O nascimento de uma criança modifica totalmente uma família: desde a rotina, prioridades, até mesmo comportamentos. É de fato um grande acontecimento! Tanto que, desde a notícia da gestação, canaliza-se uma enorme energia e empenho na busca por informações para proporcionar o melhor desenvolvimento possível aos filhos.

Nessa procura, uma das descobertas é que o brincar é uma das atividades mais prazerosas e de maior aprendizado para os pequenos.

Entendido isso, se começa a busca por brinquedos com estimulação sensorial, facilitadores dos processos cognitivos e tudo o mais que se é possível encontrar na internet, nos bate papos offline e/ou nos grupos de pais do Facebook.

As crianças vão crescendo e a busca passa a ser preencher todo o dia delas com atividades, certos de que isso é melhor para o seu desenvolvimento.

É comum se acreditar que a criança precisa ser estimulada o tempo todo, seja com uma agenda repleta de atividades (inglês, natação, robótica, ballet…), seja em seu tempo em casa (brincadeiras estruturadas, dever de casa, hora da história…).

A rotina é super importante, assim como brincar com os filhos e estimulá-los à socialização com irmãos e/ou amigos.

No entanto, muitas vezes esquecem de nos contar que brincar sozinho também é muito saudável e importante.

Para os adultos, é inclusive uma solução ter uma criança que consegue se entreter com seus brinquedos por alguns momentos, enquanto se cuida de outras demandas, para as crianças, pode ser uma curtição estar sozinha, criando as suas brincadeiras e apreciando a sua própria companhia.

“Brincar sozinho” não é deixar a criança de lado

O brincar sozinho tem muitos benefícios. É essencial para estimular a confiança, a autoestima, a independência e a criatividade dos pequenos desde cedo.

Cabe reforçar que esse “estar sozinho” não é deixar os filhos de lado para que simplesmente “se virem”. Nem deve significar uma fuga ou receio de se relacionar com outras pessoas e crianças, mas sim, a satisfação de conseguir se divertir de maneira autônoma.

Quer dizer que ele pode estar bem consigo e aproveitar esse momentos para promover novas habilidades socioemocionais a partir dessa experiência, como criatividade e autossuficiência.

E sabe o que pode acontecer de mais interessante? Ao observar as suas brincadeiras podemos conhecer melhor as crianças. Pois, sozinhas, elas se sentem mais à vontade para expor seus sentimentos e pensamentos próprios.

Os benefícios de brincar sozinho

Sozinhas, as crianças podem descobrir o valor da própria companhia, colocar em prática o faz de conta, criar histórias e inventar novas brincadeiras. Estes são só alguns dos benefícios de se divertir sozinho.

Confira abaixo alguns dos principais motivos para incentivar o seu filho a brincar sozinho:

1 – Autoconhecimento e descoberta

A criança se descobre, reconhece quem é enquanto indivíduo, vai interagindo com a brincadeira e com os brinquedos e expressando sentimentos de forma espontânea.

2 – Autoestima

Conforme a criança vai se conhecendo, vai aprendendo a gostar mais de si mesma.

3 – Imaginação e criatividade

As crianças são super criativas, mas quando os adultos participam das brincadeiras, naturalmente vão interferindo e guiando as atividades e, sem intenção, retiram o protagonismo das crianças. Sozinhas, elas podem criar o que quiserem e estarão mais livres para a imaginação.

4 – Aprende a lidar com o tédio

O tempo vago não será mais amedrontador, mas uma oportunidade de trazer à tona o que está dentro de si. É um caminho inclusive para reduzir as ansiedades.

5 – Tomada de decisões

Sozinha, a criança terá de decidir o que fazer nas brincadeiras, as regras do jogo, a definição das histórias. Tudo dependerá de suas decisões. Ela aprenderá a dar o rumo às suas próprias ações.

6 – Independência e autonomia

Divertir-se sozinha é uma das principais expressões de independência que a criança pode obter. Dessa forma, ela percebe que, apesar de ser muito divertido brincar junto, não precisa de adultos ou de outras crianças o tempo todo. Essa concepção será muito importante para outras situações sociais no futuro.

7 – Pais com mais tempo e mais saudáveis

Para dar o melhor aos filhos, é preciso estar bem consigo mesmo, principalmente emocionalmente. Poder resolver algumas demandas sabendo que o filho estará bem entretendo-se sozinho traz tranquilidade para todos.

Como incentivar as crianças a se divertirem sozinhas

Como quase tudo nessa vida, “ficar bem sozinho” também é algo que se aprende. Como todo aprendizado, não se dá de forma mágica, nem por receita de bolo e, muito menos, do dia para a noite.

Desde bem pequena (com meses ainda) a criança já pode ser estimulada para esse brincar só.

Lógico, crianças menores não conseguem se engajar por muito tempo seguido em uma mesma atividade e, certamente, também não conseguirão ficar por muito mais de alguns minutos brincando só.

As tentativas devem ser gradativas, considerando a idade da criança e a sua própria personalidade. Isso sempre com o adulto próximo, claro!

No início o adulto pode auxiliar na organização da brincadeira ou dos materiais e ir, aos poucos, se retirando de cena. É importante que a criança entenda que ela não foi largada ali, mas que o adulto, pai, mãe, está próximo e retorna logo logo.

Uma possibilidade é deixar a criança próximo enquanto você está ocupado(a). Por exemplo: enquanto você está preparando o almoço, a criança pode estar brincando de massinha ali por perto ou, enquanto você está trabalhando no computador, a criança pode ficar desenhando ou montando um quebra-cabeças. Ou seja, assim como você, a criança também estará envolvida em suas responsabilidades.

Aos poucos esse brincar só vai acontecer de forma mais natural e a criança aprenderá a curtir esses momentos consigo.

Este aprendizado é uma oportunidade de descobrir a independência e desenvolver a autonomia.

Para facilitar este processo, seguem algumas sugestões:

  • Sugira algumas brincadeiras que não precisam do auxílio de outra pessoa e deixe que a criança tome a decisão do que irá utilizar;
  • Prepare um ambiente seguro, onde ela não precise ser supervisionada o tempo todo, e sem a interferência de telas e demais aparelhos eletrônicos;
  • Evite elogiar ou fazer comentários, isso poderá inibir ou até desconcentrar a criança. Deixe-a se entreter sozinha e apenas responda a suas perguntas ou elogie quando for solicitado.
  • Aproveite para observá-la e aprender um pouco mais sobre ela.

O incentivo ao divertimento desacompanhado é uma das ações no caminho para o desenvolvimento da autonomia infantil. Leia também nosso texto sobre a autonomia no contexto do ensino remoto e saiba mais sobre como a independência ajuda no desempenho cognitivo e social das crianças.