Mesmo que uma das principais datas comemorativas do mês de abril seja o Dia do Índio – no dia 19 – não devemos nos iludir acerca desta data. O respeito em relação à preservação das comunidades indígenas, terras, história e cultura, não oferece a condição de se comemorar.

Segundo o artigo do Mundo Educação,  desde a chegada dos portugueses ao Brasil até o século XX, a população indígena sofreu uma redução da casa dos milhões para a centena de milhar! O principal fator para isso foi simplesmente a presença do homem branco no continente. Desde de sua chegada, no século XVI, o homem branco não poupou a população nativa submetendo-a ao extermínio, escravidão, contaminação de doenças e posse de suas terras.

Mas diante desta trágica história, por meio do mesmo artigo, vem a notícia de que os povos indígenas cresceram. Este aumento da população vem em função do reconhecimento do índio ao se autodeclarar índio, assim valorizar  sua cultura e descendência e lutar pelos seus direitos.

Estamos falando de um segmento importante da sociedade – os índios – cuja cultura e história deve, com o devido aprofundamento, serem trabalhadas em todo âmbito nacional.

O descaso é tão sério que só a partir de 2010 foi reconhecida oficialmente a presença das comunidades indígenas no RN, até então era ensinado que não havia índios no Estado.

Mas o Guia Cultura Indígena – Rio Grande do Norte, um material  bem bacana publicado pelo IFRN sobre a presença dos índios no RN, pode ser lido e estudado em escolas, a começar pelos professores. Vale a pena!

Outra viagem pela cultura indígena a ser feita, para compreender melhor a presença dos índios e sua história no Brasil, pode ocorrer por meio do ritmo e da música de Chegança de Antônio Nóbrega, pois a musicalidade da melodia é contagiante

Por todas estas razões e muito mais, não devemos nos atrelar  ao dia 19 de abril como sendo uma data significativa ao reconhecimento da importância do povo indígena e de sua cultura, o assunto índio na escola não deve se reduzir a uma data comemorativa.

Pertencer a uma minoria que foi sucessivamente explorada e dizimada não pode ser comemorada por uma história narrada pelo conquistador e por meio de alegorias tolas como a famosa pena na cabeça de cada criança branca.

Como abordar o tema cultura indígena com as crianças?

Cabe entender que desde 2008, tornou obrigatória a inclusão do ensino de história e cultura indígena e afro-brasileira no currículo oficial da rede de ensino pública e privada, através da Lei Nº 11.645/08. Tal lei considera importante nos estudos iniciais que as crianças conheçam a sociodiversidade brasileira e a participação de diferentes culturas no processo de formação da nossa identidade.

Por trás das brincadeiras, músicas, culinárias, lendas e estudo etimológico das palavras que se refletem no léxico da língua portuguesa no Brasil, existe uma história de domínio do conquistador que precisa ser contada para levar à reflexão e para se redimir, no sentido de compreender as necessidades desse povo e dar-lhes o direito de vida digna.  É para isso que se estuda História, entender o passado para fazer melhor e de maneira mais justa no futuro.

Para isto é necessário desconsiderar atividades arcaicas, que trabalham estereótipos da população indígena. É preciso entender que até mesmo na cultura indígena existe uma diversidade e diferenças de hábitos e costumes entre as tribos e que índio não é tudo a mesma coisa. Cada região do Brasil herdou uma herança indígena  distinta da outra, pois cada tribo tem suas peculiaridade.

No Rio Grande do Norte, os índios do litoral se chamam potiguares, pois são aqueles que comem camarão, o que não tem a ver com os caetés do interior.

Daí já temos uma atividade que pode instigar a curiosidade e capacidade de investigação das crianças: conhecer as diversas tribos brasileiras, as regiões habitadas por elas e seus diferentes aspectos e inclusive como se formaram.

Também é interessante relacionar as tradições indígenas a partir da música, culinária, artes plásticas, literatura etc. E, ainda, demonstrar as relações e aproximações da tradição indígena com nossos hábitos, refeições, língua, brinquedos e brincadeiras presentes em nosso dia a dia.

Outra sugestão é visitar uma comunidade indígena, levar os alunos ao local ou marcar uma vídeo aula com algum líder ou cacique. Na Casa Escola, os alunos do 4o ano puderam conversar pelo meet, ainda este ano, com o cacique Luiz da comunidade do Katu em Canguaretama no RN. Saiba um pouco mais a partir do depoimento do próprio cacique:

E em tempos melhores, sem a pandemia, fomos conhecer o local em que a comunidade do Katu habita, conhecer as redondezas, seu povo, saber do que vivem, como vivem e entender mais a fundo sobre os problemas que eles enfrentam como a luta pela demarcação de terras invadidas pela indústria canavieira e, ainda, agredida pela contaminação das águas, terras e fauna pelos agrotóxicos aplicados pelos usineiros.

Neste pensamento, seguem também algumas sugestões de brincadeiras para realizar com as crianças e algumas obras de literatura que podem contribuir para a construção da consciência humana de nossas crianças.

Cantigas de roda

A música e dança são elementos fortes e presentes em todas as culturas. Muitas das cantigas tradicionais brasileiras têm referências indígenas, e às vezes nem nos damos conta. Um exemplo é a música Itororó, que traz esta palavra em tupi, que significa água barulhenta.

Fui no Itororó
beber água e não achei
achei bela morena
que no Itororó deixei

Aproveita minha gente
que uma noite não é nada
se não dormir agora
dormirá de madrugada

Ô Mariazinha, Ô Mariazinha
entre nesta roda ou ficará sozinha
Sozinha eu não fico nem hei de ficar
porque eu tenho um amigo para ser meu par

YAPO

Outra brincadeira musical é o Yapo, de origem indígena da região do Pará. Ela é tão fácil quanto divertida. Além da referência à cultura, a brincadeira também possibilita trabalhar a coordenação motora. Pois, para toda palavra há um movimento a ser executado.

Primeiro, vamos à letra da música:

Yapo, ia ia, e e  ô
Yapo, ia, ia, e e e
Yapo, ia, ia Yapo

E tuque, tuque Yapo
E tuque, tuque, e e e

O grupo Palavra Cantada gravou a música e a brincadeira em vídeo, que pode ajudar a aprender os movimentos:

Confecção de brinquedos

Um dos brinquedos mais marcantes da cultura indígena é a Peteca – um nome de origem Tupi que significa “tapear”, “golpear com as mãos”. É uma brincadeira realizada em diversas regiões do Brasil, mas tem origem nas tribos indígenas que habitavam a região do estado de Minas Gerais.

O brinquedo original utilizava tocos de madeira e palha amarrados em penas de aves. Porém, podemos usar materiais reciclados para produzir a peteca em casa, como jornal e saco plástico.

Quer ver como fazer? Assiste esse vídeo que ele explica o passo a passo.

Corrida em um pé só

Nesta brincadeira não é necessário material. Apenas um espaço para correr e algo para demarcar o chão.

A dinâmica é a seguinte: marca no chão os pontos de largada e chegada. Os participantes têm de correr o percurso com um pé só. Há duas maneiras de marcar a vitória: quem chegar primeiro ou quem chegar mais longe.

Este jogo de resistência e equilíbrio é conhecido como Heiné Kuputisü entre os Kalapalo, que vivem no sul do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso.

Gavião e os passarinhos

Essa brincadeira tem a dinâmica do pega-pega. Os participantes são divididos entre passarinhos e gavião. O gavião desenha no chão uma árvore com vários galhos. As crianças-passarinhos se espalham nos galhos como se estivessem em ninhos.

O gavião sai à caça dos passarinhos que correm em diversas direções para fugir dele. Podem descansar de volta ao ninho, onde o gavião não pode pegá-los. Porém, quando são capturados, o gavião leva os passarinhos para o seu refúgio, próximo ao pé da árvore.

A brincadeira termina quando sobrar apenas um passarinho, que será o gavião na próxima rodada.

Contação de história

Que tal contar:

  • Um dia na aldeia – Autor: Daniel Munduruku. Ilustrações: Mauricio Negro
  • Aldeias, Palavras e Mundos Indígenas – Autora: Valéria Macedo. Ilustrações: Mariana Massaran
  • No tempo do verão | Ashi osaretsipaiteki – autora Rita Carelli, ilustrações Mariana Zanetti
  • A Floresta Canta! – Autoras: Magda Pucci e Berenice de Almeida

No momento da leitura trazer histórias e lendas tradicionais da cultura indígena? Veja abaixo algumas sugestões de livros para apresentar às crianças:

No canal Fafá conta Histórias também tem uma história indígena bem interessante: Um lugar de todos, do livro “Catando Piolhos Contando Histórias”, de Daniel Munduruku.

Muitas lendas do folclore brasileiro também têm origem na tradição indígena. Em nosso texto do blog Lendas do Folclore Brasileiro falamos sobre como abordar as histórias folclóricas com as crianças. Nele também há muitas sugestões de livros para o momento da leitura, que tem muito a ver com cultura indígena.

Então, perceberam quanta riqueza, é uma fonte que não se esgota e que nos aproxima das raízes de nossa cultura, de uma parcela importante do povo brasileiro que precisa ser cuidada, valorizada e preservada.