Lembro muito bem quando comprei o meu primeiro celular. Tinha 18 anos de idade, havia recebido a minha carteira de habilitação e, serelepe, me preparava para sair de casa dirigindo o carro da família. Minha mãe me desejou parabéns pela conquista e complementou: “agora pode ir comprar um celular, porque não vai sumir com o carro quando os outros da casa podem precisar!”

O celular daquela época (2003), era apenas um aparelho que efetuava ligações, enviava mensagens, nos dava a hora e a possibilidade de inserir um alarme. Revolucionário ao seu tempo, mas nem se compara aos atuais celular smartphones.

Atualmente, bem diferente da realidade que vivi, os adolescentes e/ou crianças têm acesso a smartphones cada vez mais cedo e, aí, surge a questão:

Levar ou não levar o celular para a escola?

Esta é uma dúvida de muitos pais que já disponibilizam o aparelho eletrônico para os filhos desde a infância.

De fato, os smartphones são uma ferramenta indispensável para a comunicação, mas os especialistas alertam: seu uso na sala de aula – como em casa também – deve ser controlado e orientado por adultos. Isso para que haja um melhor aproveitamento de seus benefícios.

Se a dúvida em casa, para os pais, é quanto tempo permitir o desfrute do aparelho e qual conteúdo podem acessar, nas escolas o desafio é utilizar o celular como aliado da aprendizagem e, principalmente, evitar que distraia a atenção durante as atividades.

De acordo com a pesquisa sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nas Escolas Brasileiras (TIC Educação), mais de 90% das escolas do país proíbem o uso de celular na sala de aula.

Em contraponto, segundo pesquisa mais recente da TIC Kids Online Brasil, cerca de 86% das crianças e adolescentes, com idade entre 9 e 17 anos, são usuárias de internet no Brasil, o que corresponde a cerca de 24,3 milhões. E, para 93% delas, a internet é mais usada por meio de telefone. Inclusive na escola.

Uso de celular em sala de aula: vantagens e desvantagens

Se para nós é um encanto poder pesquisar tudo o que queremos em segundos, para as criança e adolescentes isso é simplesmente corriqueiro.

Ah… essa geração que nunca precisou recorrer a uma enciclopédia para pesquisar algo.

Seja pelas pesquisas ou pela experiência empírica, a tecnologia e a conexão com a internet são mais fáceis para as crianças e adolescentes. Eles já nasceram imersos nesse universo e não precisam da adaptação para uma realidade diferente.

Com apenas um clique, pode-se ter acesso às informações de qualquer parte do mundo e isso pode enriquecer muito a aula. No entanto, o uso aleatório do aparelho em sala atrapalha a concentração e o andamento da aula, principalmente quando não atrelado ao planejamento do professor.

Além da dispersão, o aparelho pode até provocar o isolamento social. Por conta dos jogos virtuais, por exemplo, os adolescentes perdem a socialização física, se isolam à medida em que ficam conectados somente aos aparelhos.

Junto a isso, a maior parte destes jogos celebra vitórias individuais, desvalorizando assim a cooperação e a construção coletiva.

Neste contexto, entre mocinho e vilão, o desafio maior da escola hoje é utilizar o celular como aliado. Mas isto não é tão fácil.

Na verdade, seria muito mais fácil proibir, mas o melhor caminho é acreditar no processo de construção. Com ele, os alunos e os profissionais da educação vão adquirindo maturidade e aperfeiçoamentos metodológicos que incluem as tecnologias às práticas de ensino.

Além disso, a Base Nacional Comum Curricular prevê o uso da tecnologia na escola, visto que a sociedade está imersa no meio digital. Sendo assim, é notória a importância de se explorar esse recurso em favor da formação do aluno e da sua interação com o mundo.

Como exemplos/sugestões de boas experiências com o celular em salas de aula, podemos citar o uso do aparelho como fonte de pesquisa. Uma palavra, expressão, ou até dado histórico podem ser encontrados em sites de busca – indicados pelo professor, ou até um aplicativo pode fornecer um material de estudo para os alunos conectados.

Como controlar o uso do celular na sala de aula?

O mais aconselhável é que os alunos até o 5º ano, que têm até 10 anos de idade, não levem os aparelhos para as instituições de ensino. A orientação é devido à pouca maturidade para controle do uso e pela necessidade de vivenciar mais o mundo real.

Já os estudantes do Ensino Fundamental II ao Ensino Médio, que possuem de 11 até 17 anos, em média, podem ter o uso regrado.

Uma ótima opção – acreditando no processo de construção, como mencionei anteriormente, é o diálogo e a formulação de regras em conjunto com os alunos, a partir do entendimento das vantagens e desvantagens do uso do aparelho.

Dessa forma, uma ideia é levar o tema do uso do celular na escola para uma roda de conversa ou Assembleia com a presença dos estudantes, professores e demais membros da equipe pedagógica da escola.

Como isso pode acontecer? Estudantes e professores podem conversar sobre qual o limite do uso do celular, até onde ajuda em sala de aula e quando atrapalha. Após esse diálogo, os próprios alunos estarão aptos a formular as regras. Claro, sempre com a mediação e acompanhamento dos professores.

Algumas sugestões de controle que podem ser estabelecidas:

  • Só pode usar o celular em sala com a solicitação do professor;
  • Caso o professor não solicite, o aparelho deve ficar guardado;
  • O uso no intervalo é liberado dois dias na semana;
  • Quando usado em sala, só podem acessar os sites direcionados pelos professores;
  • Não é permitido tirar fotos ou gravar vídeos de alunos ou professores em sala sem a devida permissão.
  • Caso algumas das regras sejam quebradas, o estudante, ou toda a turma (dependendo do caso) perde o direito ao uso, até haver nova discussão e acertos.

Contudo, não quer dizer que ao abrir para o diálogo e deixá-los à vontade para estabelecer as regras tudo será ‘as mil maravilhas’. Isso não acontece de imediato e pode ser difícil para alguns alunos, ávidos em usar o celular, cumprirem o combinado. A tentativa de romper com algumas regras e testar limites  é inerente aos jovens e faz parte do processo de maturidade.

Participação da família na regulação prática

Quando a criança e o adolescente já têm limites para a utilização do celular estabelecidos em casa, o ambiente escolar se torna uma extensão desta educação.

Não adianta acreditar que as regras nascerão na escola. A maior parte do tempo as crianças e adolescentes passam em casa, e as regras e hábitos transmitidos pelos pais e responsáveis de casa, especialmente pelo exemplo, serão vivenciados em todo e qualquer ambiente em que a criança estiver.

Portanto, é fundamental que família e escola firmem acordos e parcerias, pois a escola sozinha não dá conta. Os responsáveis pela criança e adolescente não podem se eximir dessa responsabilidade de educar, de preparar para a vida adulta, o que deve ser feito em acordo e alinhamento com a escola.

Algumas das orientações aos pais para estimular hábitos saudáveis em relação ao uso do celular:

  • Estabelecer limites claros e fazê-los acontecer;
  • Estabelecer o diálogo como meio de entendimento para reforçar as regras;
  • Estabelecer uma rotina conjunta para as atividades diárias com ou sem o uso do celular;
  • Saber o que o adolescente acessa também é importante.

Conjuntamente, é fundamental os pais conversarem com os filhos sobre o que deve ser prioridade seja para os estudos ou, até mesmo, para a vida deles hoje, sempre ponderando o equilíbrio entre estar online, se dedicar aos estudos e manter o convívio real com os amigos.

Esta temática de tecnologia, redes sociais e a educação vai longe e tem muitos debates e discussões a fim de se esclarecer seus benefícios, limites e como os pais e educadores devem lidar com cada situação. Aqui no blog falamos também sobre o uso do Youtube, inclusive com algumas dicas para gestão do uso. Confere aqui