Geralmente, o assunto controle financeiro costuma se restringir ao universo adulto. Afinal, são os adultos que decidem onde e como investir a renda familiar.

Mas, e as crianças? As crianças podem entrar neste contexto?

A resposta é sim.

É importante que aprendam desde cedo como lidar com os recursos financeiros.

Este aprendizado é tão valioso quanto passar adiante conhecimentos fundamentais para a sua formação moral, intelectual e cultural. Pois, a partir da cultura financeira, as crianças vão estabelecer seu entendimento em relação ao dinheiro, consumo, escolhas, gastos, valores e responsabilidades.

Não existe uma regra pronta para levar as crianças à maturidade financeira, nem uma idade específica para iniciar as lições sobre este assunto, mas existem caminhos para envolvê-las nestes conceitos de forma adequada à sua compreensão.

Cabe à família, no caso, traduzir as práticas, comportamentos e decisões, no que diz respeito à administração do dinheiro, de uma maneira lúdica e adaptada ao entendimento da criança e de acordo com sua idade.

A dinâmica da educação financeira passa, primeiramente, pelo processo de escolhas. Estas escolhas já ocorrem desde cedo quando a criança escolhe o brinquedo que mais gosta, a história que quer ouvir, o que vai comer no café da manhã…

Questões básicas da Matemática só entrarão posteriormente. Contar números, realizar operações de adição e subtração são fundamentais para entender melhor o conceito de valor.

Nesta perspectiva, a lição não pode se restringir ao aspecto financeiro. É preciso ampliar para o entendimento de custo versus benefício dos produtos e serviços que serão consumidos.

Construir essa compreensão exige dedicação, e é uma lição aprendida principalmente por meio do exemplo.

Nesta jornada, um dos principais erros, muitas vezes, é ceder a todos os pedidos de compra dos filhos ou não explicar os motivos dos “nãos”, quando necessários.

Quando negamos e explicamos o porquê estamos ensinando a realizar escolhas de consumo. Esse é um caminho para desenvolver um adulto com decisões claras e que saiba se relacionar melhor com os recursos financeiros.

Contudo, nem sempre parece simples tratar o tema de forma clara com os pequenos.

Lembro-me bem, nos anos avançados de 199X, quando enfrentamos uma crise de energia no país e, frente à ameaça de apagões, foi elaborado um plano de racionamento. À época eu era adolescente, mas lembro com clareza e ternura como o tema entrou na minha casa, como nos empenhamos todos para a necessária reeducação, uso consciente do recurso e controle do consumo.

Tínhamos uma escala diária – onde eu e meu irmão 4 anos mais novo nos alternávamos – para a leitura do consumo no relógio. Tomávamos nota em um caderno e meu pai lançava em uma planilha no Excel para analisarmos, juntos, os reflexos do nosso empenho coletivo.

Cá estamos nós em uma crise econômica mundial provocada pela pandemia e penso se não é um momento para trazer o assunto aos lares.

É inclusive uma oportunidade de estar mais tempo junto e adotar uma cultura familiar de relação saudável com o dinheiro.

Esta sequência de episódio curtos do Vila Sésamo traz alguns conceitos financeiros para o público infantil, de forma simples e fácil entendimento, mesmo não estando em nosso idioma nato.

O valor das coisas

Como dito anteriormente, falar sobre finanças com os filhos é mais do que o ensino básico da Matemática para compra e venda. Bons hábitos financeiros nascem do entendimento do valor das coisas, que podem não ser definidos apenas pelo custo em dinheiro de um determinado objeto.

A noção e conceito de valor deve ser construído na prática desde cedo com a criança.

Com as crianças menores, a prática do cofrinho, pote ou lata para guardar dinheiro é um caminho para tornar o conceito mais palpável. E isso envolve também conversar a respeito, valorizar, contabilizar o que já tem ali, discutir com a criança o que ela pretende comprar com o que tem ali.

Conforme vão crescendo e sua compreensão já permite novos entendimentos, é possível levá-la a refletir sobre:

  • Por que algumas coisas custam mais do que outras?
  • Como as coisas têm valores diferentes em lugares diferentes?
  • Porque têm coisas que valem mais para algumas pessoas do que para outras?
  • O que é o dinheiro o porque ele foi criado?

Planos familiares

Seguindo para a prática, é importante deixar os filhos acompanharem desde cedo a atividade econômica do lar.

Deixe-os assistir a decisão de uma compra, a alocação de um recurso, até mesmo a execução da planilha financeira da casa etc.

Quando a família se reunir para organizar as contas e fazer o planejamento mensal, permita que a criança esteja junto. Essa participação a ajudará a construir uma cultura de organização financeira.

Em tempos de medidas econômicas mais apertadas, converse com a criança e deixe-a ajudar na elaboração de metas para economizar.

Contudo, nem todas as coisas podem ser compartilhadas com os filhos. É importante ter cuidado. Não por ser um segredo, mas por causa de seu preparo emocional e as próprias limitações de compreensão de acordo com cada idade.

Compartilhar o planejamento financeiro não quer dizer que os pais podem transferir decisões que são de responsabilidade dos adultos. Isto pode gerar uma carga mais pesada do que uma criança pode suportar.

A participação das crianças nos planejamentos deve ser sempre mediada pelos adultos.

Algumas das opções deste processo de inclusão nos planos financeiros são de fazê-los participar de planos de menor porte, como a lista de compras do supermercado, ou até maiores, como uma viagem de férias.

A lista de compras pode ser feita na presença da criança ou adolescente de maneira que ela compreenda as prioridades e maiores necessidades da família. Como, por exemplo, quais são os produtos mais utilizados, quais são os mais caros e os que podem ser substituídos ou até cortados, em caso de necessidade.

Já o planejamento de uma viagem pode contar com a participação deles para que compreendam que a realização de um sonho envolve dinheiro, e muitas vezes é preciso a contenção de gastos para isso. Além de uma preparação a longo prazo. Isso fará com que os filhos, além de aprender a realidade da economia doméstica, valorizem mais a conquista.

O que pode ser responsabilidade financeira dos filhos?

É fundamental que, aos poucos, seu filho aprenda a cuidar do próprio dinheiro. Além de participar do planejamento financeiro da família, ele também pode ter seus recursos para ir gastando somente o que pode e guardando a quantia que precisa para comprar algo que deseja para algum plano futuro.

Para isso, algumas práticas podem ser implementadas, como de dar ao filho uma quantia semanal ou mensal ou até pagá-lo para executar alguma tarefa específica, como lavar o carro, por exemplo – sempre com muito cuidado para que as atribuições domésticas não se tornem material de barganha.

Mesada

A mesada é um significativo mecanismo de educação financeira, pois ensina a criança a tomar decisões mais responsáveis, planejar, poupar e conquistar sonhos.

Geralmente, este instrumento é o primeiro contato da criança ou adolescente com a administração do próprio dinheiro e também com a clareza de que tem um limite para uso. Ou seja, uma hora acaba.

E quando começar a dar a mesada? Tudo depende da percepção dos pais sobre o entendimento dos seus filhos. Mas, de uma forma geral, a mesada pode iniciar quando a criança aprende a fazer contas.

O valor pode ir aumentando de acordo com o crescimento do filho e ele pode ser destinado a alguns gastos. Alguns combinados entre pais e filhos pode ser de direcionar o recursos para a compra do lanche na escola, por exemplo.

Nesta situação, será de responsabilidade da criança se planejar de forma que o dinheiro não falte ao longo do mês. Caso isso ocorra, evite suprir a falta com dinheiro extra. É importante que ela perceba a consequência de um uso irregular.

Ah, mesmo que a mesada possa ser dada por merecimento, evite tratar o valor como um salário ou moeda de troca por um trabalho ou comportamento.

As atividades domésticas, por exemplo, fazem parte da rotina diária da família e é necessário que os filhos contribuam. Assim como o comportamento, que deve ser conduzido a partir do entendimento do que é certo ou errado, e não pelo “quanto vou ganhar com isto”.

Meta de compra

Sabe aquele pedido insistente por um brinquedo novo? Que tal desafiar o seu filho a juntar dinheiro para comprá-lo? Essa é uma boa prática para ele entender a importância das finanças e ainda de se planejar para um objetivo.

Juntos, vocês podem pesquisar as lojas onde é vendido o tal brinquedo, mesmo sem sair de casa, pela internet. Na pesquisa mostre os diferentes valores do mesmo produto. Após a análise, definam a loja com melhor preço e, a partir daí, estabeleçam as medidas necessárias para a compra.

Algumas questões que a criança pode refletir neste processo é: quanto é o valor do que quero? Quanto eu tenho? Quanto preciso ter a mais para conseguir comprar? Como o brinquedo é caro, o que posso deixar de comprar para conseguir o objeto de desejo?

Se a criança não tiver em mãos o recurso necessário, algumas opções podem ser negociadas e a ajudarão neste processo de aprendizado para uma cultura financeira. Algumas delas são a contenção de gastos, a troca ou venda de produtos usados sem utilidade, ou até uma atitude “empreendedora”.

A criança ou adolescente pode conseguir dinheiro fazendo e vendendo doces, desenhos, artesanato etc. Vale lembrar que essa deve ser uma atividade recreativa e encarada como diversão, e não como um trabalho remunerado.

O ensinamento sobre economia doméstica e o incentivo ao uso consciente dos recursos financeiros também fazem parte da construção da autonomia na criança e adolescente.

Quer saber mais sobre a autonomia infantil? Clique aqui e continue expandindo os horizontes junto conosco.