O ser humano vem ao mundo sem nenhuma autonomia, simplesmente não é capaz de fazer nada sozinho. Ele precisa aprender muito até poder tomar decisões por conta própria e interagir socialmente.

Ao contrário de algumas espécies de animais, sem um cuidador para prover a alimentação, afeto e asseio, o bebê humano não seria capaz de sobreviver.

O bebê cresce e vai desenvolvendo habilidades de lidar com problemas e buscar soluções de forma gradativa.

Mas, por vezes, a criança é cercada de tantos cuidados pelos adultos que a autonomia que ela poderia desenvolver se limita. E isso acontece no trato pessoal, emocional e social.

O que é autonomia?

A autonomia é a habilidade do fazer sozinho para si e para os outros. A autonomia se aprende com os outros e se desenvolve através das distintas práticas diárias.

Ela se desenvolve a partir da forma como a criança interage consigo mesma, com os outros e com tudo que a cerca.

Pensar e agir de forma autônoma significa desenvolver habilidades, maturidade e discernimento para as circunstâncias próximas.

Por isso fica o alerta: Se não for dada a oportunidade à criança realizar tarefas tangíveis sozinha, ela terá maiores dificuldades em sua circulação social, como ser adulto na hora de buscar soluções para seus problemas.

Piaget afirma que no processo de desenvolvimento moral, vamos encontrar adultos em plena fase de anomia (sem autonomia alguma) e outros na fase da heteronomia (que só conseguem interagir com a ajuda do outro).

Uma mesma situação pode parecer óbvia e fácil de se lidar para uns, e parecer inatingível para outros, o que reforça a ideia de que os caminhos para atingir a autonomia podem variar de um sujeito para o outro.

É preciso entender que autonomia é algo construído no contato da criança com o adulto. Por isso os pais precisam saber que a autonomia:

  • precisa ser estimulada desde cedo,
  • não está dentro da criança e nem vai brotar de repente.

A autonomia está presente:

  • no ato da criança cuidar (na medida de suas capacidades) de si mesma e de seus pertences,
  • na capacidade de se tornar responsável, sensível ao outro e solidária,
  • na capacidade de interagir com o outro de igual para igual, sem se anular e sem anular o outro,
  • no investimento e desejo dos pais dentro dos limites do respeito.

No último ponto cabe lembrar que ninguém aprende nada sozinho. Então a criança precisa passar pela heteronomia para chegar à autonomia. Isso é normal.

A ajudinha e o estímulo próximo são fundamentais.

Como ajudar o seu filho na construção da autonomia?

Na construção da autonomia, atitudes responsáveis dos adultos autorizam a criança a ter experiências autônomas e respeitam sua maneira “desajeitada ou errada”.

Ao calçar os sapatos, uma criança de três anos, geralmente, não sabe diferenciar o que é pé esquerdo do direito. Tem adultos que também não fazem esta distinção.

Mas quando os pés do sapato forem colocados ao contrário pela criança, não foque no erro. Mostre-a outra forma de se calçar, sem desfazer as inúmeras conquistas realizadas por ela.

A realização de calçar um sapato deve ser apreciada pelo processo e não pode ser julgada pelo fim. Saiba que a motricidade exigida para se calçar um sapato demanda várias habilidades e desenvolvê-las se torna mais fácil pelo viés da apreciação e do respeito.

Se a criança insistir em ficar com o pé trocado, em outra oportunidade, ela vai conseguir colocar os sapatos no pé correto, é só uma questão de tempo e não de fracasso.

Saiba que em busca do acerto não há erro, apenas há tentativas!!!!

É no investimento que os adultos permitem às crianças desenvolverem habilidades que as tornam capazes de fazer por si práticas simples ou mais complexas, como:

  • arrumar a mochila para a escola,
  • tomar um banho efetivo,
  • escolher a roupa,
  • vestir-se,
  • amarrar os sapatos,
  • escolher opções.

Quando falamos em opção, tem que haver um limite dado pelo adulto. Há roupas que se adequam ou não a certas situações, e o que se come durante o lanche pertence a certos tipos de alimentos e não se pode comer qualquer coisa.

Portanto, quando tratamos sobre autonomia, também estamos discorrendo acerca da capacidade da criança de desenvolver:

  • sensatez,
  • discernimento,
  • equilíbrio emocional.

Aspectos socioemocionais se desenvolvem na área do respeito, com trocas significativas e diálogo entre criança e adultos, o que terá reflexos relevantes para a vida em qualquer idade.

E como a construção da autonomia pode acontecer em casa?

  • Respeite o tempo da criança, colocando limites: ”A mamãe pode te dar cinco minutos para você escovar os dentes”,
  • Procure ajudar onde realmente a dificuldade aparece, não mais do que isso,
  • Motive a criança, valorize-a,
  • Não fale demais – é mais atitude, paciência, confiança e menos explicação,
  • Nunca dê as costas ou vá fazer outra coisa (cuidado com o celular)
  • Valide as pequenas conquistas, sem exageros.

Para efeito de compreensão, as equações para o desenvolvimento da autonomia são bem simples e diretas:

PAIS PARTICIPATIVOS NA CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA = CRIANÇAS MAIS DESENVOLTAS

Dependendo da amplitude das experiências vividas na infância, com mais ou menos estímulo e afeto, a pessoa se tornará mais ou menos autônoma.

Incentivo à autonomia

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A autonomia deve ser incentivada a partir da primeira infância, quando a criança ainda é bebê. E por que não começar logo pela alimentação?

Por exemplo, o método Baby Led Weaning , também conhecido como BLW, estimula a criança, a partir dos 6 meses, a levar os alimentos à boca com as próprias mãos.

Nessa prática as frutas e legumes são cortados em pedaços, e não amassados e misturados (como no caso da papinha). A supervisão e a ajuda do adulto são necessárias nessa construção.

E por que isso seria mais importante do que garantir, apenas, que a criança coma e se nutra?

Veja, o estímulo para a alimentação autônoma:

  • incentiva a mastigação,
  • desenvolve a coordenação olho, mão e boca,
  • favorece a descoberta de sabores,
  • permite discriminar os alimentos, suas texturas e saber seus nomes,
  • promove o direito de escolha na criança,
  • dá a oportunidade dela comer a seu tempo,
  • E também ela come e se nutre.

E quanto a sujeira? Acredite, ela gera um dano bem menor do que fazer tudo pela criança e não deixá-la ter suas próprias experiências. Não hesite, pois uma infância com mais estímulo à autonomia resulta em um adulto com mais autonomia.

De acordo com um estudo conduzido por uma equipe da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, bebês que tiveram a introdução dos sólidos a partir dos 6 meses são mais propensos a comer de forma saudável e a ter um bom IMC (índice de massa corporal) na vida adulta.

Assista alguns depoimentos de mães que introduziram o BLW neste nesse vídeo

E a escola, será que também tem o que fazer quanto a autonomia?

A escola em parceria pela autonomia

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É preciso que a criança ou jovem adquira ferramentas que a possibilitem aprender a ser independente, tanto na cognição como em suas relações com as pessoas.

A escola é um ambiente cheio de regras pela sua função social formadora. Algumas escolas são mais rígidas e outras mais flexíveis, mas a flexibilidade não pode ser confundida como um “abrir mão das regras”.

Portanto, sendo a escola a primeira experiência social fora do seio familiar, ela tem um papel fundamental no desenvolvimento da autonomia da criança.

E como a escola pode ajudar?

No âmbito da disciplina, o medo, a coerção e a punição cumprem o seu papel, mas não o cumprem em sua amplitude formadora de sujeito autônomo. Temer é distinto de respeitar.

E o respeito, o que promove a maturidade moral e emocional do sujeito, se dá na ordem da construção, não só em casa, mas na escola também.

Para se criar um ambiente de construção da autonomia é preciso contar com a abertura e a implicação dos adultos com atitudes pedagógicas para que o aluno possa:

RECEBER:

  • incentivo e ajuda quando precisa;
  • afeto e respeito como práticas rotineiras;
  • responsabilidades compatíveis às suas possibilidades além dos estudos.

SER:

  • valorizado em suas ações globais e não apenas na nota;
  • escutado para ter sua opinião valorizada;
  • respeitado;
  • desafiado (dentro dos seus limites e gradativamente).

Sobre este último item você pode aprofundar-se lendo sobre scaffolding.

DESENVOLVER:

  • autoestima;
  • condição de se planejar;
  • autoria de suas realizações;
  • autodisciplina pelo viés do respeito;
  • habilidade de dialogar;
  • capacidade de se colocar no lugar do outro e de respeitar o outro.

Nesse processo planejado e articulado, entre conteúdos e comportamentos sociais a serem apreendidos, é possível criar o espaço para que ao aluno:

  • Participe de tomada de decisões;
  • Opine e reflita;
  • Ouça respeitosamente e abertamente opiniões alheias;
  • Faça tentativas e aprimore-se;
  • Tenha o poder de escolhas diante do que vai realizar.

Com intencionalidade real e fundamentos dos grandes teóricos da Escola Moderna, como Montessori, Vygotsky, Paulo Freire, Piaget, Wallon, Dewey e outros, é possível ampliar as ações da escola para desenvolver a autonomia de seus educandos em função de educar em parceria e consonância com o investimento realizado pela família.

Pois fique sabendo que: CRIANÇA AUTÔNOMA = CRIANÇA COM MATURIDADE = CRIANÇA FELIZ!

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