Estamos chegando aos 40 dias de suspensão das aulas por causa da pandemia do novo coronavírus. De lá para cá, algumas famílias já conseguiram se habituar às mudanças na rotina diária. Outras ainda nem tanto.

De todo modo, uma coisa é certa: o impacto das medidas de prevenção chegou a todos, das crianças aos idosos.

No caso das crianças e adolescentes, a necessidade do isolamento social fez o estudo em casa essencial para a continuidade da aprendizagem e convívio com colegas e professores.

E, agora, diante da mudança de rotina, é preciso assumir novas responsabilidades.

É bem verdade que as crianças estão sentindo falta da convivência com os amigos e, não frequentar a escola, muitas vezes causa irritação.

O correr, brincar e rir junto com os colegas, aquele futebol na hora do intervalo ou, simplesmente, sentar e comer junto na cantina da escola com os professores. Tudo isso deixou de existir de um dia para o outro. O contato via equipamentos tecnológicos até ajuda, mas não consegue substituir na íntegra a complexidade social.

Nesse contexto de isolamento, os pais também se sentem assoberbados com tanta tarefa caseira, além do home office ou trabalho presencial em outro lugar.

A casa que era um local de chegada e de acolhida, depois de muitas horas fora dela,  passou a ser o único lugar a ser frequentado, o que demanda muita manutenção e limpeza. Já reparou que a louça nunca termina?

Outra função que surgiu para os pais, nessa condição de distanciamento social, foi a de mediadores do ensino remoto na expectativa de que seus filhos se tornem autônomos para estudar e aprender enquanto cuidam dos afazeres domésticos e trabalham.

O que percebemos é que certo grau de disciplina e uma rotina em casa a ser cumprida têm ajudado as crianças na participação das aulas remotas e na realização das atividades escolares.

Participar dos afazeres do lar também ajuda nos momentos de estudo e no foco nas aprendizagens. Pois, participar da organização do lar auxilia na organização pessoal.

A valorização do ensino parte de uma organização anterior ao horário da aula online acontecer e se o jovem ou criança participarem desse processo, o resultado com a aprendizagem será mais efetivo e autônomo.

E é exatamente sobre isso que vamos falar, sobre o que é autonomia e como ela se forma na criança.

Afinal, quando investimos na autonomia dos nossos filhos, construímos atitudes que irão valer para toda a vida, não apenas durante este período de isolamento social.

Autonomia: como podemos definir?

Se formos para a análise linguística, veremos que a palavra autonomia vem do grego e significa “aquele que estabelece suas próprias leis”.

Neste sentido, autonomia está relacionada à independência, liberdade ou autossuficiência.

É a capacidade de um indivíduo fazer por si, gerir livremente a sua vida e a resolução dos seus problemas.

Para isso, a pessoa conta com a capacidade de refletir e discernir as suas próprias escolhas, quando educada e preparada para tal.

Como é construída a autonomia?

Engana-se quem pensa que autonomia só acontece na fase adulta. Sua construção ocorre desde os primeiros anos de vida.

A autonomia ajuda no desempenho cognitivo e social das crianças, ou seja na capacidade de compreender, refletir, inferir e ainda, trazer soluções.

O ato de começar a andar, comer e se vestir com independência já é um bom começo para desenvolver a autonomia.

Mas a questão vai além disso. Não podemos limitar a autonomia apenas às práticas comuns do desenvolvimento. A autonomia pode ser exercida em todas as esferas da vida e se estender, inclusive à liderança e ao senso de coletividade.

Caso não haja este incentivo, a autonomia pode se retardar ou se prolongar não superando a fase da heteronomia em vários aspectos ao longo da vida.

Entenda que, no processo de construção da autonomia, há o que chamamos de heteronomia.

Para o dicionário, a heteronomia é o antônimo de autonomia, mas na vida real não existe essa dualidade.

O limite entre um estado autônomo e heterônimo é o de passagem. No estado de dependência inicial da criança, a heteronomia não se apresenta como um mal e sim como um apoio.

Reconheçamos que nós adultos também somos heterônimos em alguns aspectos.

Dependemos de nossos filhos para resolver questões como ajustar o celular ou saber onde e como comprar por meio da internet sem se enrolar ou até pagar uma conta em um aplicativo bancário.

Valores sociais também estabelecem a heteronomia como uma verdade. Homem não lava louça e mulher não troca lâmpada.

Questões  essas, muitas vezes são denominadas de “divisão de tarefas” e se mantêm como certo e errado, preto e branco ou até mesmo rosa e azul, criando os valores de ordem social “inquestionáveis”.

Também com o avanço da idade, vamos perdendo a autonomia conquistada e entrando na fase da heteronomia reversa.

As habilidades já não são mais as mesmas em função da idade e, enquanto a sociedade  avança, o idoso vai perdendo a condição de acompanhar as mudanças, não é verdade?

Então vejamos a heteronomia da criança como parte da construção da autonomia.

Como assim? Para construir uma autonomia saudável é preciso que o adulto participe ativamente neste processo. O fazer junto é de suma importância.

Aos poucos a criança vai aumentando a possibilidade de fazer as coisas mais sozinha. Ela vai dominando as pequenas práticas do dia a dia e ganhando novas habilidades. Um processo minucioso de conquistas.

Atitudes heterônomas saudáveis requerem a ação da criança sobre elas. Por exemplo, ao vestir a bermuda:

De início o adulto posiciona o lugar certo de se colocar a perna nos buracos da bermuda, isso de frente à criança. Em outra etapa, ele já deixa a criança puxar a bermuda para cima e dá umas puxadinhas para que possa ultrapassar o joelho e o bumbum ― para a criança, um obstáculo.

Toda ação deve ser acompanhada pelo suporte e fala suave do adulto, pois cada pequeno avanço é um grande desafio para a criança.

E o que fazer com aquele enrolado que fica quando a bermuda chega na linha da cintura? Quando chegar na reta final, o adulto dá uma arrumadinha, olhando no olho da criança como sinal de aprovação e ainda diz “Valeu! Bate”.

É nesse sentido que estamos falando da importância da heteronomia, quando é necessário compreender que as pequenas coisas são enormes para a criança e que o acompanhamento paciente e amoroso do adulto faz toda a diferença.

Portanto, vejamos a autonomia como um caminho a ser galgado, na relação adulto e criança, em que as pequenas conquistas vão se estabelecendo, um belo patrimônio a ser levado para a vida futura.

Para incentivar a autonomia dos filhos, não se pode deixar estressar a cada situação em que as coisas não saem exatamente como o planejado.

 

É necessário propor o cumprimento de metas realistas com tarefas adequadas à fase da criança como:

  • Aprender a se cuidar, a se vestir, escovar os dentes (supervisionado) etc.;
  • Ajudar nas atividades do lar, como tirar o prato após refeição, lavar objetos de plástico, fazer uma receita do tipo biscoitinhos e pães;
  • Pensar em soluções a partir do problema trazido;

Diante dos avanços, o adulto precisa:

  • Apoiar a criança emocionalmente na superação dos seus medos e frustrações;
  • Reconhecer suas conquistas;
  • Incentivá-la à iniciativa e proatividade a partir das pequenas coisas.

Se quiser saber mais sobre a relação entre autonomia e autoestima, leia o texto AUTONOMIA INFANTIL: COMO ESTIMULAR A AUTONOMIA DESDE CEDO?

E na aprendizagem, como acontece a autonomia?

Observando as diferentes metodologias de ensino, é cada vez mais distante o conceito de que o professor é o detentor de todo o saber, e que o aluno é um mero receptor das informações.

Os alunos podem, e devem, se envolver com os estudos em uma participação ativa na sua aprendizagem.

Nesta condição de ensino, o educador promove a situação da experiência com estratégias pedagógicas que estimulam a curiosidade e a vontade de questionar.

Os alunos podem contribuir para o planejamento dando opinião e sugestões .

A partir destas práticas, o professor desenvolve outras metodologias de aprendizagem  e acompanha o ritmo de seu aluno (heterónimo ou autônomo) na construção do  conhecimento, em diálogo com a turma, com o seu próprio planejamento e fazer pedagógico em busca de melhorias.

Vamos entender que encontrar o caminho do incentivo, vale tanto para o professor em sala de aula como para os pais em casa.

A linha tênue da aceitação (ou não) por parte da criança pelo aprender por meio da mediação do adulto está no respeito deste último às particularidades do aprendente. E, ainda, na capacidade do próprio adulto em se encantar com as pequenas conquistas do aluno ou filho.

Em outras palavras:

Incentivo, respeito e encantamento autêntico do adulto geram na criança vontade de aprender.

Neste sentido, os educadores ― professores e pais ― exercem bem o seu papel quando trabalham respeitosamente para auxiliar a criança a assumir uma autonomia sobre seu aprendizado, cada um preenchendo a sua função de bom educador.

Entendam, pais não precisam ser professores, mas não pode se eximir da sua função de educador.

Não adianta achar que o primo já sabe a tabuada e é por isso que seu filho precisa saber também.

Muito provavelmente seu filho tem habilidades, por vezes, não cobradas pela esfera de ensino escolar que o primo dele não tem. Não desvalorize seu filho diante do conhecimento dos outros e cuide da autoestima dele.

É preciso lembrar também que cada estágio de desenvolvimento corresponde a um grau de autonomia e que cada criança é uma criança diferente em seu histórico e em seu ritmo.

E para ampliar os seu conhecimento, caro leitor, sobre o desenvolvimento infantil, recomendo ler CONSTRUTIVISMO: O QUE É E COMO INFLUENCIA NO APRENDIZADO?

Então, sendo assim, não se pode exigir que uma criança de dois anos se vista integralmente sozinha como também não se pode exigir que um adolescente de 12 anos exponha sua compreensão sobre determinado texto que, ainda, não lhe é significativo.

Nesse último caso, o compartilhamento de significados no coletivo ou com um adulto pode clarear o entendimento do pré-adolescente sobre o texto e dar-lhe a oportunidade de criar a sua opinião própria para leituras futuras.

E quando os pais precisam apoiar os estudos em casa?

No contexto de aulas a distância ou remotas, ficou mais claro que a tarefa de construir a autonomia na aprendizagem tem que continuar existindo e que os pais têm papel fundamental sobre esta construção.

O que era antes possível delegar à escola na falsa ilusão de que a escola dá conta de tudo, neste momento de isolamento social, passou a ser mais revelador.

Quando em casa há limites, rotina, respeito, diálogo e acompanhamento das tarefas, a criança e o jovem conseguem se organizar melhor e se sentem mais dispostos a estudar.

Se você está com dificuldades para lidar com o ensino remoto nesta quarentena, não desista, crie metas que estão ao seu alcance para que comecem as mudanças em casa. Se você não mudar, seu filho não terá a oportunidade de mudar também.

Desta forma, você pode incentivar a autonomia na aprendizagem dos seus filhos com pequenas atitudes, como:

  • Converse sobre as aulas a distância com ele;
  • Escute as dificuldades que ele está tendo com as mudanças de ensino;
  • Dialogue com a escola, procure sensibilizar os profissionais sobre a realidade do seu filho;
  • Troque ideias para flexibilizar a escola e, também trazer mudanças em suas atitudes em casa;
  • Não ache que a escola vai encontrar todas as soluções;
  • Pense como atuar como Educador e não como Repressor;
  • Não queira ensinar, mas procure manter a qualidade de produção da criança ou jovem ― não pode fazer de qualquer jeito e nem se portar de qualquer jeito.
  • Respeite o esforço do professor em ensinar e faça algumas adequações necessárias para o seu filho, como ler com ele o que ele não entendeu direito;
  • Determine junto à criança, o melhor lugar para o estudo (não pode ser na cama e nem de pijama);
  • Ajude-o a organizar o local físico do estudo (tire o pó, mas ele empilha os cadernos e livros ao finalizar ― sugestão);
  • Permita a imaginação criativa nas  brincadeiras e atividades;
  • Encante-se com as suas conquistas (já falei isso antes, né?!);
  • Converse e faça-o perceber os sentimentos e ajude-o a lidar com eles;
  • Motive-o a ajudar os colegas de sala fora do horário de aula;
  • Reúna a família para debater temas e garanta que crianças e jovens em casa tenham voz neste momento;
  • Estimule-o aos cuidados nas tarefas diárias de casa, com responsabilidades próprias;
  • Proponha um momento de leitura livre e o deixe escolher o que será lido;
  • Estimule-o à argumentação e respeite a opinião em seu nível de entendimento e maturidade;
  • Não dê as respostas, faça perguntas e deixo-o pensar sobre elas.

Ficam aqui algumas ideias sobre a autonomia na aprendizagem em tempos de coronavírus que podem servir também para quando a situação se normalizar.

Vamos continuar conversando ainda mais sobre o assunto?