Qualquer pai fica de coração apertado quando precisa avaliar e definir uma escola para o seu filho. Afinal de contas, como escolher uma boa escola para seu filho? Esse será o lugar onde ele passará boa parte do seu dia, onde irá aprender, brincar e fazer amigos. “Será que meu filho vai se adaptar bem? Será que os professores serão bons? Será que vão dar os estímulos que ele precisa? Será? Será?”

Seja porque você está precisando escolher a primeira escola do seu filho ou porque entende que precisa fazer uma mudança, existe uma série de fatores para serem analisados.

Pode ser tentador focar só na escola que anuncia as melhores aprovações no ENEM, ou naquela que está pertinho de casa, mas a verdade é que há muito a se avaliar antes de tomar a decisão de qual a melhor escola para os nossos filhos.

Existem diversos fatores a serem considerados, alguns mais amplos e talvez até subjetivos, por vezes, outros já mais pragmáticos – como valor da mensalidade, localização e horários das aulas.

Querendo ou não, a decisão precisa ser pautada em diversos fatores importantes que, se não forem bem avaliados, podem prejudicar a rotina e o orçamento familiar ou ainda trazer comprometimentos severos caso a proposta pedagógica da escola não se alinhe aos valores familiares.

E existe também “todo o resto”. Quais são as atividades extracurriculares que a escola propõe? Tem opções interessantes de esporte? E qual a proposta de musicalização? Programação? Robótica? Como é o clima nos corredores da escola? Como a escola lida com os limites e faz intervenções disciplinares?

Tenha em mente que a escolha da escola precisa fazer sentido para a criança e para a família. A melhor escola para vocês pode não ser a melhor escola para os seus vizinhos. Mas aqui vai uma lista compreensiva de fatores para levar em consideração.

1. Projeto Pedagógico

Toda escola tem um documento formal e relativamente técnico e academicista chamado Projeto Político Pedagógico. Neste documento estão descritos os princípios pedagógicos da escola, os objetivos a serem alcançados, as propostas de ações e atividades, e as metodologias de ensino.

Normalmente é um documento bem extenso – que pode facilmente bater em 300 páginas – e, embora os pais possam solicitar acesso, sejamos francos, não é a forma mais eficiente de entender de fato a proposta pedagógica da escola.

Hoje em dia, olhar o site da instituição, acompanhá-la nas redes sociais, conversar francamente com coordenadores ou professores, visitar a escola durante as aulas e buscar informações com outros pais ou, até mesmo com alunos, são as melhores formas de descobrir mais sobre a proposta e prática pedagógica da escola.

A pergunta central aqui é: Qual é a proposta?

Afinal de contas, é uma educação mais tradicional e rigorosa – alunos enfileirados cobrados em termos de atenção, respeito e entrega das atividades? Ou é uma educação mais construtivista e humanizada – alunos encorajados a participar e centrados em grupos trabalhando em projetos paralelos?

Sendo assim, pergunte sobre:

  • Como funcionam os métodos de avaliação; 
  • Como é a dinâmica da sala de aula;
  • Qual o material didático utilizado (e o motivo da escolha);
  • Qual a política de incentivo à leitura;
  • Quais os grandes projetos que os alunos encontrarão anualmente (feiras culturais ou de ciências);
  • Se há passeios a outras saídas para além dos muros da escola;
  • Como são celebradas as datas comerciais;

Aqui é preciso ressaltar de novo: O que será interessante para você, não será necessariamente interessante para outros pais. Mas com essas informações, você será capaz de pensar se acha que esta proposta é a mais coerente para a sua família.

2. Coerência entre discurso e prática

Visitar a escola durante as aulas e conversar com outros pais é interessante para avaliar uma coisa: Coerência.

Puxando de minha experiência pessoal, já presenciei escolas laicas em que os alunos eram “convidados” a participar de cerimônias religiosas – Isso sem falar de expressões e símbolos religiosos que brotam pelas paredes.

Da mesma forma, algumas escolas que dizem seguir uma metodologia construtivista mas cujos alunos nunca “botam a mão na massa” para construir/pesquisar/discutir/projetar alguma coisa.

Ou ainda, escolas que têm disciplina de Artes em sua grade curricular, mas o ensino das artes se inicia pela definição do que é ponto, o que é reta e como se deve utilizar o compasso.

É muito fácil manter um discurso que pode estar na moda ou sendo valorizado, mas colocar em prática este discurso não é nada fácil e a melhor forma de descobrir se a apresentação da escola realmente reflete a sua proposta é a partir da experiência em primeira pessoa.

É muito recomendável ver a escola em funcionamento com os próprios olhos. As crianças sorriem pelos corredores? Elas têm espaços para brincar? Como é a atmosfera na sala de aula, é descontraída ou rígida? Como os adultos da escola (professores, coordenação, portaria, limpeza) falam com as crianças?

Caso já esteja em período de férias, busque a experiência de outras pessoas. Conhece alguma família da escola? Converse sobre a experiência dela. Se não, pergunte se a escola pode disponibilizar o contato de algum pai para que você possa conversar, ou utilize os recursos que a grande rede da internet nos oferece para tal.

3. Ambiente de Socialização

Se você busca a primeira escola para o seu filho, ela vai ter uma grande importância para o processo de socialização primária dele.

Este processo de socialização acontece na primeira infância, e é pelo qual a criança interioriza a linguagem, as regras básicas da sociedade, a moral e os modelos de comportamento do grupo. Este processo é fundamental na formação do caráter individual e deixa marcas profundas para o resto da vida.

Se antigamente este processo acontecia dentro de casa ou da família mais próxima, hoje, em que as crianças começam a frequentar escolas com 1 ano e meio, ou até antes, a escola assume um processo fundamental.

Para crianças mais velhas, a preocupação passa a ser acerca das características do universo de interações sociais que o cercam. Ambientes podem tanto proporcionar um excelente espaço para o seu desenvolvimento quanto aumentar suas ansiedades e frustrações sociais, dependendo muito de cada aluno e das características da escola.

Desta forma, é preciso estar atento se no ambiente escolar são observados:

  • Respeito: que professores, alunos e equipe sejam respeitosos e educados uns com os outros. Que haja uma proposta para evitar e trabalhar com o bullying. Que exista real acolhimento à fala dos alunos;
  • Igualdade: espaço em que as diferenças sejam abraçadas, que esteja aberto à diversidade de ideias, de culturas e de cores;
  • Companheirismo: que não haja um ambiente de rivalidade tóxica, que a competitividade seja estimulada de forma positiva e sem sobrepor à cooperação e clima amistoso entre os alunos e equipe;
  • Bom humor: é possível perceber alegria nos alunos? Eles estão motivados e interessados nos seus afazeres? E os professores?
  • Ética e moral: que valores morais e éticos estejam sendo transmitido com as atividades e mesmo com as sanções e que o exemplo seja passado por professores e pela equipe da escola.

4. Disponibilidade de Atendimento

Um elemento que poucas vezes passa pela cabeça da família é a disponibilidade dos profissionais da escola para receber os pais e conversar sobre seus filhos durante o ano.

Essencialmente, a questão é: Existe espaço para marcar uma reunião com professores, coordenadores, direção, psicólogos ou mesmo como o administrativo da escola?

Uma baixa disponibilidade é algo mais perceptível em escolas maiores, com muitos estudantes, em que coordenadores e professores têm dificuldade em acompanhar o desenvolvimento de todos os alunos em suas singularidades. Inclusive, isto pode levar a reuniões pouco produtivas, em que os profissionais da escola não possuam um acompanhamento pleno da criança para discutir com os pais de forma mais precisa.

Aqui, novamente, a experiência de outras famílias é uma fonte valiosa de informação.

5. Atividades Artísticas e Esportivas

A primeira imagem que surge na mente ao pensarmos a escola é o aspecto acadêmico e de aprendizagem. No entanto, a escola também pode ser pensada em termos das diversas habilidades corporais e culturais que pode ajudar a desenvolver.

Podemos pensar tanto nas atividades inerentes ao currículo quanto naquelas disponibilizadas no contra-turno apenas a para alunos e famílias interessados.

Nas atividades que compõem o currículo, preste atenção na estrutura física para prática de esportes – Quadra poliesportiva, campo, piscina, obstáculos – e, principalmente, no que é feito neste espaço. Como são as aulas de educação física? Quais os objetivos pedagógicos?

Educação física deve estimular as habilidades do corpo com atividades e esportes diversos e não ser apenasfutebol para meninos e handebol para meninas”.

Para os menores deve se confundir com as brincadeiras e para os maiores deve refletir maior cuidado com a saúde e com o corpo. Acima de tudo, a atividade deve ser prazerosa, desafiadora e com elementos de ludicidade.

Quanto ao estímulo às artes no currículo, vários elementos devem ser considerados:

  • Escrita literária – como é feito o estímulo à imaginação, criação de histórias e escritas? 
  • Artes plásticas – como são trabalhadas as artes na escola? Na educação infantil, existe um planejamento por trás das pinturas feitas pelas crianças? Como os alunos têm contato com as artes? Existe um estímulo à pintura, desenho, criação, escultura durante todos os anos escolares, ou as artes só aparecerão nos primeiros anos do Ensino Fundamental?
  • Música e dança – existem aulas de musicalização? Há envolvimento de música e dança ou elementos musicais nas atividades dos alunos? 
  • Teatro – o teatro auxilia no desenvolvimento de habilidades de expressão em público, além de conferir mais segurança para as crianças e os jovens. Aulas de teatro envolvem exercícios que  ajudam na saúde da mente e do corpo, entre outras vantagens. Como entra o teatro na escola? Ele tem relevância dentro do currículo ou é apenas um apêndice – o teatrinho do final de ano ou a apresentaçãozinha que se faz na páscoa?

Uma forma de avaliar isso é olhando as paredes da escola durante uma visita inicial. É possível ver as criações dos alunos expostas pelos corredores ou nas salas de aula? Murais de trabalhos? Se parecer que você está caminhando por um hospital, desconfie. Se os trabalhos tiverem cara de que foram feitos apenas por adultos, também é de se estranhar.

Atividades extracurriculares podem ser encontradas fora da escola, mas concentrar estas atividades no mesmo local de ensino pode facilitar a vida dos pais, proporcionando um ambiente familiar e seguro, profissionais conhecidos, localização conveniente ou mesmo valores diferenciados.

Assim, pode ser interessante analisar quais atividades esportivas e culturais extras são proporcionadas no ambiente escolar.

Não subestime a importância das atividades físicas e artísticas para o desenvolvimento integral das crianças e adolescentes. Diversos estudos comprovam que a prática destas atividades estimulam o desenvolvimento cerebral e a socialização, além de melhorar o foco nos estudos.

6. Ambiente Tecnológico

Bom, conforme discutimos em texto anterior sobre Educação 3.0, computadores, telas e smart gadgets espalhados por todos os lugares não são garantias de uma educação contemporânea em termos de cocriação, compartilhamento e desenvolvimento de ideias.

No entanto, proporcionar aos alunos contato com estes elementos tecnológicos é o caminho para uma educação mais dinâmica e participativa. Assim, preste atenção nos elementos tecnológicos presentes na escola e, principalmente, como eles são utilizados.

Hoje a maior parte das escolas possui laboratórios de informática, mas a grande questão é: Como é feito este aprendizado? São atividades mais estruturadas (aponte e clique) ou os alunos podem explorar e descobrir coisas? Lembre-se que hoje a maior parte das crianças é instintivamente treinada por televisores, celulares e tablets nas operações mais básicas junto aos aparelhos tecnológicos.

Assim, descubra se existe algum programa voltado para programação ou robótica; como esse projeto conversa com os assuntos de sala de aula; quão presente está a internet no processo de pesquisa e descoberta dentro e fora de sala de aula; e se os alunos são estimulados a desenvolver projetos usando computador ou o próprio celular.

7. Valores

Se você estiver buscando uma escola particular, avalie o preço da anuidade escolar e como essa anuidade pode ser paga – apesar da maioria das escolas trabalhar com 12 parcelas de mensalidade, há algumas escolas que trabalham diferente, com 13 parcelas, por exemplo.

Verifique, de repente, se existe algum desconto para pagamentos antecipados, seja para pagamentos na data de vencimento ou para pagamentos de anuidade ou semestralidade escolar.

Antes de bater o martelo, pergunte valores de outras taxas – matrícula, material, livros, apostilas, eventos, passeios, fardamento escolar. Tenha noção dos custos extras.

É importante que se coloque na ponta do lápis e se avalie se estes valores caberão no orçamento familiar.

8. Horários

Avalie se a dinâmica familiar permitirá que a criança consiga chegar no horário de início da aula e se há como buscá-la respeitando os horários de final da aula.

Caso você só tenha como buscar mais tarde, existem opções para estender a permanência da criança na escola? Atividades de esporte e/ou música após a aula? Opção de almoço com acompanhamento? Período Integral?

Portanto, avalie se o horário da escola pode ser organizado junto aos seus horários para que as rotinas – sua e do seu filho – não sejam comprometidas.

9. Localização

Mesmo que a localização não possa ser isoladamente um item determinante na decisão da escola, é importante considerar este aspecto; afinal, você precisará incluir este trajeto no seu roteiro pelo menos duas vezes por dia!

Avalie quem irá levar e buscar a criança. Se for você, o quanto que isso te tira de sua rota normal? Caso não tenha como fazer este trajeto diariamente, existe transporte escolar que faça essa rota? Existem outras famílias que moram perto para se pensar em esquemas de carona?

Enfim, leve em consideração a localização da escola em relação à dinâmica familiar diária antes de tomar uma decisão.

Às vezes a escola “perfeita” deixa de ser tão perfeita se você tiver que ficar uma hora no trânsito para cada trajeto que tiver que fazer a ela.

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Poderíamos continuar listando aqui diversos aspectos relevantes para a escolha da escola ideal, afinal, são muitos elementos a se avaliar e, como já foi dito, o que uma família considera primordial às vezes não é tão importante para outra.

E você, o que acha que deve ser analisado na hora de escolher uma escola para o seu filho? Compartilhe a sua experiência e comente o que considera crucial no momento desta decisão.