Já pensou o seu filho tendo que encarar um momento de luto ou que enfrentar as incertezas da pandemia ou, até mesmo, ser abordado por algum estranho de forma maliciosa?

Muitos adultos apresentam dificuldades para falar com seus filhos sobre assuntos considerados inapropriados para crianças. Mas como evitar falar sobre coisas difíceis quando elas estão tão perto, como agora quando todos estão vivenciando o isolamento social?

Por maior que seja o esforço para protegermos nossos filhos, é inevitável a exposição deles a realidades difíceis e perigosas.

Assim como a pandemia, outros temas surgem no dia a dia da criança e, às vezes, nos vemos pegos de surpresa sem saber qual a melhor forma de explicar aos pequenos o que eles querem saber ou até mesmo precisam saber.

Assuntos como morte, pedofilia, sexo, preconceito, diferenças sociais podem ser faladas a fim de proteger a criança, formar sua identidade ética e torná-la mais segura. 

Mas como e quando falar? Assista a este vídeo para entender.

 

 Mesmo que seja um desafio, é importante não negligenciar aos filhos as informações e respostas às suas dúvidas. Fundamentos aprendidos na infância são consolidados na adolescência e, também, levados para a vida adulta.

 A falta de informação, ao contrário do que se pensa, desprotege!

 Por isso, vamos falar um pouco neste texto sobre quando e como é possível conversar sobre assuntos complexos e difíceis.

Quando falar sobre assuntos difíceis?

O fato é que nem tudo precisa ser exposto às crianças, mas quando há algo pontual que elas estão vivenciando e interfere na vida delas ou, ainda, quando começam a fazer perguntas, é hora de os pais responderem aos questionamentos.

 É importante adequar a fala à idade da criança sem infantilizar. A grande sacada é conseguir se conter e não sair respondendo tudo que lhe vier à cabeça sobre o assunto. Quando a criança quer saber o que é sexo, certifique-se o que ela realmente quer saber.

 Respire, mostre-se interessado e lance uma pergunta para obter mais informações sobre o que a criança quer realmente saber e, no ensejo, entender o que ela já sabe ou compreende sobre o assunto.

 Considere que os pais não são a única fonte do conhecimento para assuntos delicados. A criança que frequenta a escola já tem acesso a informações por outros caminhos, geralmente os colegas também têm as mesmas curiosidades dela.

 Crianças pequenas fantasiam acerca da realidade; portanto, se você não abrir a visão do seu filho, a realidade pode chegar a ela por outro viés e alimentar de forma deturpada o seu imaginário.

 O excesso de ingenuidade também é nocivo. Deixar a criança fora do contexto e alheia ao que é real permite que a criança crie as suas hipóteses por conta própria e as solidifique como verdade; afinal, nada desequilibra o seu saber enclausurado na desinformação, o que não é sinônimo de inocência.

 A inocência deve ser respeitada a partir de respostas que a criança possa suportar no alcance de sua compreensão e sempre baseadas na verdade. A mentira gera desconfiança, portanto a criança passa a confiar melhor nos outros para suprir a sua curiosidade, isso nem sempre é o melhor.

No caso da morte ou de uma perda, a mentira pode gerar traumas ou condutas de raiva que levam anos para serem sanadas caso não se procure cuidar da situação.

 Daí o silêncio pode ser visto também como uma omissão e abandono da criança à ignorância, quando “todos sabem, menos eu.”

 Qual o melhor caminho então?

Conversa complexa: fale sem ansiedade

Esclarecida a necessidade de haver a conversa, não quer dizer que é para sentar-se um de frente ao outro e começar a falar sobre o assunto de maneira formal. Vamos com cautela.

 O mais importante é que o assunto seja abordado de uma forma tranquila, sem transmitir medo, ou conter um tom punitivo pelo próprio questionamento, do tipo: “Isso é assunto de gente grande”. Deixe clara a relação de confiança que pode existir entre você e seu filho.

 O que e como será conversado depende muito de como é a criança, a sua idade, sua noção e conhecimento de mundo, além do preparo emocional; mas, lembre-se, crianças não são de cristal e nem gostam que se minta para elas.

 O tema pode vir à tona em uma conversa à mesa, ou em uma caminhada. É bacana que se utilize uma linguagem lúdica, adaptada à idade, em uma oportunidade (aparentemente) aleatória, ou até durante uma brincadeira.

Assuntos complexos podem ser uma oportunidade de transmitir valores e princípios aos filhos. Sem ser taxativo, leve-os à reflexão para facilitar a compreensão. Pais que abrem espaço para o diálogo, além de educar os filhos, estão abrindo portas para eles enfrentarem o mundo.

Materiais didáticos e brincadeiras podem ajudar na conversa

Já existem alguns materiais disponíveis que ajudam as crianças na compreensão de temas difíceis. Os livros infantis podem ser usados como ferramentas para introduzir e debater estes assuntos. Além de ser um recurso didático e lúdico, próximo à realidade da criança, a leitura pode trazer leveza à conversa.

 Há uma diversidade de livros infantis à disposição que se dedicam a explicar às crianças “temas do mundo adulto”. As obras exploram de maneira divertida assuntos como política, economia, direitos humanos etc.

 A literatura também pode ser excelente aliada em temas sociais, ou até familiares. Com uma linguagem leve e adequada ao imaginário da criança questões como medo, saudade, perdas, bullying, preconceito, separação, podem ser tratados com maior clareza.

Veja algumas obras que tratam destes temas:

  • O Reizinho Mandão, de Ruth Rocha – pode trabalhar a noção de coletividade;
  • Não fui eu!, de Brian Moses – trata da questão da honestidade;
  • Menina Nina – Duas Razões para não Chorar, de Ziraldo – pode ajudar a lidar com a morte;
  • Bruno e João, de Jean-Claude R. Alphen – fala sobre o bullying;
  • Duas Casas e uma Mochila, de Sonia Mendes e Jana Magalhães – discute sobre a separação dos pais;
  • Malala, a menina que queria ir para a escola, de Adriana Carranca – fala sobre diferenças culturais.

Dependendo da sensibilidade da criança, produções audiovisuais também podem ser efetivas para a introdução do assunto. Alguns filmes ou até vídeos disponíveis em plataformas streaming, como o YouTube, são dedicados a traduzir para a linguagem infantil temas difíceis de serem falados.

Nestes últimos tempos têm surgido diversas produções sobre a pandemia do novo coronavírus. A necessidade da higienização correta para a proteção e até o porquê de levar a sério o isolamento social são alguns dos conteúdos disponíveis por lá.

Segue abaixo uma produção da UFRN com informações em forma de animação sobre a Covid-19 que pode ajudar na abordagem do tema:

 Se o assunto que você precisa abordar com a criança é sobre a ausência do ambiente escolar e a nova rotina de estudar em casa, nós produzimos um texto sobre como auxiliar seu filho com as tarefas da escola em tempos de pandemia. Confira aqui!

 E se gostou como esse assunto foi abordado, indique este texto para que outros tenham a chance de lê-lo como você.