O mundo do faz-de-conta e o alto potencial imaginativo são características que fazem parte da infância. Não há como não se encantar com crianças criando, dando novo uso a objetos e significando o mundo ao seu modo.  É algo que sempre rende boas risadas.

E elas podem até surpreender com aquela inesperada “sacada genial” para a resolução de uma dificuldade da família. O modo de ver da criança é poético, isso quer dizer que ela desconstrói o estabelecido e significa as coisas de maneira bastante criativa e inusitada.

Em um depoimento de Manoel de Barros, poeta que nunca perdeu a infância e o seu modo transgressor de escrever poesia, podemos entender melhor o olhar criativo das crianças sobre as coisas:

“Minha infância passei em uma fazenda no Pantanal. Nesse lugar o tempo era parado. Ou passava devagar que lesma. Às vezes a lesma chegava primeiro que o fim do dia. Eu não era solitário. Tinha três irmãos. A gente fabricava os nossos brinquedos. No lugar só tinha o nosso rancho e animais de sela. O que sufocava não era a falta de espaço. A gente só via as distâncias. A gente inventava brinquedos o tempo todo. Agora eu invento brinquedos com palavras. Um vício que eu trouxe de lá.” – Manoel de Barros.

Mas, será que a criatividade é talento para poucos? Será que é uma habilidade que pode ser desenvolvida? Como podemos estimular a criatividade na infância?

Veja como ela pode ser incentivada na escola mesmo em tempos de pandemia:

Obra Carmem Miranda de Luciano Martins – releitura de Havana Alves (5 anos)

Mas a criatividade não se limita às obras artísticas ou invenções científicas, ela permeia todas as áreas da vida e vai refletir na habilidade de resolver problemas.

Enquanto habilidade, pode ser ampliada ou até mitigada, vai depender das influências ao longo da vida.

A infância, como o principal período das experimentações do mundo, é terreno fértil para cultivar a criatividade. Estudos comprovam o alto potencial criativo durante a infância.

Um teste inicialmente utilizado para identificar os mais criativos entre os profissionais da NASA se transformou em um estudo de longo prazo com um resultado surpreendente. A pesquisa iniciada em 1968, por George Land e Beth Jarman, revelou uma diminuição no comportamento criativo.

A pesquisa testou o potencial criativo de 1.600 crianças entre 3 e 5 anos: destas, 98% pontuaram alta criatividade. Posteriormente, aos 10 anos, o mesmo grupo foi testado e, desta vez, o percentual caiu para 30%. Já aos 15 anos, apenas 12% mantiveram um bom nível de criatividade.

O mesmo teste foi realizado em adultos. Entre mais de 200 mil pessoas, o resultado foi de apenas 2% com pontuação de gênios criativos.

Os resultados do “teste de criatividade” reforçam a importância de criar estímulos desde a primeira infância e permanecer com seu uso durante o desenvolvimento até a adolescência.

Importância da criatividade

O valor da criatividade não é apenas o de fazer um desenho bonito, ou apresentar um seminário dinâmico, por exemplo. Esta habilidade é uma forma de a criança interagir com o mundo real e, gradualmente, construir a identidade pessoal.

Além disso, a capacidade de criar é relevante em todas as áreas da vida: seja na escola, trabalho, relacionamentos pessoais. É a prática de pensar “fora da caixinha”. Uma pessoa criativa tem maior facilidade de se adaptar às mudanças, superar desafios, ser resiliente diante das dificuldades da vida.

Daí é preciso pensar com mente e coração aberto para o que as crianças criam, falam e pensam. Dar a resposta considerada correta nem sempre enaltece a criança e nem dá chance a ela de construir o processo de descobertas. A criança em sua essência é lúdica, criativa, espontânea e quando ela confia, ela é verdadeira.

E todos esses atributos vão desaparecendo à medida que a criança cresce, pois ela se vê exposta ao enquadramento social  da dicotomia do certo e do errado.

Você já pensou quantas cores tem o céu. Admire o céu em horários diferentes e verá que o céu possui cores diversas, pois cor é energia, os diferentes comprimentos de onda produzem a sensação que atinge a retina do olho humano, por isso distinguimos cores diferentes vindas do espaço. Mas então, por que sempre que a criança pinta o céu de azul e as nuvens de branco?

É nesse sentido que a criatividade vai se transformando em conceitos bem equivocados e empobrecidos, porém aceitos como certos no âmbito escolar, o que vai contra a importância de se desenvolver a criatividade, ao longo de todos os níveis escolares.

Dicas de como estimular a criatividade

Para que a capacidade da criatividade não se perca ao longo dos anos, é importante que os pais, e quem mais conviva com as crianças, além da equipe escolar, estejam sempre promovendo atividades que estimulem a imaginação, com espontaneidade e liberdade.

O mais interessante de realizar estas atividades junto às crianças é que, enquanto elas aprimoram esta habilidade, os adultos envolvidos também têm sua criatividade estimulada. Afinal, haja criatividade para elaborar tarefas diariamente e manter a mente aberta.

  • A princípio, é importante gerar em casa um ambiente favorável à inventividade. Manter uma rotina é fundamental, mas ter um tempo livre, ou atividades em aberto é essencial para criações;
  • Leve seu filho para visitar novos lugares com culturas diferentes;
  • Permita que a criança participe das pequenas decisões na rotina de casa: a escolha da decoração do quarto, a organização da mesa para as refeições, encaixe dos móveis nos ambientes, são pequenas ações que podem demandar boas ideias;
  • Escolha brincadeiras que valorizem a ludicidade. Que tal contar histórias vestindo os personagens? E que tal costurar estas roupas dos personagens?
  • Proporcione a ressignificação das coisas com a recriação de espaços e objetos: folhas de árvores podem virar comida, um lençol se transforma em uma cabana na floresta, a caixa de sapato pode ser um foguete espacial.
  • Ao invés de desenhos prontos para colorir, promova a criação e pintura dos próprios desenhos além dos formatos tradicionais. Vale a experiência com diferentes cores e texturas de papel.
  • Opte por escolas que estimulem a criatividade. Observe as atividades das crianças, se têm traços pessoais, ou se é um material “pré-pronto”.
  • Evite rotinas corridas sem tempo livre. Lembre-se do ócio criativo. A criança não precisa ser entretida todo o tempo.
  • Em momentos na cozinha, chame seu filho para criar receitas diferentes. Se precisar de inspirações, confira nosso e-book Livro de Receitas da Família Casa Escola
  • Prefira brinquedos e jogos que incentivem a criatividade, como, por exemplo, “Imagem e Ação”, “Pega Varetas”, “Jogo da Memória”, “Cubo Mágico”, “Blocos de Montar”.
  • Reinventem as dinâmicas e regras de brincadeiras tradicionais.
  • Limite o tempo de exposição às telas (televisão, celulares, tablets, computadores).

O que não fazer?

Tão importante quanto as atividades a serem desenvolvidas com as crianças, são as ações que não devem ser realizadas e que podem inibir a criatividade.

  • Evite críticas ao jeito e ritmo dela fazer as coisas;
  • Não imponha regras em excesso;
  • Não ache que só há um modo de fazer as coisas (o seu modo);
  • Não proponha atividades de apenas uma resposta;
  • Não corrija uma ideia da criança em público, ela pode ficar constrangida;
  • Evite frases do tipo: “isso não vai dar certo”, “que ideia maluca”, “deixe de invenção”… Atitudes assim inibem a criatividade.

Conclusão

Os benefícios deste investimento, na capacidade criativa da criança, darão frutos no presente e futuro, na fase adulta. Uma criança e adolescente incentivados a usar esta competência serão mais seguros nas escolhas, com capacidade de análise e crítica mais apurada para a resolução de problemas.

Portanto, aprove mais do que desaprove e não dê respostas prontas, devolva a pergunta à criança e se encante com as respostas que virão.

A criança cria hipóteses (respostas) bem pertinentes para suas próprias perguntas. Assim como os filósofos e naturalistas procuravam respostas para os fenômenos, as crianças usam o mesmo processo intelectual de perguntar e criar possibilidades frente às suas dúvidas. Isso é muito criativo e encantador.

Além disso, com a diversidade de experiências de “erros” será mais fácil para a criança lidar com a frustração e estar sempre aberta ao novo. Ser criativo também fortalece a inteligência emocional. Muito importante para um desenvolvimento saudável, onde até o estar sozinho pode ser uma oportunidade de novos aprendizados.

Em nosso blog também falamos sobre a importância do brincar sozinho e os benefícios disso para os filhos. Clique aqui e confira o artigo.