Liga a Smart TV, escolhe o programa, abre a caixa de e-mails, confere as outras notificações do celular, eita, chegou uma mensagem, espera, vou só responder aqui rapidinho, é importante! O programa é ao vivo, o e-mail não pode esperar e as notificações se multiplicam se demorar a responder.

Essa é uma cena diária e recorrente na vida de muitas pessoas. É tudo ao mesmo tempo, e tem de ser logo, rápido, já! Com a evolução das tecnologias e a expansão da cultura digital, a vida se torna instantânea: o futuro tem que chegar logo, e o presente passa rápido. E o passado? Esse só lembramos via “#TBT” ou memórias do quase finado Facebook.

É fato que o acesso a um grande volume de informações e a rapidez dos processos trouxe facilidades para a vida cotidiana. Estimula o raciocínio rápido e agilidade na resolução de problemas.

Mas, ao invés de se ter mais tempo livre, o quanto mais rápido se resolvem as tarefas de trabalho, afazeres domésticos, cuidados com os filhos… mais demandas aparecem na mesma velocidade na telinha e acabamos atropelados por elas.

Todo esse novo estilo de vida tem modificado não apenas a rotina das famílias, mas também o modo com que nos relacionamos e vivemos. É a chamada Cultura do Imediatismo, como identificaram os pesquisadores do comportamento.

As crianças, assim como toda a sociedade, são afetadas diretamente por esta cultura. Por isso, vamos abordar aqui sobre as vantagens, dificuldades e como lidar com este novo modo de viver.

O que é Cultura do Imediatismo?

A Cultura do Imediatismo é o termo usado para se referir a uma tendência comportamental. O conceito é creditado ao professor Douglas Rushkoff, da New School University de Manhattan. O termo se tornou popular após aparecer  pela primeira vez em seu livro “Present shock: when everything happens now” ou “Choque do presente: quando tudo acontece agora”, lançado em 2013.

Para Rushkoff, as pessoas imersas na Cultura do Imediatismo entendem o presente como um “instante prolongado”. Ignoram o passado e têm o futuro como incerto. Dessa forma, só se importam com o agora, negligenciando, muitas vezes a reflexão sobre os acontecimentos passados e o planejamento para o futuro.

As consequências disso são quase óbvias. Naturalmente, uma pessoa imersa na Cultura do Imediatismo se torna cada vez mais impaciente, tem dificuldades para lidar com frustrações e pode manifestar males até mais graves, como a ansiedade.

Os adultos precisam se conscientizar deste novo contexto de vida e exercitar o autocontrole. Já as crianças e adolescentes, por sua vez, precisam de apoio para se preparar contra as armadilhas do imediatismo.

Como o imediatismo afeta as crianças?

Não faz muito tempo que, para acessar a internet, boa parte da população aguardava o ponteiro marcar meia-noite, famosa hora do “pulso único”. Era a hora de ativar o discador que, depois de longos minutos de espera, faria a conexão com a internet.

Isso acontecia porque a conexão com a internet era via linha telefônica e muito cara em horário comercial. Os navegantes, então, optavam por esperar a madrugada para o acesso. Reforçando: tinham de esperar.

E para assistir a um programa na TV? Antes, era precisa levantar do sofá para mudar o canal ou ajustar a antena. Hoje, nem mesmo é necessário esperar o horário do programa. Ele já está ali disponível em todas as plataformas para acessar no horário que se desejar.

Os nascidos a partir do ano 2000 em diante não têm ideia de que era necessário todo esse processo para um simples acesso. Para eles, basta ligar o celular, em qualquer horário, e ali, na mão, já está tudo conectado.

É tudo muito rápido e está literalmente a um clique ou, até mesmo, a um comando de voz. “Ei Siri, ajustar alarme para as seis”. Isso quando o próprio celular não te oferece, ao final da noite, o ajuste do seu alarme matinal.

Na atualidade, as crianças e adolescentes já nascem imersos nesta dinâmica instantânea, expostos cada vez mais cedo aos estímulos da tecnologia digital. Além disso, recebem a influência dos pais super conectados todo o tempo, sempre na correria e fazendo tudo com pressa. Sem tempo para um diálogo, uma troca de olhares e muito menos para o ócio.

Os resultados de tudo isto para a infância podem ser trágicos e afetar tanto a capacidade de aprendizado, como também a personalidade.

Veja alguns dos ‘sintomas’ da Cultura do Imediatismo:

1.      Impaciência

Uma das principais características de uma criança ou adolescente afetados pela Cultura do Imediatismo é a falta de paciência para esperar resultados a longo prazo. Afinal, nem tudo está a um clique de distância.

2.      Frustração

Não ter o que deseja na hora em que deseja pode ser um grande desafio. Com pouco espaço para a reflexão e sempre com objetivos a curto prazo, as crianças podem não saber lidar com perdas.

3.  Dificuldade de concentração e memorização

Com tantos estímulos por longos períodos, as crianças e adolescentes tendem a perder um pouco a noção de linearidade do tempo. Por isso, pode ser difícil enfrentar um processo com começo, meio e fim sem se distrair.

Como consequência dessa distração constante também vêm as falhas na memória. É pouco tempo entre uma notificação e outra para guardar uma informação.

4.  Irritabilidade e estresse

Ansiedade, estresse, alterações hormonais e impulsividade são alguns dos comportamentos mais comuns desenvolvidos precocemente. Essas alterações podem se perpetuar e resultar em problemas a longo prazo.

Qual o papel da família diante do imediatismo?

Ao tomar consciência de toda esta situação, os pais, mães e educadores se perguntam: existe alguma forma de evitar que as crianças e adolescentes sejam tão afetadas negativamente pelo imediatismo? A resposta pode não ser tão simples, pois diz respeito às condições sociais e psicológicas de todos os envolvidos – criança, adolescente, familiares e escola.

No entanto, algumas simples ações podem contribuir para que a criança tenha compreensão sobre tempo, circunstâncias e limites. Por exemplo: se dedicar ao aprendizado de um instrumento musical, estudar uma nova língua, uma nova atividade física ou até cultivar plantas podem ajudar a criança a entender que nem tudo é imediato.

Aprendizados a longo prazo

Neste contexto, a criança vai entender que para adquirir novas habilidades são necessários tempo e persistência. E há coisas que não dependem de nós, nem sempre temos o controle – como o desenvolvimento das plantas. Podemos regar e adubar, mas leva tempo para uma planta crescer e frutificar.

Limites aos digitais

Outra dica é estabelecer limite de tempo no uso de aparelhos digitais, desde a televisão até smartphones. Um pouco de ócio faz bem. Ficar um tempo sem entretenimento digital pode impulsionar a criatividade, outras habilidades e também o descanso da mente.

Tempo de resposta

Estabelecer um prazo de horas ou dias para responder um questionamento pode ser um bom exercício, tanto para os pais como para os filhos. Para os adultos, será um tempo de reflexão sobre o que vai responder, e ao filho, exercitar a paciência e espera pela resposta.

Será melhor ainda se a resposta for acompanhada de um momento reflexivo entre ambos, em que os pais construam junto aos filhos a melhor alternativa ao questionamento.

Sonhem juntos

O imediatismo tira um pouco o brilho de sonhar com coisas quase intangíveis. É tudo tão rápido e o presente exige tanto esforço, que parece faltar energia para os planos a longo prazo.

Então, que tal sentar em família e refletir sobre conquistas futuras que vocês desejam alcançar? Será um belo exercício contra a cultura imediatista e pode render muitos momentos de afeto e descontração, fortalecendo os laços.

O mais importante de tudo é ter a consciência da dinâmica da vida que se vive hoje e não se render ao contexto sem ter a autonomia de determinar o que se quer para si e para os filhos.

É inquestionável que a evolução tecnológica trouxe muitos benefícios, mas ela precisa ser usada em benefício da sociedade e sob domínio e controle desta e não o contrário.

Se você também se flagra refém do ritmo acelerado ditado pelas tecnologias, compartilhe esse texto nas suas redes sociais e ajude mais famílias a se conscientizarem sobre a Cultura do Imediatismo.