Matemática é uma daquelas disciplinas que carrega consigo um peso cultural capaz de invocar o mais profundo terror em qualquer aluno. Como uma criança ao experimentar uma nova verdura, a cara feia muitas vezes vem antes do início do processo de aprendizado.

O resultado acaba sendo uma espécie de profecia que se autocumpre: o aluno tem convicção de que o conteúdo é difícil (antes mesmo de qualquer contato) e magicamente todos os seus temores se confirmam.

Verdade seja dita, há um fundo de verdade nisso. Matemática é uma disciplina complexa que envolve múltiplos domínios como a aritmética, geometria, álgebra, probabilidade, estatística, cálculo, com diversos ramos de estudo, teoria e aplicação.

Dominar isso implica fazer uso de várias habilidades associadas ao senso de quantidade, compreensão de símbolos, memória, inteligência espacial, lógica e pensamento abstrato.

Se pensarmos em termos da teoria das inteligências múltiplas, é fácil entender o motivo de algumas pessoas ter maior dificuldade com matemática do que outras. Segundo esta teoria, a inteligência lógico-matemática é apenas uma dentre várias que incluem inteligência linguística, naturalista, interpessoal, corporal, espacial, dentre outras.

Assim, a dificuldade de aprender matemática não seria muito diferente da dificuldade de algumas pessoas de diferenciar fatos históricos, ler contextos sociais, compreender o funcionamento biológico da natureza ou mesmo saber dançar.

Aceitar que algumas pessoas terão maior facilidade que outras com matemática é importante. Mas isso não significa que o esforço para compreender o conteúdo não seja importante e necessário.

Aprender matemática é importante e é um ponto fraco do brasileiro

São grandes as chances de um aluno que não gosta de matemática ter pais que também apresentam dificuldade na matéria.

A matemática é um ponto fraco do brasileiro: na última edição do ranking mundial de educação em matemática do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), o Brasil ficou em 66º lugar (de um total de 70 países analisados).

Podemos entender que estes dados revelam, de forma geral, um problema crônico na educação do Brasil. Mas não é tão simples. Ao compararmos as notas nas três disciplinas avaliadas, o desempenho dos brasileiros em matemática (377 pontos) fica atrás do desempenho quanto a leitura (407 pontos) e ciências (401 pontos).

Este é um problema muito grande, pois a dificuldade em matemática dos alunos brasileiros tem repercussões negativas tanto para o indivíduo quanto para o país.

A fobia por matemática é algo que pode se iniciar na infância e ser levado para a vida adulta, prejudicando inclusive o desenvolvimento profissional e limitando as possibilidades de carreira. Isso sem contar os prejuízos pela dificuldade em compreender problemas matemáticos conforme se apresentam de forma estruturada ou desestruturada no cotidiano.

Para o Brasil como um todo, a dificuldade no aprendizado da disciplina está diretamente relacionada à dificuldade do país em avançar em Ciência e Tecnologia. O ensino das chamadas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, sigla em inglês – mais recentemente STEAM – quando se incluiu Artes à equação) é fundamental para os avanços necessários em tecnologia e inovação. E a matemática aqui é o pilar central.

Não seria exagero dizer que a dificuldade em matemática está diretamente relacionada ao problema de desenvolvimento do país.

Discalculia e dificuldades no aprendizado da matemática

Antes de seguirmos para as nossas dicas, uma nota rápida acerca da discalculia e outros problemas de aprendizagem que podem acometer muitas pessoas.

Discalculia é como chamamos a dificuldade em aprender e compreender aritmética. Isso pode se revelar como uma dificuldade de entender números, em aprender como manipular os números, fazer cálculos e aprender fatos sobre matemática. Generalizando um pouco, seria o equivalente matemático da dislexia.

É preciso ter cuidado com esse termo, pois nem todo mundo que tem dificuldade de aprender matemática necessariamente apresenta essa condição. A melhor estimativa possível aponta a prevalência entre 3% e 6% da população. Discalculia pode acometer pessoas em todas as faixas de QI, não sendo então relacionado ao nível de inteligência.

Outro estudo, de 2014, busca entender a dificuldade de aprendizagem em matemática de forma multidimensional. Assim, propõe quatro subtipos para esta dificuldade:

  1. Centrada nos números: dificuldade principalmente aritmética. Isso se revela afetando a noção de estimativa de numerosidade (mesmo em pequenas quantidades), a dificuldade em compreender princípios básicos de contagem, compreender o significado operações aritméticas básicas (+, -, x, :), e compreender diferentes representações numéricas.
  2. Memória (recuperação e processamento): dificuldade em todos os domínios da matemática. Se revela através da dificuldade de lembrar fatos relativos a números, confusão com terminologia (numerador, denominador, isósceles…), em compreender problemas expressos de forma verbal, em realizar cálculos de forma mental, lembrar de regras, fórmulas e procedimentos.
  3. Raciocínio: dificuldade em todos os domínios da matemática. Se apresenta através da dificuldade em compreender conceitos, ideias e relações matemáticas, em entender múltiplos passos em procedimentos e algoritmos, compreender relações lógicas e resolução de problemas com tomada de decisão.
  4. Visual-espacial: dificuldade principalmente no domínio da aritmética escrita, geometria, álgebra, geometria analítica e cálculo. Se revela através da dificuldade de interpretar e usar organizações espaciais da representação de objetos matemáticos; da dificuldade de colocar os números em uma linha; de reconhecer números e símbolos matemáticos; visualizar e analisar figuras geométricas e; interpretar gráficos e compreender informação matemática expressa de forma visual-espacial (como em tabelas).

É preciso ter atenção e paciência com as dificuldades que o seu filho possa ter com matemática.

Um diagnóstico de discalculia demanda um trabalho mais específico e acompanhamento através de psicopedagogos, fonoaudiólogos e mesmo psiquiatras. Estes são casos mais específicos e quanto mais cedo o diagnóstico, melhor.

Mas em relação a outras dificuldades e a resistência em relação ao conteúdo, existem algumas estratégias que podem ser utilizadas por pais e professores para ajudar o aluno a destravar seu aprendizado.

Uma vez vencido o medo, há a possibilidade da descoberta de um encantamento pela disciplina, que pode ser carregado pela vida toda com vários impactos positivos. Eis algumas estratégias de como conseguir isso:

1 – Ensine o seu filho a dizer que não entendeu o conteúdo

Tire o peso que existe em errar. O erro é socialmente estigmatizado e isso é muito limitante. As crianças não “vêm de fábrica” com o medo de errar, mas ano após ano esse receio vai sendo introjetado. Isso ocorre através da escola, dos pais e da sociedade em geral.

Esse medo de errar gera inseguranças para pensar e fazer diferente. Calma. Eu sei que a matemática é uma ciência exata e não permite tanta criatividade no resultado de seus problemas e operações. No entanto, há diversos caminhos para se chegar ao resultado.

Por exemplo, para ter a resposta de uma multiplicação de 3×4, você pode ir pelo caminho que se crê convencional, mas também se pode somar 3+3+3+3 ou, por que não, 4+4+4?

ISSO NÃO ESTÁ ERRADO!

São apenas diferentes caminhos encontrados para se chegar a um mesmo resultado.

E às vezes o resultado encontrado pode não ser o esperado, mas é essencial lembrar que houve um raciocínio precioso sendo desenvolvido ali.

Muitos pais (e até mesmo professores) tendem a pensar que porque eles aprenderam daquela maneira – decorando a tabuada – os filhos também deverão aprender assim.

A matemática pode até ser exata, mas não pode ser estanque!

A insegurança ao errar é muitas vezes acompanhada do medo de assumir que não entendeu, pois isso pode significar um fracasso. Essa ideia não pode existir na cabeça de uma criança.

Assumir que não sabe ou não entende algo é extremamente importante para o aprendizado. Assim, incentive o seu filho a perguntar, indagar e dizer, sem receio, quando não entender algo.

2 – Desmistifique o problema

Temos uma forte tendência a associar a palavra problema a algo ruim, que não está dando certo. Aí sugerimos problemas de matemática e queremos que a criança simplesmente goste deles?!

Esse é um dos fantasmas que assombra o universo dos números.

Durante toda a nossa vida nos deparamos com problemas que precisam de solução. É o enfrentar dessas situações que nos faz crescer, mudar, aprender.

Um brinquedo que precisamos guardar após o jogo, uma garrafa que não está entrando na geladeira, a cama que está desarrumada, são problemas que precisam de solução, mas não são coisas ruins ou bichos de sete cabeças.

É preciso entender os problemas de matemática assim, como algo cotidiano, simples (ou até um pouco mais elaborado) que demanda solução.

3 – Comece pelos pontos fortes da criança, em vez de concentrar no que ele tem mais dificuldade

Como vimos acima, é possível entender que a deficiência no aprendizado de matemática possui diferentes dimensões. Dessa forma, o correto seria descobrir qual a dificuldade do seu filho e trabalhar mais em cima dela, correto?

Errado. Atacar diretamente o ponto fraco do seu filho em matemática provavelmente irá trazer mais frustração e medo da disciplina. Uma boa forma de começar a mudar atitudes acerca da aprendizagem da matemática é trabalhar justamente os pontos fortes da criança.

O que dentro de matemática ele entende e responde muito bem?

Estimular esse ponto inicialmente é uma forma de desenvolver a confiança e atitudes positivas acerca da disciplina. O que você quer é despertar na criança uma ideia de “Ei, eu consigo fazer isso! Eu acho que sou bom nisso!”

Confiança é o primeiro passo para todo processo de transformação. Para trabalhar os pontos fracos, desenvolva estratégias buscando sempre construir uma mentalidade positiva.

Comece com atividades básicas e mais simples dentro do conteúdo que ele tem dificuldade.

Fique nelas o tempo que for necessário para que a criança (ou adolescente) mostre domínio e real entendimento do conceito. Só aí comece a aumentar a dificuldade, sempre com cuidado para que a frustração não gere rejeição à disciplina como um todo.

4 – Busque Representações Gráficas e Visuais do Problema

Representações gráficas e visuais de problemas matemáticos não são difíceis de encontrar em livros didáticos, mas raramente encontram protagonismo no ensino e na avaliação do conhecimento.

Isso pois o papel principal, tanto no ensino quanto nos exames, costuma recair sobre os números e o raciocínio matemático de forma abstrata. Para uma criança com algum tipo de dificuldade isso pode aumentar ainda mais o desafio.

Trabalhar através de representações gráficas e exemplos visuais torna mais palpável o conceito que está sendo estudado.

Observar a implicação de determinada operação matemática visualmente pode ser uma estratégia interessante de aprendizado para muitas crianças.

Não é à toa que países que apresentam bons números acerca do ensino da matemática – como Cingapura e Coréia do Sul – fazem muito uso estratégico destes elementos em sala de aula.

Uma forma muito simples é seguir da representação concreta para depois partir para a abstração.

Figuras, imagens e gráficos podem ser usadas inicialmente para apresentar o conceito e a lógica concreta. Posteriormente deve-se migrar dessa representação para o abstrato, fixando o conhecimento desta fora.

Alguns exemplos de como fazer isso:

  • Para operações aritméticas básicas podem-se usar imagens e figuras ou mesmo objetos, fazendo operações a partir daí (“Se nós temos 10 maçãs e comermos 3 no café da manhã, quantas maçãs sobram?”).
  • Quanto a frações, use pizza, pacotes de biscoito, barras de chocolate ou quebra-cabeças, brincando a partir da divisão de um todo e o significado disso.
  • Na geometria, use réguas e trenas para medir objetos cotidianos com formas geométricas bem definidas, conferindo se as medições são compatíveis com os cálculos apresentados.

Lembre-se que a matemática está presente em todos os momentos do seu cotidiano. Os conceitos matemáticos podem ser abstratos, mas as consequências acontecem no mundo real.

Faça com que seu filho busque a curiosidade e a inspiração para estudar matemática observando o próprio meio.

5 – Estimule o seu filho a pensar em voz alta o problema

Verbalizar a linha de raciocínio matemático, em sua forma mais básica, ajuda a manter a concentração. Pense como a diferença entre ler um texto em voz alta ou em silêncio. Qual o jeito mais fácil de evitar distrações?

Só que mais do que isso, estudos comprovam que exteriorizar o problema – falando em voz alta, escrevendo passo a passo ou demonstrando o caminho utilizado – são formas muito eficientes de melhorar o aprendizado de matemática.

Este efeito positivo acontece devido ao empenho do aluno para organizar uma estratégia e/ou uma linha lógica de resolução do problema.

Isso coíbe a atitude instintiva mais comum de muitos alunos: tentar encontrar a resposta de forma aleatória através da combinação de números.

Este processo de exteriorização do problema ajuda a ancorar os alunos tanto em termos de comportamento quanto ao raciocínio matemático.

6 – Esteja por dentro do que o seu filho está estudando e traga a matemática para o cotidiano

Para poder ajudar o seu filho com a matemática você precisa entender o que ele está aprendendo na escola.

Esse simples passo é um caminho para que exista um diálogo mais próximo entre vocês e permite que os conceitos sejam reforçados em outros contextos.

Isso não significa que você terá que sentar, abrir o caderno com ele, e sair lendo e ensinando o conteúdo. A ideia é entender em que etapa ele está nos estudos para trazer o conteúdo para o cotidiano.

A matemática pode ser incluída no dia a dia de diversas maneiras. Vocês podem ir juntos ao supermercado e o seu filho pode ficar responsável por pegar as frutas – que podem vir em peso ou em unidades.

Pode também comparar os preços, escolher o mais barato, ver as quantidades que vêm e se o preço é proporcional à quantidade. Isso os coloca em contato com operações de adição, subtração, divisão, multiplicação, regra de três…

Cozinhar também é sempre uma boa pedida. Este momento de transformação dos alimentos permite uma série de raciocínios matemáticos aplicados.

As quantidades, pesos, medidas, proporções, entender a receita e, até mesmo, o que acontece se colocarmos mais ou menos de algum dos ingredientes.

A matemática também pode ser trazida por meio de músicas, histórias ou brincadeiras. Inclusive, a melhor maneira de tornar alguma coisa interessante é transformando-a em uma divertida brincadeira.

É possível pensar em diversos jogos que despertem o raciocínio lógico-matemático. Amarelinha, jogos de baralho, jogo da velha (ou ligue-quatro), esconde-esconde ou banco imobiliário. Esses jogos trazem vários conceitos matemáticos, de espaço, forma, tempo, medida.

Podem-se ainda criar jogos, por que não?

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Vocês ainda estão comigo? Como podem ver, não é fácil desconstruir um estigma tão forte como esse, que associa a matemática a algo tenebroso. Trazemos algumas dicas, mas também não existe receita de bolo de liquidificador por aqui.

Para ressignificar a matemática é preciso se abrir para pensar diferente e olhá-la com o carinho que merece. Reconhecendo-a em sua importância e percebendo como está em tantas coisas que nos cercam cotidianamente.

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