Engana-se quem pensa que a disciplina de artes nas escolas é somente um momento recreativo de lazer e entretenimento. A arte na escola vai muito além. O ensino das linguagens artísticas para crianças e adolescentes pode estimular o desenvolvimento de novas habilidades, aptidões diversas etc. E é isso que vamos discutir aqui.

Por meio da arte, ensina-se ao jovem estudante, desde a primeira infância, a fazer relações expandindo as fronteiras que delimitam as disciplinas escolares. Sua prática vai desde o manuseio de diferentes materiais de maneira organizada e criativa até o ensino das tecnologias no processo do aperfeiçoamento estético da expressão artística.

Afinal, a arte é interdisciplinar e auxilia no autoconhecimento. Nela habitam, em parceria, estética, cultura, formas de expressão, significados, processo histórico e conhecimento – patrimônios da humanidade criados e acumulados pelo homem que enriquecem qualquer assunto e tipo de ensino. Já pensou associar a matemática à música. A música, desde a Antiguidade, era considerada pelos gregos o estudo dos números em movimento. Veja mais aqui!

Quer ver mais ainda? Você já ouviu falar em fractais. Pois saiba que a natureza é construída, sabiamente, a partir da ideia arquitetônica dos fractais. Você pode até dizer que é coisa divina, mas a arte, a partir do homem, em sua visão estética, contemplou, apreendeu os fractais e desenvolveu ciência.

A partir da matemática, física, geometria da natureza e outras disciplinas que surgiram, os fractais, em sua complexidade aleatória e infinita antes vista pela Arte, puderam favorecer várias descobertas na área da Biologia, Engenharia e Medicina.

E, ainda, com a presença das tecnologias, atestou a possibilidade da estética e da poética trazerem benefícios ao homem em suas mais diferentes criações, como em pesquisas e estudos científicos. Entenda, não existe Ciência sem criatividade.

Quer ter uma leve ideia sobre fractais? Assista a este pequeno vídeo de 1min. e 27 segundo, em que a arte visual aliada à tecnologia e à música (em suas repetições fractais) podem lhe deixar sem fôlego. É só se deixar levar pela estética inigualável da arte dos fractais.

 

Sendo assim, diante do que vimos e podemos dimensionar, o ensino da arte não pode ser reduzido a uma simples compreensão de que está na escola como evento recreativo. É por isso que sua importância e obrigatoriedade está expressa em lei.

A Arte na Educação é lei

Em todos os países do primeiro mundo, a arte é reconhecida como parte indiscutível do currículo do sistema educacional. No Brasil, a legislação já prevê o ensino da Arte, especialmente em suas expressões regionais, como componente curricular obrigatório na Educação Básica. O que fica em discussão é a qualidade desse ensino, mas o fato de estar em lei já é um bom passo.

De acordo com a Lei 13.278/2016, todas as escolas devem preparar seus professores e implantar o ensino das artes visuais, dança, música e teatro no período de 5 anos (opa, 2021 já está logo aí) na Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio. Até então, apenas a Música era componente “obrigatório, mas não exclusivo” do ensino da Arte de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Estas determinações levam em conta o poder transformador da Arte na escola. Se bem trabalhada, a Arte tem a possibilidade ímpar de ampliar a criatividade, estimular a capacidade de solução de problemas, favorecer a autoestima, fazer a criança e o adolescente desafiarem seus limites.

Tudo isso colabora para o aumento do repertório cultural e ampliação do olhar estético do jovem numa perspectiva crítica e transformadora.

O grafite antes visto como algo que sujava as paredes das cidades nos anos 70, tornou-se uma manifestação artística própria para espaços públicos.

Há pouco tempo só era visto em muros de espaços livres e expressava a opressão sofrida pelos menos favorecidos. Hoje faz parte de paredes externas de bibliotecas e outros ambientes antes nunca pensados.

Isso sugere que a Arte ajuda a romper com o apego dos velhos conceitos e abre mão dos preconceitos. Isto é, amplia visões de mundo em função das possibilidades e vai além do certo e do errado. Nesse sentido, a Arte na escola ajuda a formar sujeitos mais abertos, inclusivos e tolerantes.

Já dá para perceber que a arte no sistema de ensino ultrapassa o errôneo conceito de

momento recreativo, não é mesmo? Que tal conhecermos um pouco mais sobre as diferentes linguagens e todos esses benefícios que só a Arte nos proporciona?

Novas habilidades por meio da educação artística

Em geral, o senso comum sobre a Arte-educação limita a amplitude da área. A primeira ideia que surge são atividades realizadas em telas, tintas usando, por vezes, técnicas específicas de pintura. Quando há um pouco mais de compreensão, se mencionam as esculturas. Mas é possível ir bem além.

Entenda que a Arte  está presente na vida e não apenas nas exposições de quadros. Ela se manifesta no dia a dia da sociedade – na música, nos recursos audiovisuais, na publicidade, na arquitetura dentre tantas outras formas. A Arte se apresenta em forma de linguagens múltiplas e tem caráter comunicativo que pode ou não se complementar com a linguagem verbal.

No ambiente escolar, cabe ao professor investir na exploração das diferentes áreas com muita criatividade. De acordo com os antigos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), as aulas de artes devem contemplar atividades que envolvam suas quatro linguagens: a música, o teatro, a dança e as artes visuais.

No entanto a BNCC/2018 (Base Nacional Comum Curricular) sugere caminhos para ampliar o acesso dos alunos a experiências estéticas durante as aulas de Arte e outras disciplinas, colocando-os como articuladores de ideias socialmente compartilhadas, de modos simbólicos de significar o mundo e por meio do processo investigativo e, consequentemente, criativo.

Portanto, na BNCC, o processo da prática é tão importante quanto o resultado final quando o aluno se torna “interator” de sua criação. Assim o fazer artístico está dentro do processo investigativo até chegar à dimensão da manifestação artística.

Mais detalhes sobre a BNCC e o ensino das Artes no vídeo abaixo:

Arte estimula  pensamento,  sensibilidade e  expressão crítica

As obras artísticas não são meramente elementos decorativos. Muitas são resultado de expressão social, de acontecimentos, ideologias, ou são até manifestações de cunho político.

Neste sentido, fazer a leitura de um trabalho de arte, desenvolver a sensibilidade e percepção de seus significados históricos sociais envolvidos, e mais importante, refletir fazendo.

Tudo isso colabora para que a criança e o adolescente desenvolvam as competências táteis, visuais, interpretativas dentro do pensamento crítico.

O recurso da interpretação, aguçado com o ensino da Arte, facilita o processo de aprendizagem ao longo de todo o percurso escolar. E, ainda, pode ser aplicado em qualquer área e fase da vida.

O aluno que é levado a analisar criticamente a produção artística de diferentes épocas, contextos e geografias, está muito mais apto a entender a construção da linguagem da Arte e capaz de fazer uma melhor leitura do mundo como um todo.

Por isso, na Casa Escola, em Natal, adotamos, muitas vezes as práticas de releituras de obras de Artes a partir da proposta triangular de Ana Mae Barbosa em que é preciso contextualizar, apreciar e praticar. Com isso, a teórica nos ensina que a Arte está totalmente ligada ao contexto. Tudo isso tem lá na BNCC.

Essa metodologia adotada há muitos anos na Casa Escola tem dado resultados bem significativos, quando as crianças, desde pequenas, têm dialogado com os artistas e seus trabalhos antes mesmo de partir para a criação. Quanto a técnica a ser usada está aberta à criatividade metodológica do professor e, consequentemente, à do aluno.

Vejam como foi o processo bem planejado com a participação das crianças e o produto final realizado pela professora Adriana Macedo com os alunos (5 anos):

Desde a visita à pinacoteca, no antigo Palácio do Governo no Centro de Natal, até escolha da obra de Newton Navarro, a participação das crianças foi ativa. O fundo da obra foi pintado de café, o sol, o boi e os cactos foram desenhados à mão livre pelas crianças. O boi foi pintado com tinta guache marrom e preta com batidas de pincel para dar uma textura diferente. Por fim, o resultado final:

 

Outro trabalho de Arte que teve a mão das crianças foi com a professora Giselle Dionísio e os alunos do 3º ano. Dessa vez o artista, Wendell Batista, esteve presente na escola. Ele foi entrevistado pelas crianças e se propôs a dar a oportunidade de cada uma delas criar o seu próprio mosaico. Vejam o envolvimento e o resultado:

Para finalizar, a releitura da obra Boemia do artista D. Esteves, sendo reinventada pelas crianças (3 anos):

Conclusão

É importante ressaltar o grande valor do ensino da Arte na escola desde a primeira infância, já que o envolvimento com as Artes amplia horizontes de maneira singular. Certamente uma criança que tem acesso a uma educação que prioriza a Arte tem mais recursos e referenciais em sua capacidade interpretativa de maneira mais sensível e inusitada.

Interessante saber que a Arte pode trazer tanta contribuição para o desenvolvimento das crianças, jovens e adultos em geral, não é mesmo? Se você gostou e acredita que mais pessoas precisam saber dessas informações, que tal compartilhar este texto nas suas redes sociais?