Estudar tem a ver com aprender e querer aprender tem a ver com estudar. Realmente uma ação depende da outra e o envolvimento com o estudo fica mais perceptível quando a criança começa a lidar com o mundo da leitura, da escrita e do cálculo matemático.

Para melhor entender sobre estudar, vamos começar pela palavra aprender.

Partamos da premissa de que todo mundo deveria gostar de estudar, mas não é bem isso o que acontece.

Na verdade é melhor dizer assim: todo mundo é capaz de aprender.

Então, por que será que tem criança e adulto que não gostam de estudar?

Segundo a psicóloga argentina Alicia Fernandez, o primeiro ato de aprender, no humano, vem do contato do bebê com o seio materno. A boca é o primeiro instrumento de aprendizagem.

Alimentar-se do leite materno (ou de outro qualquer) é um ato que se aprende, mesmo que o bebê já comece a mamar ao primeiro contato com o seio. A sucção é uma ação desenvolvida.

Desta relação com o  seio materno e da forma como  ele é oferecido, o bebê já entra para o mundo das aprendizagens à sua maneira.

Depois, o bebê vai usar a boca para conhecer outros objetos que o circundam até conseguir usar outros sentidos que irão oferecer formas mais evoluídas de explorar e de aprender.

Para Alícia Fernandez, “desde o início de sua existência, o bebê já está constituindo o sujeito aprendente sempre em relação com a modalidade de ensino e de aprendizagem de seus pais”.

A relação dos pais com a criança vai implicar diretamente na forma como ela vai reagir à curiosidade e, mais ainda, na maneira dela se constituir.

Nesse sentido, desde muito cedo é possível perceber o interesse ou o desinteresse da criança em relação à aprendizagem, mas a notícia boa nisso tudo é que é possível retomar o prumo das coisas quando não estão dando muito certo, e quanto mais cedo se cuidar é melhor.

Quais os motivos que levam a criança não querer aprender?

A criança se constitui na relação com os pais e isso influencia o interesse da criança em querer aprender e estudar.

Então, seria correto afirmar que filho de peixe peixinho é?

Sim, mas nem tanto (risos). Calma, vou explicar. Se os pais gostam muito de ler, isso pode ajudar bastante o envolvimento da criança com os livros, mas isso por si só não é determinante.

Pais leitores nem sempre terão filhos leitores. Muitas vezes a ansiedade para que a criança crie uma intimidade com os livros pode até atrapalhar o desejo dela em se afinar com a literatura.

O mesmo acontece com a matemática. Filho de engenheiro  nem sempre será bom no cálculo ou em solução de problemas. A abordagem do adulto muitas vezes é o que define a afinidade da criança com um assunto.

Aliás, a estudiosa em dificuldades de aprendizagem, Alícia Fernandez, define a ansiedade excessiva do adulto como uma violência que atropela o desenvolvimento da criança. Ela usa o termo atrapar, em castelhano, que em português pode ser compreendido como um “atrapalhar atravessado”, não há uma tradução exata.

Outra questão levantada desde de muito cedo e que implica no jeito de ser e de aprender está ligada diretamente na expectativa dos pais em relação a esta criança

Cada criança é única e isso é intrínseco aos seres vivos, na natureza não há um ser igual ao outro. Nessa perspectiva, um irmão não é igual ao outro. Nem os gêmeos! Diante das diferenças e dos interesses que cada criança possa ter, o estigma se cria dentro do próprio lar. “Esse aqui aprende rápido, já sabe as letrinhas, esse aqui é mais devagar”, a virtude de um escamoteia a do outro.

O destino para um filho muitas vezes já é traçado, é na repetição diária de atitudes e de comentários dos adultos que a criança se molda àquilo que dela se espera.

Para Alícia Fernandez a família é um conjunto de relações internalizadas (conscientes e inconscientes) e o que a criança aprende é decorrente dessas relações, com isso ela vai desenvolver a sua modalidade de aprendizagem.

Fernandez traz ainda, como exemplo, o segredo. Para a teórica não há segredo que não se perceba, seja nas atitudes diretas ou indiretas ou, ainda, por uma falha no que não pode ser hermético. E a criança, em sua extrema sensibilidade e capacidade de escutar o que não foi dito, aprende que aprender ou questionar pode significar um perigo.

Como resultado disso, pode-se, muitas vezes, se encontrar pessoas adultas que estudam para prova, estão sabendo, mas na hora H não conseguem mostrar o que sabem.

Tudo isso faz parte das subjetividades humanas em que para se desatar o nó, uma terapia pode ser bastante útil.

E o que a escola tem a ver com isso?

O bom profissional na área da Educação identifica a falta de desejo de aprender na criança antes da família, o que muitas vezes é difícil para os pais compreenderem.

Aceitar a condição de que o filho não consegue aprender como o restante dos colegas e que ele se envolve pouco com os desafios das aprendizagens pode trazer o sentimento de culpabilização aos pais e não se trata disso.

Quanto mais cedo os efeitos da falta de desejo de aprender for detectado, mais fácil será reverter ou encontrar caminhos para ajudar a criança e a família.

Mas pelo que parece, se você está lendo este texto já é um sinal de que se preocupa com a situação e que está procurando ajuda. A boa notícia é que não precisa se desesperar. Como já dissemos, é possível cuidar.

Nesse sentido, a escola pode ser uma boa parceira dialogando com a família e abrindo o caminho para as possibilidades. Por outro lado, ao contrário do primeiro exemplo, a escola pode também reforçar a falta de interesse pelos estudos quando enfatiza as dificuldades e reforça os estigmas.

E o que pode fazer a família para ajudar a criança?

Diante da resistência do filho, os pais buscam respostas: será que é uma fase? será que é só preguiça? será que é ineficiência dos professores?

Como já vimos, os motivos para a falta de entusiasmo com os estudos ou com o momento da lição em casa podem ser diversos, dos mais simples aos mais complicados.

Pode ser falta de compreensão do conteúdo ou porque a criança se sente muito cobrada, além das distrações tecnológicas que atraem todas as idades ou até mesmo fatores de ordem emocional, como mencionado acima.

Entender o motivo seria importante, mas independentemente da razão, uma questão é certa: você precisa descobrir o caminho para ajudar que não esteja nem no extremo da cobrança e pressão e nem no ponto oposto de fazer as atividades pela criança ou jovem, ou ainda “deixar pra lá”.

Procure não transformar cada momento com a criança em uma oportunidade para ensiná-la. Pelo contrário, divirta-se mais com ela nas brincadeiras, nas conversas, contações de história e nos jogos de tabuleiro, são nesses momentos mais lúdicos e espontâneos que a criança aprende melhor.

Seja leve. A criança cria defesas anti aprendizagem ou estudo diante das atitudes gananciosas dos pais em querer ver logo os resultados em função do futuro. Por isso é importante compartilhar com seu filho os momentos do presente. Em função deste investimento, haverá espaço para um futuro bem mais promissor.

Investigue o/os motivos da falta de vontade de estudar

Para descobrir a verdadeira razão é preciso investigar.

Observar o comportamento, as atitudes, abrir-se ao diálogo. Ter um tempo de conversa franca entre pais e filho ajuda muito nesta descoberta.

Recorrer à equipe pedagógica da escola nesse momento também pode ser fundamental. Compartilhe com o professor de seu filho, ou, se preciso, com a coordenação pedagógica e/ou psicólogo da escola, sobre sua preocupação e, juntos, vocês podem encontrar as possíveis causas e caminhos para as soluções.

Estes momentos serão fundamentais para, se for o caso, receber a orientação de procurar um especialista para um acompanhamento individualizado mais próximo.

Saiba como incentivar o gosto pelos estudos

Já entendemos alguns dos principais motivos que fazem a criança não querer estudar. Agora, vamos avaliar algumas abordagens e estratégias para incentivá-la aos estudos.

Converse com a criança sobre a importância dos estudos

O que parece ser preguiça, pode ser uma falta de compreensão e motivação sobre a importância do ato de estudar.

Apelar para o conceito comum: “vá estudar para ser alguém na vida” como argumento, pode não ser uma boa estratégia, visto que esta perspectiva parece muito distante e, por isso, não estimula a criança.

É importante, ainda, que as crianças percebam como o hábito de estudo desenvolve seu raciocínio e decisões diárias, além de fortalecer capacidades como a persistência, organização, responsabilidade, superação, entre outras. Exemplos ajudam nessa compreensão.

Faça relações com o cotidiano

Algumas atividades educativas podem envolver mais as crianças no aprendizado de maneira prazerosa. Neste texto do nosso blog enumeramos algumas atividades educativas bacanas que podem ser praticadas em casa.

Rotina diária

Estabeleça com seu filho uma rotina diária, em que esteja determinado o momento e o tempo para o estudo, como também para outras atividades, como o brincar.

Rotina é uma prática que já citamos por diversas vezes aqui no blog. Isto porque é uma ação necessária e eficaz.

Quando falamos de rotina, falamos de planejamento e preparação para algo. A previsibilidade dos momentos traz uma sensação de calma e confiança para as crianças (e para adultos também!). Este planejamento é um bom passo para uma vida com organização e autonomia.

Valorize suas conquistas

Demonstrar ao seu filho que você valoriza de maneira autêntica os esforços dele traz um grande ganho, tanto para a autoestima dele, como para o relacionamento entre pais e filhos. Dessa forma, ele pode esquecer as frustrações e se sentir motivado para superar os desafios.

Uma boa forma de valorização, além da verbalização, é montar um mural na casa com as atividades realizadas pela criança e os resultados alcançados. Ele se sentirá importante pela demonstração pública dos desafios vencidos e os que ainda  pode alcançar.

Descubra seu estilo de aprendizagem

Da mesma forma que nenhuma criança é igual na aparência, elas também não são iguais na forma de aprender. A aprendizagem está diretamente relacionada com a personalidade de cada um e é uma tarefa intersubjetiva, particular e individual.

Por isso, é extremamente importante entender o modo de aprendizagem com que o seu filho melhor compreende os conteúdos. Alguns especialistas separam o aprendizado em três categorias: visual, auditivo e cinestésico.

Alguns alunos preferem estudar com vídeos, outros se sentem melhor lendo e escrevendo, outros ainda preferem ler em voz alta o conteúdo e ter um ambiente sem distrações auditivas.

O que mais importa nisso tudo é compreender que todo mundo tem capacidade de aprender e que as metodologias mais modernas vão buscar as possibilidades de aprendizagens na contra-mão das dificuldades.

Nesta visão mais respeitosa aos limites ou aos entraves, a criança passa a ser mais parceira daquele que a ensina e começa a se abrir para a aprendizagem, se percebe mais motivada para estudar e consegue ser mais feliz.

Curtiu esse texto? Então que tal compartilhar com outras pessoas que você acredita que também podem gostar?! Ou, de repente, ler um pouco mais sobre o assunto neste outro texto, que traz algumas possibilidades para auxiliar os filhos nos estudos em tempos de pandemia?