Alguém aqui já ouviu o provérbio: “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não sabe da arte.”?

Pois é disso que vamos falar por aqui hoje!

Repartir, emprestar, compartilhar… 

É comum que nos primeiros anos da infância haja uma resistência a estas práticas. Afinal, dividir não é um hábito instintivo, natural, mas sim, um hábito social a ser aprendido.

E o melhor momento para a assimilação de valores importantes como estes é ainda na infância. Quando bem compreendidos, os ensinamentos serão levados para sempre.

“Pra variar”, a responsabilidade desta missão recai principalmente aos pais e pode ser compartilhada em parceria com a escola. Visto que é um ambiente de socialização onde as crianças passam uma parcela considerável do dia.

A forma, método e aplicação podem até ter pontos diferentes para cada criança, afinal, não há receita de bolo, né?! Mas uma questão é absoluta: como habilidade a ser apreendida, o ato de compartilhar deve ser estimulado e não imposto.

A sincera absorção deste valor demonstra quanto o repartir se torna uma atitude natural e espontânea, e não feita por obrigação.

Para este resultado, é indispensável investir no diálogo em conjunto com a paciência. Como também, na exposição clara das razões para o compartilhar e seus benefícios.

Com semelhante intenção, esta conversa deve ter formatos diferentes conforme a idade da criança. Para as menores, com menos de 5 anos, é necessário ter direcionamentos claros do repartir, compartilhar, e muitos exemplos práticos à vista delas.

Já crianças maiores (mais de 5 anos de idade) costumam conseguir absorver explanações mais detalhadas e um aprofundamento dos motivos para a prática. Dessa forma, dando razões para que, conscientemente, escolham o compartilhar.

Qual a importância de compartilhar da infância?

O cuidado com a criança vai além dos aspectos de mantê-la alimentada e higienizada. Aos pais também cabe a missão de educá-las com bons valores e princípios que facilitem o convívio em sociedade e, consequentemente, o seu bem estar e o dos próximos.

O termo empatia tem recebido bastante destaque recentemente e a sua valorização é de extrema importância. Afinal, conseguir se imaginar na situação do outro é algo sensível, nobre e que não se aprende da noite para o dia. Formar valores como este na criança é também colaborar com um mundo melhor para as próximas gerações.

Algumas das formas em que o assunto pode ser introduzido  sobre a importância do dividir é:

1 – Dê o exemplo

“Ser exemplo” é uma das frases mais repetidas aqui neste blog. Afinal, quando falamos de educação de crianças, falamos de pessoas em formação de entendimento, de hábitos, e sempre ligadas nas práticas dos adultos que as rodeiam como referências do fazer.

Por isso, praticar o que se quer ensinar, além de ético, é a principal ferramenta para instrução. Assim, o adulto deve deixar transparecer às crianças o quão relevante é ter essa troca de se dispor ao outro e que isto faz parte da vida.

2 – Combine antecipadamente

Além de entender as razões, as crianças podem incorporar o hábito do compartilhar pela prática. E esta prática pode ser estimulada e combinada para que a criança experiencie o ato de repartir e, consequentemente, vá gradualmente perdendo o receio.

É importante lembrar que a criança pequena ainda não compreende bem sobre o emprestar (dar e receber de volta) e pode considerar que ao dar algo ao seu colega não o terá mais de volta.

Então, sempre que possível, antes de momentos em que a criança estará com outras, avise-a que ela pode emprestar um brinquedo e logo depois ele será devolvido. Ou no caso de um alimento, que não tem problema em dividir com o amigo, pois tem o suficiente para todos.

Podem ser ditas frases como: “Empreste um pouco e já já ele te devolve”; “você brinca com o brinquedo dele e ele com o seu”; “você brinca mais uns minutos e depois empresta” Recorde sempre à criança dos acordos e cumpra-os.

3 – Faça brincadeiras lúdicas

Um dos principais recursos na educação das crianças é a utilização de brincadeiras. Por meio da diversão, elas vão assimilando ensinamentos e vivenciando boas práticas.

Uma boa ideia é juntar a garotada para o ‘dia do brinquedo’, quando cada um deverá levar um brinquedo que será trocado com o colega para brincarem juntos.

Nesse momento, outros combinados podem ser feitos, como o cuidado necessário com o que não é nosso.

Atividades de arte coletiva, com a pintura em uma mesma superfície com o mesmo material para todos também são uma opção.

E, para a hora do lanche, que tal uma grande bacia de pipoca onde todos comem juntos?

Lembrando que o compartilhar em tempos de pandemia por coronavírus requer cuidados adicionais e, nessas horas, a bacia de pipoca precisará assumir outras formas, com porções individuais onde o compartilhar passa a ser do momento comum.

4 – Conte histórias sobre compartilhar

A conscientização sobre o compartilhamento também pode ocorrer através de histórias infantis. Retomamos neste ponto a questão dos exemplos. A criança pode se espelhar nos personagens e narrativas e lembrar deles nos momentos em que for requisitada a repartir.

Algumas das obras que podem ser utilizadas nesse propósito são:

“Isso é meu”, de Blandina Franco e José Carlos Lollo

“Será que eu divido meu sorvete?”, de Mo Willems

“É minha vez!”, de David Bedford e Elaine Field.

5 – Doe de tempos em tempos

Estabeleça momentos para organizar o armário e separar para doação as roupas, livros e brinquedos antigos e/ou sem uso. Envolva a criança nesse processo, desde a triagem/ seleção até a entrega dos donativos.

Uma outra opção é ir com a criança a uma loja de brinquedos para escolher alguns brinquedos para doar a alguma ong ou instituição de caridade. Isso pode ser feito em alguma data comemorativa comercial ou em qualquer outro momento do ano.

O que não fazer?

Tão importante quanto saber o que fazer, é saber o que não fazer!

Muitas vezes, na tentativa de ensinar bons valores às crianças, acaba ocorrendo uma pressão maior do que o necessário sobre o tema e algo que deveria ocorrer de maneira fluida e orgânica assume certo peso.

Primeiro é preciso ter paciência e empatia. Paciência em entender que o repartir é um aprendizado e que cada criança, de acordo com seu desenvolvimento, terá um ritmo para ir entendendo e internalizando esse processo de dividir.

Na primeira infância as crianças estão na fase inicial do neurodesenvolvimento. Dessa forma, o cérebro delas não incorporou ainda a compreensão de questões como empatia e habilidades sociais.

Também é preciso entender que às vezes aquele brinquedo é novo e a criança quer curti-lo ao máximo. Ou, ainda, ao observar que o outro colega não está dividindo os brinquedos dele, pode haver uma recusa como reação a este comportamento do outro.

Em todas as situações, nunca, jamais, de forma alguma, castigue a criança por não repartir, ou fale para ela que está sendo egoísta. O aprendizado é um processo e cada um tem seu tempo. O processo de aprendizado não pode ser encarado como “maldade”.

Obrigar a criança a dividir um objeto, ou alimento, ou brigar com ela quando recusa pode inibir que tenha um aprendizado muito maior: de que a ação de compartilhar é uma forma de externar valores como solidariedade, generosidade, liberalidade.

Ensinar a compartilhar não é uma missão fácil, mas é muito importante para o desenvolvimento social da criança.

Que tal pôr em prática essas dicas? Conta pra gente se deu certo!