Você começa a perceber que seu filho está apresentando dificuldades na escola, faz comparações com os avanços dos coleguinhas e a professora lhe convida para conversar. Como receber essa notícia, de que seu filho não vai bem na escola, e como ajudar?

Há vários sinais que apontam para as dificuldades de aprendizagem, mas enxergá-los nem sempre é fácil. Os pais se apegam aos filhos em um amor incondicional no ambiente de casa em que as coisas parecem funcionar. A criança

  • se comunica pouco;
  • não resolve  cálculos;
  • não resolve problemas;
  • tem fixação em personagens fantásticos;
  • troca letras em idade avançada;
  • decodifica as letras mas não compreende o que lê;
  • ETC.

De início parece que é brincadeira e que logo vai passar, mas ao longo do tempo, a criança vai crescendo e é chegada a hora dela entrar para um meio social maior – a escola.

Muitas vezes é na escola em que os sinais da dificuldade começam a transparecer.

Nem sempre os pais conseguem perceber o que os profissionais da escola conseguem detectar, mas sem a participação da família, a ajuda real para a criança se torna mais difícil e pode atrapalhá-la em suas aprendizagens, principalmente nas escolares

Então como a criança aprende e o que fazer para ajudá-la?

O que é aprender?

A criança aprende em casa e para certos aprendizados acontecerem, ela nem precisa da escola. Porém alguns saberes devem acontecer a partir da sistematização do conhecimento. É aí que a escola tem um papel fundamental.

Aprender a ler, a escrever e a fazer contas é construir estruturas e pensamentos capazes de atingir abstrações mais elaboradas a partir de 4 condições biológicas e ambientais:

  •  Sistema Nervoso Periférico;
  • Sistema Nervoso Central;
  • A ação da criança sobre o meio;
  •  A intervenção.

Saiba que segundo Jean Piaget, para se desenvolver cognitivamente as crianças precisam possuir a condição e predisposição biológica e ter um papel ativo na construção de seu conhecimento, de modo que o termo construtivismo ganha muito destaque em seu trabalho.

Em seus estudos Piaget definiu o desenvolvimento da criança em 4 fases:

  •  período Sensório-motor (0 a 2 anos);
  • período Pré-operatório (2 a 7 anos);
  •  período das Operações concretas (7 a 11 ou 12 anos);
  •  período das Operações formais (11 ou 12 anos em diante).

Mas para falar um pouco mais sobre o assunto, Piaget descreve que no período sensório-motor a criança usa o corpo para a imitar e desenvolver suas habilidades motoras, se utiliza da curiosidade para aprender.

Ela aprende a falar com os adultos que a cercam, a cada dia consegue melhorar a coordenação sobre aquilo que ela age.

Já, dos 2 anos aos 7, no período sensório motor, a criança apreende por meio de ações estabelecendo as  noções sobre as coisas.

É o período da aquisição da linguagem, utiliza-se do animismo para lidar com seus sentimentos, mistura fantasia com realidade e não tem a capacidade de conservação.

Nesse período, a criança questiona sobre o mundo que a cerca, obtendo respostas que, às vezes, a satisfazem e outras não. Daí ela pergunta de novo e de novo…

A criança vai aprendendo a contar e a quantificar gradativamente e no pensamento lógico matemático, para ela um copo largo tem menos volume que o copo comprido por causa da altura e a palavra FORMIGA se escreve com poucas letras porque é um bichinho pequeno. Nada fora do comum.

No período da Operações concretas, a criança vai se tornando menos egocêntrica em seu modo de agir e de pensar. Faz cálculos simples de maneira concreta e não por meio de representações, lê textos não rebuscados e tem a capacidade de interpretá-los.

Sua interação com os colegas é mais genuína, tem maior compreensão e aceitação dos jogos sociais e de suas regras.

Na fase das Operações formais o pensamento situa-se na transformação dos esquemas cognitivos, operados concretamente em esquemas baseados na realidade imaginada. O adolescente vai obtendo a capacidade de generalizar, criar  teorias sobre o mundo mesmo sem ter que ver ou experimentar. Ele já abstrai.

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Tudo parece muito simples e linear, mas saiba que estas fases não são estanques e que nem todas são atingíveis em todos os seguimentos do desenvolvimento.

O ato de aprender vai depender da condição neurológica da criança, de sua predisposição genética, de suas experiências com o ambiente, tudo associado às intervenções (de um outro), principalmente, em sua primeira infância.

Preste atenção para alguns fatores bem importantes:

  • Ninguém aprende nada sozinho!
  •  É a partir do outro (a intervenção) que a criança aprende,
  • O outro alimenta o desejo de aprender,
  • A intervenção deve respeitar o nível de aprendizagem da criança,
  • Sem desejo não há curiosidade
  • Sem curiosidade não há aprendizagens.

Portanto a qualidade da mediação sobre a criança é primordial para a aprendizagem.

Dificuldade de aprendizagem ou transtorno de aprendizagem?

É preciso diferenciar

  •  Dificuldade de aprendizagem;
  • Transtorno de aprendizagem.

O primeiro caso, o da dificuldade de aprendizagem, ele é pontual e passageiro. A dificuldade é externa à criança e uma boa mediação com mudanças de atitudes, tanto da escola como de casa, podem ajudá-la a superar suas dificuldades em pouco espaço de tempo.

No segundo, o Transtorno da Aprendizagem, a(s) dificuldade(s) apresentadas são intrínsecas  à criança , tendo como causa questões de ordem orgânica, do sistema nervoso e até mesmo de ordem emocional.

O assunto é vasto, por isso separei esses vídeos que podem ajudar mais ainda a diferenciar o que é, afinal, transtorno e o que é dificuldade

 

Quando se trata de uma definição para os Transtornos de Aprendizagens, há uma falta de exatidão, principalmente quando se fala em transtorno e em suas causas.

Isso pode ser visto nos Manuais Internacionais de diagnósticos de doenças, como a CID (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) e DSM (Diagnósticos de Transtornos Mentais).

Os transtornos podem se manifestar por meio de dificuldades significativas na aquisição e uso da:  escuta, fala, leitura, escrita, raciocínio ou habilidades matemáticas e por questões psicossociais e ambientais sendo os definidos pelo CID:

  • Dislexia: a dificuldade que aparece na leitura, impedindo a criança de se tornar fluente, afetando a compreensão do texto. Nesses casos geralmente há trocas ou omissões de letras, inversão sílabas,  leitura lenta e não sequencial, pulando linhas;
  • Disgrafia: disgrafia é a perturbação no traçado das letras e na disposição dos conjuntos gráficos no espaço utilizado. As letras se tornam pouco diferenciadas e se desviam do padrão.
  • Discalculia: é a dificuldade para cálculos e números, de um modo geral a criança não identifica os sinais das quatro operações e não sabem usá-los, não entendem enunciados de problemas,
  • Dislalia: é a dificuldade na emissão da fala, apresenta pronúncia inadequada das palavras, com trocas de fonemas e sons errados, tornando-as confusas.
  • Disortografia: é a dificuldade na linguagem escrita e também pode aparecer como consequência da dislexia. Suas principais características são: troca de grafemas, desmotivação para escrever, aglutinação ou separação indevida das palavras, falta de percepção e compreensão dos sinais de pontuação e acentuação.
  • – TDAH: é o chamado Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Reflete-se na inquietude, desatenção, falta de concentração e impulsividade.

Não podemos deixar de mencionar:

Mas o se pode fazer enquanto se percebe que a criança está em sofrimento e o diagnóstico não aparece?

É melhor esperar ou não pelo diagnóstico?

No contexto das dificuldades, as crianças podem apenas estar passando por um momento de desatenção.

Compreender o que ela, o infanto, está entendendo ou porque está desconcentrado pode ajudar nas futuras atitudes a serem tomadas.

Mesmo sem saber o motivo e suas causas, é bom se antecipar ao diagnóstico com:

  •  Atitudes pedagógicas mais afetivas;
  • Incentivos no que a criança consegue fazer;
  • Novas estratégias de ensino;
  •  Desafios alcançáveis;
  •  Flexibilização no tempo das atividades;
  •  Formas criativas de apresentação de trabalho;
  •  Exposição de uma rotina clara;
  • Adequação da quantidade de leitura e atividade;
  •  Avaliação diferenciada quando necessária;
  •  Identificação da área de interesse;
  • E outros, muitos outros…

Em muitos casos, as intervenções e  ações sobre a criança é que vão definir se a criança tem dificuldade (transitória) ou transtorno.

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No caso do diagnóstico clínico, é preciso ter muito cuidado em não rotular a criança a partir de um diagnóstico fechado. As intervenções escolares junto com as da família podem deslocar a criança do lugar das siglas que acompanham os diagnósticos como o TDAH, TEA, TOD, TGD, as dislalalias e dislexias, disgrafias etc.

Imagine pais, professores, com uma criança com dificuldade de aprender a ler na idade em que outras já dominam a leitura.

A cobrança excessiva, acompanhada da frustração dos pais, vai reforçar o sofrimento da criança e não solucionar o problema, quando a sigla que acompanha o nome do transtorno aparente parece definir a criança e isentar os adultos envolvidos.

Cabe ressaltar que estamos falando de um sujeito por inteiro e não apenas de um transtorno. A criança não pode se resumir a sua dificuldade pois a sua dificuldade não é a sua identidade.

Entretanto o diagnóstico pode ajudar bastante a direcionar o tratamento, principalmente na escolha de profissionais que vão compor uma equipe multidisciplinar fora e dentro da escola para trabalhar com a criança e fazê-la avançar.

Conclusão

Dificuldade e Transtorno de aprendizagem não podem estar no mesmo balaio. Ao se detectar a dificuldade aparente da criança em relação à aprendizagem, o próprio trabalho de uma intervenção mais próxima vai dando os indícios se é hora de procurar o especialista ou não.

Entretanto é importante se pensar que diante das definições que classificam os transtornos de aprendizagem, percebemos que há o perigo de se alojar a criança no rótulo.

Por isso, o trabalho de intervenção deve ser iniciado a partir do que a criança consegue fazer e a família deve apostar na sua superação gradativa, lembrando, tudo dentro da área das possibilidades e sem estigmas.

No campo das mediações pedagógicas e tratamentos clínicos, o equilíbrio psicoafetivo se torna fundamental, trazendo as possibilidades da criança para o cenário das aprendizagens, para então desafiá-la e fazê-la avançar.

O que não podemos perder de vista é que, independente da dificuldade de aprendizagem que se apresenta e da série que a criança frequenta na escola, todo mundo tem o direito de aprender e continuar a aprender para todo o sempre.

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