 3.0.

Assim, falar em atingir a educação 3.0 trabalhando com materiais prontos e aulas roteirizadas é um tanto contraditório.

Não é possível tratar de cocriação e autonomia e, ao mesmo tempo, disponibilizar apostilas, restringir o conhecimento a elas e cobrar do professor a obediência a um plano de ensino previamente elaborado, não acham?

O professor se aproxima da figura de um guia, o livro didático pode até ser um marco inicial, mas ao restante da educação cabe ao aluno proatividade para explorar da forma como acha mais interessante e melhor contribui para o seu conhecimento.

As tecnologias de educação, que estão sendo desenvolvidas agora focadas em inteligência artificial, irão tornar isso ainda mais dinâmico e capaz de personalização.

Quanto mais informações tivermos sobre os interesses dos alunos, suas reais capacidades, como ele aprende melhor, mais a tecnologia pode proporcionar a eles uma educação costurada especialmente para o seu desenvolvimento, respeitando suas individualidades.

Mas é claro, tecnologia de Escola 3.0 com mentalidade de Escola 1.0, ai não dá.

O aspecto socioemocional da Educação 3.0

Quando tratamos de educação 3.0, automaticamente nos remetemos à modernidade e à tecnologia atrelada a esta. Conforme dito, a educação 3.0 vai muito além disso.

Para desenvolver a criatividade e autonomia, tão essenciais para este “novo modelo” de escola (e de mundo), é necessário que as crianças sejam estimuladas a isso dentro de condições adequadas. Não se pode simplesmente sair do caminho e dizer: “Criem! Façam! Explorem! Vocês são responsáveis pela cocriação do conhecimento!”

Ao contrário do que filmes de Hollywood e palestras motivacionais gostam de acreditar, esse papo não tende a ir muito longe.

O que cria as condições para estes estímulos?

A escola, em conjunto com os pais, deve ter um planejamento adequado para trabalhar a noção de responsabilidade, a autoconfiança, a independência, a cooperação e o trabalho em equipe.

Para desenvolver responsabilidade, deve-se delegar responsabilidade: implicar, designar atividades e, se necessário, cobrar os retornos e resultados.

Trabalhar a autoconfiança demanda encorajar a exploração de novas atividades – e o erro deve ser colocado desde cedo como parte do processo e não algo a ser punido com severidade.

A independência surge a partir da descoberta de que cada indivíduo tem agência para fazer escolhas e ser responsável por elas, incluindo o caminho de aprendizagem que ela vai seguir – é claro, isso não é feito sem a figura dos adultos – pais e/ou professores.

Cooperação e trabalho em equipe carecem de atividades que fomentem a comunicação, a tolerância, a empatia com o próximo e a flexibilidade.

Criar as condições para a Educação 3.0, envolve, assim, mais do que a frieza da tecnologia. É preciso trabalhar o aspecto socioemocional de forma que os alunos consigam chegar na postura necessária para aproveitar-se dela.

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Gostou do conceito?

Esta abordagem na forma de educar deve ser uma preocupação constante da escola do seu filho. Aqui, na Casa Escola, buscamos desenvolver nossa metodologia de ensino em cima da cocriação e da educação 3.0.

Se ficou interessado em saber mais sobre o nosso trabalho e descobertas, leia o informativo interno “Por dentro da Casa”, visite o site ou marque uma visita para conversar conosco.