Muitas escolas se apresentam como construtivistas e, diante do termo que viralizou no âmbito da Educação, é bom entendermos melhor que ideias sintetizam o termo e assim sabermos melhor o que significa.

O Construtivismo é uma linha de pensamento relacionada à aquisição do conhecimento que emergiu no campo da Psicologia Cognitiva e que hoje em dia é muito comentada entre as escolas.

Dois teóricos, em especial, contemporâneos entre si, inauguram o Construtivismo:

Jean Piaget e o construtivismo

A ideia “Construtivismo” surgiu dentro de um momento histórico, no final do século XIX, de pensamentos mais revolucionários. As Artes inauguram ideias como o cubismo, quando  a Psicologia era remodelada pela Psicanálise.

Nesse contexto, Piaget (biólogo, psicólogo e filósofo) dedicou sua pesquisa à compreensão do desenvolvimento humano e dos processos de aquisição do conhecimento.

Fundador da Epistemologia Genética (estudo científico que trata dos problemas relacionados com a crença e o conhecimento), Piaget aprofundou seus estudos  a partir dos seguintes questionamentos:

  • O que acontece quando se aprende?
  • E como se aprende?

Em primeiro lugar, Piaget defendia que as estruturas cognitivas do sujeito não são inatas, diferente de outras visões sobre o desenvolvimento humano como o behaviorismo.

Essas descobertas e considerações sobre o desenvolvimento humano é adotado por algumas escolas do século XX e XXI e foi o que permitiu se ter outra visão sobre o ensino e aprendizagem.

O ensino passou a ser visto como oportunidade de experimentações e de vivências, e o erro vem a ser compreendido como tentativas de acerto. O erro é parte do processo, e as oportunidades e aprofundamentos ajudam na memorização de qualidade.

É como aprender a cortar um pedaço de madeira com um machado de primeira. Para aprender é preciso desenvolver habilidades (motoras e intelectuais) por meio das tentativas. Ninguém acerta a machadada de primeira.

Ao longo das oportunidades criadas para aprender, das tentativas do aprendente, da mediação do ensinante e das experiências acumuladas é possível qualquer um aprender qualquer coisa, por mais difícil que pareça.

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O mesmo acontece com a aquisição da leitura e da escrita, do letramento matemático, da concepção temporal e espacial, da língua estrangeira e de todo tipo de conhecimento.

Existe um padrão de desenvolvimento comum ao humano que nos ajuda a compreender melhor o que acontece com as crianças quando estão aprendendo e assim fica mais fácil respeitá-las e ensiná-las.

Quando lhes são dadas várias oportunidades e ofertados estímulos adequados, a criança aprende de forma mais interativa, intensa e consequentemente, de forma mais prazerosa.

Por isso a escola construtivista toma um novo rumo frente ao ensino e a aprendizagem. Nela, o professor não é um mero transmissor de conhecimento e o aluno não aprende apenas por meio do que ele explicou de forma passiva. É preciso muito mais.

Com o foco no modo de aprender do aluno, é preciso respeitar a fase em que a criança se encontra, sua maneira de interagir com o mundo, retomar os atropelos e abrir possibilidades para novas ações sobre o conhecimento, despertando o interesse e as novas descobertas.

Etapas de desenvolvimento de Piaget

As etapas de desenvolvimento também foram realizadas por outros estudiosos da psicologia. Porem Piaget as dividiu dessa forma:

  • Sensório–motor (0 a 2 anos)
  • Pré-operacional (2 aos 6 – 7 anos)
  • Operacional concreto (7 aos 11 anos)

Para entender melhor cada uma das etapas assista ao vídeo abaixo:

Fica o alerta: essas etapas não podem ser idealizadas e vistas como algo rígido a ser seguido, há que enxergá-las com certo nível flexibilização e fluidez, pois cada um é único com suas particularidades.

E como acontecem as aprendizagens para Piaget?

Pode parecer estranho, mas no comecinho de suas vidas as crianças aprendem por meio da experimentação e da imitação. A criança precisa colocar objetos na boca e acaba por andar sobre os pés porque tenta acertar o modo como as pessoas maiores andam.

Enquanto pequenas, a partir dos 2 anos de idade aproximadamente, as crianças fazem uma mistura grande entre o real e o imaginário, o que não se desfaz com a explicação racional do adulto.

E diferente disso, nesta mesma idade, a criança já é capaz de simbolizar boa parte do mundo a partir da ideia das coisas, sem precisar estar próxima delas – a base para se começar a nomear os objetos e aprender a falar. O mundo simbólico e a fala andam de mão dadas.

Nessa gama de informações sobre as etapas do desenvolvimento da criança, foi possível conhecer melhor e respeitar o seu modo de aprender.

E no andar da carruagem, à medida que as crianças crescem, elas vão conceituando o mundo por meio de esquemas de aprendizagens. Isso demanda da criança a ação efetiva sobre a realidade, para que, aos poucos, possam abrir mão de um imaginário que ainda funciona como crença.

A partir disso, podemos falar então em:

  • Pré-conceitos – conhecimentos baseados no senso comum e nas crenças,
  • Conceitos – conhecimentos baseados nos estudos científicos e experimentações.

A visão mais científica sobre as coisas se estabelece à medida que a criança se desenvolve cognitivamente, entretanto, há um percurso pelo imaginário que a possibilita “compreender” o mundo a sua maneira e isso não precisa ser confrontado. Crianças acreditam em Papai Noel e pronto. Mais tarde abrem mão dessa crença e compreendem a origem do presente.

Dessa forma, é possível compreender que uma escola que opta, de verdade, pela linha construtivista respeita as etapas de desenvolvimento da criança, de modo a aumentar as suas experiências e ampliar o seu conhecimento de mundo.

Daí, é possível notar que a escola construtivista preza pelo aprofundamento dos conteúdos e não pela sua quantidade.

Problematizar o conteúdo a ser estudado e provocar o aluno a perguntar é uma boa forma de desencadear o desequilíbrio necessário para toda criança conseguir e gostar de aprender.

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Desse modo é possível gerar novas curiosidades sobre um mesmo tema e ir mais a fundo.

Ensinar as crianças com atividades que a categorizam a partir do “erro” e do “acerto”, da cópia e da escuta silenciosa reduz as suas possibilidades de aprender, reduzindo o conhecimento às atividades meramente escolares. E isso é muito pouco!

Sobre aprender a ler, falar e escrever, Piaget também tratou sobre a aquisição da linguagem, mas é Vygostsky que aborda isso com maior clareza e intensidade.

Vygostsky e a visão sociointeracionista

Para iniciar é bom saber um pouco sobre Lev Semenovitch Vygotsky. Ele nasceu na Rússia, era psicólogo, professor de literatura, formou-se em medicina e direito. O bom para nós da área da Educação, é que ele pesquisou o desenvolvimento infantil em dois principais eixos de estudo:

  • O papel da linguagem na constituição do humano,
  • O processo histórico-social no desenvolvimento do indivíduo.

O que tem sido de grande serventia para a melhoria do ensino da língua materna, da 2alíngua e de outras a partir das práticas de linguagem no social, e não mais a partir do ensino da gramática. Veremos o porquê.

Linguagem e pensamento

Uma das maiores contribuições de Vygotsky está na compreensão das relações entre o pensamento e a linguagem.

O teórico definiu que a linguagem simbólica tem um papel similar ao dos instrumentos. Com isso, materializou a linguagem e vinculou a sua existência à interação com o meio.

Daí afirmou que:

A linguagem só ocorre por meio da interação seja ela escrita ou oral.

Isso é muito importante de se conceber, pois nesta visão é possível compreender a dimensão histórica, social e cultural da linguagem e fazer uso disso na escola de maneira que as produções dos alunos estejam pautadas nas práticas sociais, da forma como ela é usada.

A partir do uso social da linguagem, os alunos se empenham mais e se sentem mais valorizados em suas produções. Ele não escreve mais somente para a atividade ou para o caderno, ele escreve para o outro.

Em síntese, Vygostsky afirma que:

A linguagem é o que permite a interação social e, ao mesmo tempo, organiza o pensamento.

Visto isso, Vygostsky considera que a linguagem é, antes de tudo, social e a sua função comunicativa está estreitamente ligada ao pensamento.

Vamos entender então que a linguagem se estabelece de fora (do social) para dentro (o sujeito), o que nos leva a pensar sobre a valorização da cultura, o quanto ela é importante e deve ser considerada na vida e, consequentemente, no meio escolar.

Linguagem sem cultura é linguagem vazia. Isso nos ajuda a refletir sobre o formato das aulas expositivas que ainda persistem nas escolas tradicionais, baseadas em acúmulo de informações, memorização e testes. Sem muitos diálogos e trocas.

Se quiser explorar mais a visão da linguagem com um objeto de interação, fica a sugestão do vídeo:

E mais ainda, o que revolucionou o modo de ensinar e de aprender, a partir de Vygostsky, foi a constatação de que aprendemos a partir de um outro, o que o teórico denominou de Zona de Desenvolvimento Proximal.

Zona de Desenvolvimento Proximal – ZDP

Uma das contribuições mais valiosas de Vygostsky para a pedagogia foi a descoberta da Zona de Desenvolvimento Proximal, também chamada de ZDP.

partir da ZDP, o professor aposta no seu aluno, e cria para ele metas gerais e individuais pensando em suas particularidades. O que gera estratégias de ensino atingíveis e, ao mesmo tempo, desafiadoras. É isso o que uma escola construtivista faz.

Em uma escola construtivista, o aluno não é apenas o sujeito passivo da aprendizagem. Ele aprende com o outro e com o que o seu grupo social produz. E o professor intermedeia as interações que acontecem por meio da linguagem em sala de aula.

Vygostsky enfatizou a importância das trocas culturais e do compartilhamento dos saberes no processo de aprender.

Portanto na escola construtivista a cultura não pode estar dissociada da ação pedagógica do professor e nem do conteúdo a ser estudado.

No construtivismo há outra forma de ensinar

A partir do construtivismo, a pedagogia percebeu que era preciso reinventar o ensino, trazendo metodologias participativas para a sala de aula. Foi preciso reconhecer a importância da voz do aluno. Ele não apenas reproduz o que é ensinado, ele contribui com seus saberes, mostra seu modo de significar o mundo e complementa o do outro.

Com isso, espera-se que o aluno participe ativamente do próprio aprendizado e não seja apenas um ser passivo diante da explicação do professor.

O construtivismo tem como princípio a participação ativa do aluno no processo de ensino e aprendizagem. e há uma serie de acréscimos que incrementam essa participação e consequentemente melhoram a qualidade do ensino. Veja:

  • participação do aluno no planejamento
  • trocas e diálogo entre alunos, especialistas e outros,
  • experimentação,
  • pesquisa em grupo,
  • estímulo à dúvida,
  • aceitação do erro como parte de um processo,
  • espaço para o aperfeiçoamento,
  • desenvolvimento do raciocínio autônomo,
  • desenvolvimento do raciocínio criativo,
  • autoavaliação,
  • reformulação das aprendizagens,
  • aprofundamento no conhecimento,
  • autogestão dos estudos,
  • entre outros procedimentos que só a função de um professor bem formado e intencionado pode fazer acontecer.

É a partir da ação do aluno sobre o conteúdo a ser estudado, nas trocas com os colegas e com a mediação planejada do professor que surgem as descobertas no ensino. O mais interessante ainda é quando a descoberta é diferente do esperado.

Por exemplo: todo mundo sabe que 2 + 2 = 4. Mas você já parou para pensar quantos cálculos são possíveis realizar para se chegar ao resultado 4 a partir de uma operação simples? Tente. Você nunca vai encontrar um fim para as suas tentativas, elas são infinitas.

Em uma sucessão de acontecimentos interessantes, pensados, planejados e compartilhados em sala de aula, os conceitos a serem aprendidos são construídos pelos alunos de maneira mais dinâmica e sólida.

Isso permite ao aluno abrir horizontes para compreender melhor sobre o que se aprende e, ainda, fazer relações com que está por aprender.

Quando bem instrumentalizado, o aluno se torna mais autônomo e transformador, capaz de tirar conclusões próprias sobre o que aprendeu e ir em busca de outros aprendizados que vão aparecer ao longo de sua vida.

O que não pode acontecer no construtivismo

Muitas escolas se dizem construtivistas, mas nem todas realmente são. Dai alguns aspectos importantes para você poder discernir se o que estão te mostrando é realmente construtivismo ou não.

Construtivismo não se resume às práticas como culinária, trabalho em grupo ou aula de campo. É muito mais completo e complexo.

Características de uma escola construtivista

Na caracterização de uma escola construtivista é preciso pensar que ser construtivista é tornar-se construtivistato be or not to be– é uma questão de identidade que se pauta em:

  • postura identitária
  • atitudes contínuas,
  • compromisso com o planejar detalhado em função do conceito a ser apreendido por todos os alunos;

O construtivismo promove vantagens expressivas ao crescimento ético e intelectual de todos os envolvidos. Para isso é preciso que a instituição de ensino invista, e vista, a camisa do construtivismo.

Por isso, dentro do seu alcance, a gestão escolar precisa pensar nos três eixos constitutivos de uma escola construtivista, um relacionado ao outro. São eles:

  • Alunos,
  • Equipe técnica-pedagógica e de funcionários de apoio,
  • Famílias.

Com o foco nesses três eixos, a gestão favorece as aprendizagens como garantia do exercício rotineiro das atitudes construtivistas. Com isso a gestão precisa se preocupar com alguns pontos.

Que seja pensado e realizado para o aluno:

  • planejamento criado pelo(a) professor(a) adequado aos alunos,
  • participação do aluno no plano de aula,
  • mediações do adulto e da turma voltadas às  particularidades do aluno.
  • flexibilização dos procedimentos de ensino e do próprio planejamento,
  • aulas compartilhadas que permitem a troca de conhecimentos,
  • desenvolvimento de atitudes éticas e solidárias entre todos,
  • aprofundamento nos estudos,
  • poucas situações de cópia (tirar do quadro),
  • espaço para criar soluções próprias,
  • participação e valorização dos saberes,
  • espaço para perguntas e tirar dúvidas,
  • avaliações das aprendizagens efetivas,
  • estratégias de ensino que vão além do espaço escolar,
  • avaliações e estratégias de ensino como processo,
  • material didático diversificado, desafiador e contextualizado.

Que o professor tenha:

  • Apoio e trocas para a realização do seu planejamento e práticas pedagógicas,
  • Condições materiais e de tempo (tecnológicas e físicas),
  • Espaço para criatividade e autoria,
  • Espaço de escuta das dificuldades em relação ao seu trabalho com o aluno,
  • Valorização do trabalho,
  • Condições de crescimento, estudos e de trocas,
  • Parceria mais efetiva com a família tanto no cuidar como no ato de ensinar,
  • Ambiente de trocas e de solidariedade com a equipe.

Que as famílias: 

  • Conheçam e sintam confiança na proposta construtivista,
  • Participem ativamente das reuniões pedagógicas com críticas e sugestões,
  • Valorizem as aprendizagens da criança,
  • Saibam ouvir a criança e respeitar o seu modo de ver o mundo e  de aprender,
  • Interajam socialmente com as outras famílias,
  • Compreendam a importância do professor como autoridade da turma,
  • Percebam as diferenças como virtude,
  • Acompanhem e auxiliem o processo de desenvolvimento da criança sem comprometer a construção da autonomia.

Que a gestão escolar construtivista possa:

  • Cuidar de sua equipe para que desenvolva com excelência o seu trabalho,
  • Facilitar as trocas entre os profissionais,
  • Estar junto ao professor na busca de possibilidades de aprendizagens para o aluno,
  • Acolher as famílias,
  • Ter uma proposta de trabalho sólida baseada nos princípios do Construtivismo e de outros teóricos que venham a acrescentar ao trabalho,
  • Estar vigilante para que a proposta de trabalho aconteça sob os princípios do Construtivismo e de modo que seja atualizada periodicamente.

O que se vê em uma escola Construtivista, são alunos com maior apropriação daquilo que se aprende, alunos com senso crítico, com poder de refletir e de sugerir.

Tirando dúvidas sobre o Construtivismo

Existem várias opiniões acerca do Construtivismo, porém também há muita ideia distorcida. Construtivismo virou modismo e aí é onde mora o perigo.

Então, Construtivismo, ao contrário do que se pensa:

  • Não é um método, é uma linha ou corrente de pensamento que vai suscitar metodologias de intervenção por parte do profissional que quer que seu aluno realmente aprenda.
  • O aluno não constrói nada sozinho e não aprende sozinho. Ele precisa do modelo e principalmente da intervenção do adulto e dos colegas para aprender.
  • As escolhas do professor estão ligadas diretamente à BNCC e à proposta de ensino da escola. As escolhas são criteriosas e bem pensadas.
  • Há limite e organização! No construtivismo trabalha-se os regramentos e a construção do juízo moral e ético das crianças e adolescentes, discute-se com elas as atitudes sociais e inclusive a necessidade de se criar regras e o momento de alterá-las.
  • O professor planeja detalhadamente o seu fazer pedagógico centrado na ação da criança e nos resultados. Ele não espera pela prova, a avaliação é realmente contínua.
  • O aluno não faz o que quer. Ele se torna parte das decisões, ele opina, traz sugestões, o que valoriza o sujeito que aprende e o torna mais autônomo. Sendo ele parte do processo de escolhas (sob a supervisão do adulto), ele se engaja mais nos estudos.

Conclusão

A partir de Piaget e de Vygostsky, vimos que é na troca com outros sujeitos que o conhecimento e suas funções sociais são assimilados. Por isso, na perspectiva de que o sujeito se desenvolve na interação, a sala de aula pode se tornar um excelente lugar para favorecer trocas e otimizar a aquisição de conhecimento de maneira consistente.

A partir da visão da epistemologia genética de Piaget e da perspectiva sócio-interacionista de Vygotsky o ato de ensinar se transforma e dessa forma:

  • Os alunos deixam de ser passivos, passam a atuar sobre o que se aprende e a compartilhar a sua forma inteligente de pensar com os outros.
  • Os alunos se sentem mais felizes ao aprender e ao se socializar.
  • O professor passa a aprender enquanto ensina.
  • O professor passa a ter um papel de interferência relevante nos processos de aquisição do conhecimento.

E os pais? Eles dão a oportunidade de seus filhos receberem uma formação mais humanizada, densa e útil.

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