Nem todos compreendem a significância da autoestima e, muitas vezes, se descuidam de sua importância. O desenvolvimento da autoestima na criança começa ainda nos primeiros dias de vida.

Como nasce a autoestima?

Se formos investigar quando é que a autoestima começa a se estabelecer na criança, é preciso entender que antes do bebê chegar, ela já está em construção. Ela surge a partir de você: adulto. Em primeiro lugar, a autoestima é inaugurada a partir do desejo dos pais em gerar um(a) filho(a).

A autoestima e os sentidos

Após o nascimento da criança,  a autoestima é naturalizada por meio do olhar do adulto que acompanha esta criança ao longo de seus primeiros anos de vida. É no olhar dos pais que mora a aprovação. E os olhos não mentem bem.

O recém-nascido pode não compreender ainda as palavras, mas com certeza percebe os olhares, os movimentos os tons e as nuances da voz. Ele  assimila e diferencia a afetividade recebida pelo toque e pela voz.

Na busca pelo sentido, o toque pode revelar ao bebê o que é delicadeza, aceitação e amor, por outro, também deixa transparecer o que é ansiedade, rejeição e agressividade.

A autoestima e as atitudes

Entretanto, não é só o olhar, a voz e o tato que fomentam a autoestima da criança. As atitudes dos adultos se somam aos sentidos na formação da autoestima.

Crianças são grandes observadoras das atitudes de seus pais. Nos primeiros anos de vida, lhes cabe a alta habilidade da leitura corporal. Elas leem como os adultos se comportam e agem sobre elas, principalmente, nas situações de interação. Elas distinguem os  movimentos e fazem leitura a partir do corpo.

Desta forma, a criança toma para si as reações dos adultos e as enchem de significados próprios. Reações agressivas, de descaso e de impaciência vão se estabelecer no que denominamos de baixa autoestima. Ninguém cria a baixa ou a alta autoestima sozinho.

Um pequeno exemplo está associado ao celular. Você já se pegou “interagindo” com a criança usando o celular? As aspas foram colocadas para lhe alertar que esta não é um legítima interação com a criança. Portanto a autenticidade, por parte do adulto, é um bom instrumento de construção para a autoestima da criança.

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A autenticidade e a  autoestima

Sim, os familiares e as pessoas mais próximas que cuidam das crianças estão no topo de importância no processo de construção da autoimagem (como nos conhecemos e compreendemos nosso corpo, o que nos tornamos). Os olhares lançados sobre os filhos os acompanharão e serão parte de suas escolhas, atitudes em busca de aprovação ou não – propositais ou inconscientes.

Na certeza de que é amada e na confiança de que está cuidada, a criança se fortalece e enfrenta as vicissitudes a partir de uma autoestima embasada no afeto e na crença de que ela foi autorizada a crescer. Assim, ela se sente protegida mesmo longe dos pais.

Portanto, aja e fale com sua criança com maturidade. Procure não mentir, seja autêntico de forma a se ajustar à sua capacidade de compreensão. Nem tudo precisa ser mostrado, mas a criança pode trilhar melhor seus caminhos quando a preparamos para crescer em meio ao diálogo sobre as coisas e os acontecimentos, por menores que sejam.

Se quiser saber mais detalhes sobre isso, espia esse outro texto aqui no nosso blog.

O discurso e a autoestima

E é na área do discurso do adulto, em sua fala, que a autoestima dá o tom à identidade da criança. O tom das palavras – tom como o das cores em suas infinitas variedades e nuances – e a escolha dos vocábulos.

Dentre as nuances da autoestima, há a criança que brilha e há aquela que se ofusca, não é verdade? De forma inconsciente, a que tem autoestima fortalecida pelo afeto terá atitudes de autoconfiança e a capacidade de reagir pelo discernimento das coisas.

Nesse aspecto, o discurso, o que soa da voz do adulto, implanta os significados que vão se estabelecer no imaginário da criança e acompanhá-la ao longo da vida.

Se uma criança é ensinada e orientada a se valorizar, tanto em suas características físicas quanto comportamentais, ela aprenderá a se amar e a se aceitar, independentemente das circunstâncias. Ela aprecia sua forma de ser e terá mais facilidade de ser aceita em seu meio social.

Uma criança com a autoestima saudável, provavelmente se tornará um adulto confiante, seguro, com interesse pela vida, por aprender e realizar sonhos. Inclusive estará menos suscetível a doenças ou distúrbios emocionais na vida adulta. Fortalecida pela sua autoestima, pode reagir melhor às dificuldades e aos obstáculos.

As comparações e a autoestima

Elogiar um filho e não fazer nenhum comentário ao outro também cria significados negativos que vão formar uma autoestima frágil.

E mesmo que as comparações pareçam inevitáveis, abra mão delas. Comparações, neste caso, não ajudam em nada. Elas se tornam bem destrutivas na construção da autoestima, o que por insistência do adulto pode se confirmar na criança.

Não insista em contar quem falou antes, andou primeiro, aprendeu logo a ler etc. como curiosidades a serem expostas sobre seus filhos. Isso não faz bem nem para um e nem para o outro e abala a boa relação entre eles.

Estas características ou conquistas são ínfimas diante do que um ser pode desenvolver e quando valorizadas em excesso, aponta para a cegueira de um adulto que enxerga somente os aspectos socialmente valorizados, o que é muito pouco diante das inúmeras qualidades existentes.

Fulaninho gosta de estudar, ele é mais inteligente que o outro, é mais talentoso. Ele é mais esperto e o outro é mais devagar. Fica o alerta: não faça isso!

Daí podemos observar como herança, escolha e atitudes no seio familiar desvalorizam as crianças.

E como a autoestima influencia na vida de uma criança?

Imagine a seguinte cena: a criança está comendo bem sozinha, sem auxílio de adultos e, de repente, ela bate acidentalmente com a mão no prato, derrubando toda a comida no chão.

Como primeira opção ela escuta: “que criança desastrada!”, “você não sabe fazer nada sozinha”, “você faz tudo errado”,

Nesse caso o reforço se dirige à baixa autoestima. Mas será que pode ser diferente? Adultos parecem imaturos diante de incidentes inesperados causados pelas crianças.

Nessas horas, procure reformular o discurso, acolhendo a criança e a situação.  Pense bem antes de se manifestar. Vejamos, será que poderia ser assim?  “Filho, o que aconteceu? ”, (sem condenar, procure escutar). “Acontece”. “Vou colocar outro prato de comida para você e depois limpamos juntos”.

Faça esse exercício a cada situação em que você se exalta. Nada de dramas, pois dramas são excessos desnecessários e ninguém os merece, principalmente uma criança.

A criança absorve o discurso (que fala ou que cala) de quem lhe é próximo e importante em sua vida. Não olhar, não se dirigir à criança em um contato autêntico de afeto diário pode gerar uma lacuna que a enfraquece. O silêncio também fala por si.

Principais aspectos que destroem a autoestima (mas que não são determinantes):

  • uma criança não desejada;
  • a falta de atenção genuína e autêntica por parte de quem cuida
  • restringir os cuidados  à criança aos anseios e à alimentação;
  •  rotular, classificar, discriminar a criança;
  • comparar – esta é altamente destrutiva.

E como trabalhar a autoestima nas crianças?

Bem, nada na educação está dentro de uma caixinha com uma série de dicas que podem ser pescadas e praticadas com um efeito mágico. Quando falamos de autoestima isso fica mais evidente ainda, pois cada criança é única.

Para reforçar uma boa autoimagem na criança, devem ser consideradas e valorizadas as suas características pessoais e únicas, como temperamento, habilidades, competências, ritmo de aprendizado, desejos, sonhos.

O olhar do adulto deve se dirigir às possibilidades infinitas a serem desenvolvidas pela crianças e não focar as dificuldades. Dificuldades devem ser acolhidas mas não podem virar identidade.

Isto se refere, principalmente, à convivência no núcleo familiar e na escola. Pois, na sala de aula ela pode facilmente reproduzir o que já recebe de casa.

Infelizmente, algumas ações negativas ocorrem também em alguns ambientes escolares. Como, por exemplo, se a letra não está “bem feita”, ou se o desenho é considerado “pobre” e, por isso, não é exibido no mural. Na verdade, deve-se enxergar o valor naquilo que a criança realizou e apostar em sua condição de melhorar com atitudes autênticas positivas.

Daí a importância de uma mediação cuidadosa durante as atividades escolares. Ela pode ser desenvolvida de uma forma sutil para extrair mais da criança, de forma que ela exponha mais de si, tudo com muito respeito aos seus limites. Isso ocorre quando ela confia no adulto.

É importante evitar os jargões do tipo: “eu esperava mais de você”, “o seu trabalho está regular, você podia mais”. Mas, ao contrário disso, jogar desafios, de maneira lúdica ou não, que a criança consegue traçar: “Onde está o caminho?”, “ Parece que você esqueceu a boca do seu desenho, ela está sorrindo ou está triste?”, Está chovendo ou tem sol? Quem sabe isso ou aquilo?”. Sem passar do limite, a criança geralmente coopera e avança.

Alguns outros passos podem ser seguidos para a construção de uma autoestima saudável:

  •     Ser presente. Uma família presente na vida da criança com a dedicação de cuidado e atenção é o mais importante para o fomento da autoconfiança;
  •     Ensine a criança a lidar com as frustrações. Ela precisa compreender que nem sempre o resultado sai como o esperado, mas o mais importante é o esforço e dedicação empreendidos no processo.  Por isso, valorize mais o esforço do que o resultado;
  •     Não denomine a criança pelo erro cometido. Há muitas maneiras de explicar sobre o erro e corrigir a criança sem vincular rótulos a ela. Por exemplo, por que chamá-la de bagunceira para explicar que ela precisa recolher e guardar os brinquedos?
  •   Estimule a autonomia. A depender da idade, os filhos podem compartilhar algumas responsabilidades da família, como os cuidados com a casa. Arrumar a mesa antes das refeições, levar o lixo para fora, alimentar o pet, entre outras ações que podem fazer com que eles se sintam importantes e se tornem mais confiantes.
  •     Elogie-o com sinceridade, reconhecendo seus valores. Não se limite a dizer “parabéns” ou “muito bem”. Identifique o esforço de seu filho e elogie-o valorizando as habilidades apreendidas. Elas estão ali à sua frente e, por vezes, o adulto precisa aprender a enxergar.
  •     Demonstre afeto. Quem não gosta de se sentir amado? A criança não apenas gosta, mas precisa dessa troca. De saber que é amada no seu jeito singular. O contrário pode gerar um sentimento de rejeição.
  •   Estimule-o a solucionar. Desde a infância, como em toda a vida, existem  fracassos e dificuldades. Muitas vezes a criança terá de enfrentar essas barreiras sozinha. Então, desde já, propicie o pensamento crítico e a criatividade para trazer soluções aos problemas.
  •     Não faça comparações. Apesar de ser a última da lista, esta orientação deveria estar em letras garrafais. Jamais, nunca, compare a criança com outras. Lembre-se que cada um é um ser único e com características diferentes. Nem melhor e nem pior do que o outro. Simplesmente, diferente.

São olhares e ações que ocorrem no dia a dia que podem fazer toda a diferença na construção da imagem pessoal. Muitas vezes são discursos sutis que precisam ser bem pensados, primeiro, na mente do adulto e só depois expressos à criança.

Vamos dar continuidade a esse diálogo sobre a autoestima infantil? Compartilhe nas suas redes sociais este texto para que mais pessoas reflitam sobre seus comportamentos e como podem auxiliar no desenvolvimento sadio das crianças.