–        “Mãe, não tem nada para fazer!”

–        “Filho, tem seus brinquedos, joguinhos, tem até aquele novo que mamãe comprou”

–        “Mas eu já brinquei com todos, não tem mais graça. O que faço agora?”

Se você tem filhos pequenos e está vivenciando o isolamento imposto devido à pandemia, provavelmente se identificou com este diálogo, não é mesmo?!

A necessidade do distanciamento social trouxe muitos desafios sociais e educacionais às famílias. Com a mudança na rotina das crianças – suspensão das aulas presenciais, substituídas pelas atividades online, elas passaram a ter mais tempo livre e dentro de casa.

Todas essas alterações também reforçaram uma sensação (talvez nova para muitas crianças) que agora está cada mais presente em nossas casas: o chamado tédio.

Tanto adultos quanto crianças concordam que o tédio não é tão agradável, que provoca um certo incômodo.

É como o sentimento de medo e raiva: ninguém gosta de sentir, mas é inevitável em vários momentos da vida. E, todos estes, são também fundamentais para o desenvolvimento saudável do ser humano. Então, a saída é entender o que estamos sentindo a aprender a lidar com isso.

Os tempos modernos e a própria cultura do imediatismo nos deixam com agendas sempre tão cheias (as nossas e as das nossas crianças), ocupadas com as atividades escolares, com o curso de inglês, as atividades de esporte, o Kumon etc, que ter tempo livre é estranho e incomoda.

Mas ficar entediado tem suas vantagens – é uma daquelas pequenas irritações cotidianas essenciais para a nossa saúde mental inclusive.

Pode soar estranho, mas ter um momento para “não fazer nada” é vital para que as crianças conquistem habilidades. Lidar com o tédio é uma delas.

Quem aí nunca ouviu falar no tal ócio criativo?

Como lidar com o sentimento de tédio?

Vocês devem lembrar que o Biquini Cavadão já cantava sobre isso nos idos dos anos 80…

O tédio geralmente aparece quando não temos estímulos, não conseguimos encontrar uma ocupação que nos motive. Ou quando estamos realizando uma tarefa enfadonha e repetitiva.

Nesses dois cenários, o primeiro ponto que precisamos observar é que o tédio é compreendido como um sentimento. Sim, devemos olhar para ele como olhamos para a alegria, tristeza, raiva, frustração.

São sensações naturais da vida e o melhor momento para aprender a lidar com elas é na infância.

Nós, adultos, podemos atuar como mediadores na administração desse sentimento junto à criança.

Como?

Oferecendo condições para que possam compreender esta emoção e extrair o melhor dela.

Para isso, é indicado deixar bem claro que o tédio é importante (e inevitável) na vida de qualquer pessoa e em qualquer idade.

Não faz mal que nossas crianças se sintam entediadas de vez em quando, principalmente nos tempos atuais em que a cultura imediatista é tão estimulada: do tudo e agora ao mesmo tempo, que não nos permite mais esperar.

Especialistas defendem que um tempo dedicado ao ócio pode impulsionar a criatividade e permitir novos vínculos e novas habilidades.

É nesses momentos “de nada” que as crianças têm a oportunidade de maturar o passar do tempo, desacelerar e ouvir o próprio ritmo.

A partir do tédio, conseguimos desenvolver algumas habilidades, como:

  •     o pensamento criativo;
  •     a capacidade da proatividade;
  •     a inteligência emocional, pois é possível se tornar mais tolerante para lidar com alguns sentimentos considerados negativos, como a frustração e a angústia.

Curioso isso, né? A jornalista e escritora do livro “Bored and Brilliant: How Spacing Out Can Unlock Your Most Productive and Creative Self”, Manoush Zomorodi, fala um pouco mais sobre isso aqui neste Ted Talk:

E quanta coisa legal pode nascer do tédio…

Já parou para observar a diferença do processo criativo entre os jogos eletrônicos e as brincadeiras tradicionais?

Os jogos eletrônicos estão ali, prontos para serem devorados, com tudo definido previamente por um programador. Têm até tutoriais ensinando todos o passo a passo. Tudo ocorre de forma mecânica e condicionada.

Bem diferente das brincadeiras livres, em que o espaço precisa ser pensado, as regras e instrumentos muitas vezes adaptados e criados!

Na falta de uma bola, se improvisa com os materiais que se têm à mão: páginas de um caderno, meias, ou latinha amassada. O que importa é conseguir jogar futebol com os amigos. Ou até mesmo uma brincadeira ali inventada, por que não?!

São muitos os exemplos de como algo novo e divertido pode aparecer do aparente “nada para fazer”. Boas ideias podem surgir daí. Ou não. E está tudo bem.

E quando o tédio não faz bem?

Como um sentimento, o tédio pode se manifestar de diferentes maneiras e em níveis de intensidade diversos. Em alto nível, pode levar à paralisação das ações, gerando uma total falta de motivação para diversas áreas da vida.

É válido destacar que esse período de isolamento social é uma fase totalmente atípica, já que são muitos dias de confinamento sem perspectivas reais de encerramento.

E para os adultos é sim um distanciamento ou isolamento, para as crianças muitas vezes é de fato um confinamento, pois nem ao supermercado elas precisam (ou devem) ir.

Isso sem mencionar todo o entorno que envolve medo e tensão em relação ao contágio e responsabilidade com os seus entes queridos.

Por isso, é importante atentarmos aos comportamento das crianças e jovens e não deixarmos que eles fiquem entediados o tempo todo. Esse quadro pode se agravar e progredir para uma situação mais crítica de apatia.

Pesquisas comprovam que o tédio extremo pode levar a hábitos prejudiciais à saúde. Segundo um estudo da Universidade de Montreal, no Canadá, indivíduos que ficam facilmente entediados, frustrados ou impacientes estão mais inclinados, por exemplo, a desenvolver comportamentos direcionados ao próprio corpo.

Como saber se o tédio está prejudicando o seu filho?

Diante de um contexto atípico, em que todos precisaram se adaptar, é importante observar o comportamento da criança e respeitar o tempo dela.

Primeiro, é necessário analisar se há mudança de comportamento, como agitação incomum ou extrema quietude. Ou ainda sinais físicos, como, por exemplo, constantes dores de cabeça, reclamações de dores no estômago, insônia ou excesso de sono, tensão muscular, mãos suadas etc.

O que fazer nesses casos? Acima de tudo, mantenha o diálogo com seus filhos. Converse com eles para saber o que estão sentido. Se em uma boa conversa não conseguirem chegar a uma solução, avalie a busca por um especialista para orientar melhor a família.

Como driblar o tédio durante o isolamento social?

De fato, o tédio em excesso é um demonstrativo de que algo está errado – e pode dar aquele incentivo para você levantar e sacudir a poeira. Um dos mecanismos para melhor lidar com ele é manter uma rotina estabelecida em casa.

Além de organizar as tarefas do dia, a rotina favorece um ritmo e tempo para cada atividade e ainda dá a sensação de segurança às crianças, por saberem o que vai acontecer ao longo do dia.

Mas veja só: estabelecer uma rotina intensa de exercícios não será eficiente para estimular a prática, por isso é importante dar exemplo. É bom que toda a família tenha uma rotina combinada previamente. E, principalmente, que os pais incluam na programação um tempo dedicado aos filhos.

No tempo “do nada” das crianças, o ideal é que os pais interfiram o mínimo possível, dando à criança a oportunidade de encontrar mecanismos para se auto-entreter. Quer seja desenhando, lendo, brincando, inventando uma nova brincadeira ou simplesmente aprendendo a ficar numa boa em sua própria companhia, sem sentir angústia por não estar ocupada.

Pote do Tédio

Se houver dificuldade para iniciar uma atividade em um tempo de ócio, uma boa sugestão é criar o chamado “pote do tédio” ou “caixinha do tédio”, dependendo do material que será utilizado.

A brincadeira consiste em pegar um pote ou caixinha e preencher com uma série de atividades que as crianças gostam de fazer. As atividades podem ser escritas em palitos de picolé, ou em papéis mesmo.

O ideal é que as opções sejam escritas junto com as crianças, com elas dando as ideias. Podem ser ações como cozinhar, dançar, jogar, brincar de massinha, colorir, pular corda, jogos de tabuleiros, entre outros. (Sugestão: coloque algumas opções como “invente uma história”, ou “crie uma nova brincadeira”).

Quando chegar o momento do “não tem nada para fazer”, é só buscar o material e sortear uma tarefa e se divertir à vontade!

Algumas das vantagens deste jogo é auxiliar os filhos na dificuldade de iniciação, que é biológica, e ainda instrumentaliza as crianças a lidar com o tédio no isolamento social.

Gostou das reflexões sobre os benefícios e adversidades sobre o tédio infantil no isolamento social? Então divida este novo conhecimento compartilhando o artigo com outras pessoas.