Nunca se falou tanto sobre ansiedade e depressão infantil. Os impactos resultantes dos eventos e inventos do mundo atual abriram um espaço para a ansiedade e se tornaram um dos problemas de saúde de maior destaque no mundo inteiro, sendo potencializadas pela ameaça do COVID-19.

Mesmo que haja mais circulação das pessoas no momento fora de casa, como no caso da reabertura das escolas, bares e comércio, os cuidados com a biossegurança ainda são bastante necessários. E nesse contexto de tensão maior, as questões relacionadas à saúde mental das crianças têm se tornado bem frequentes.

Conforme a pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), “Saúde Mental Parental e Regulação Emocional Infantil Durante a Pandemia de Covid-19”, durante a pandemia houve um aumento dos níveis de depressão e ansiedade de pais e filhos.

A modificação brusca dos hábitos, o maior tempo dentro de casa, o distanciamento, e as novas adaptações de ensino colaboraram negativamente para a saúde mental de algumas crianças e adolescentes. Desse modo, suspeitar que essas mudanças podem levar a uma questão de cunho emocional quando aparecem os sintomas já é um primeiro passo para ajudar a criança.

A ansiedade, em geral, surge de uma resposta biológica natural a uma ameaça, daí surge uma insegurança e, logo depois, se instala o medo. Nesse sentido, certos acontecimentos podem levar a uma ansiedade desproporcional que se apresenta nos momentos menos esperados.

Conforme explica a psicóloga escolar da Casa Escola, Juliana Guedes Melo, a ansiedade é um mecanismo de defesa que surge ao sinal de alguma ameaça, seja real ou imaginária, deixando nosso corpo em alerta e preparado para se defender (fugindo ou lutando).

Ela acrescenta ainda que em resposta a essa ameaça, surgem reações fisiológicas e cognitivas. Quando notamos que essas reações estão sendo desproporcionais às situações que se apresentam e acontecem com frequência é sinal de que a família merece direcionar um olhar de cuidado para a criança ou adolescente.

Então fica aí uma boa dica de filme,  O Guia da Família Perfeita na Netflix, indicado para se compreender melhor como surge e se cria o ambiente de ansiedade que afeta as crianças.

“O filme aponta para  as pressões e altas expectativas de se criar filhos em uma sociedade obcecada pelo sucesso e pelas imagens nas redes sociais. Vale a pena assistir, o que parece exagero é bem parecido com a realidade”.

Principais sinais de ansiedade na criança

Não existe uma causa precisa para o desenvolvimento da ansiedade, sabe-se que ela envolve causas multifatoriais, como fatores ambientais, genética, influências sociais, hábitos, entre outros.

Muitas vezes, os sintomas da ansiedade podem ser confundidos com “mal-criação”, desânimo, birras, desatenção, medo ou até com um problema de saúde física. Pois a ansiedade pode se apresentar com dores de cabeça, de barriga, entre outros sintomas sem uma explicação clara do acometimento.

Mas segundo o Center for Disease Control em Atlanta, a maior parte dos sintomas de ansiedade vão aparecer no medo e na preocupação excessiva em situações diversas. O Centro afirma que em função dessas ocorrências com a criança, ela pode apresentar:

  • Medo quando está longe dos pais (ansiedade de separação),
  • Medo extremo de uma coisa ou situação específica, como cães, insetos ou de ir ao médico (fobias),
  • Muito medo da escola e de outros lugares onde há pessoas (ansiedade social),
  • Preocupação com o futuro e com coisas ruins acontecendo (ansiedade geral),
  • Medo intenso em episódios repetidos, repentino e inesperado que vêm com sintomas como batimento cardíaco, dificuldade para respirar ou sensação de tontura, tremores ou suor (transtorno do pânico).

A frequência desses sinais nem sempre são constantes. Pode haver períodos com diferentes intensidades e tempo de duração. Além do medo, alguns dos comportamentos que pedem mais observação, são:

  •     Mudança no apetite (para mais ou para menos),
  •     Instabilidade do humor,
  •     Mudança no padrão do sono,
  •     Dificuldade no desempenho escolar,
  •     Retração e isolamento nas relações sociais,
  •     Desânimo frequente,
  •     Dificuldade de relaxar,
  •     Impaciência extrema,
  •     Crises de choro sem controle,
  •     Irritação excessiva.

Perceba que as emoções e suas demonstrações fazem parte da vida do ser humano. Medo, aflição e impaciência são comuns no decurso do crescimento da criança. Contudo, quando são manifestados excessivamente e com duração prolongada, pode ser o momento de avaliar por meio de um apoio profissional e pedir ajuda.

E como a escola pode ajudar?

O ponto-chave é distinguir se a ansiedade chega a interferir nas atividades diárias, na aprendizagem e nas relações sociais. É preciso ter atenção no comportamento da criança, identificando se está muito diferente do habitual.

Caso positivo, talvez seja o momento de prestar um pouco mais de atenção à situação e chamar a família para conversar e, juntos, pensar em como ajudar a criança ou adolescente.

É preciso munir os profissionais da escola e a família de sensibilidade, pois os comportamentos ansiosos que despontam na criança têm que ser acolhidos e trabalhados.

Muitas vezes, família e escola precisam da parceria do profissional especialista como o psicólogo clínico por exemplo, pois é necessário acessar o que está por trás do sintoma.

Cuidar do sintoma momentâneo que aparece repentinamente não impede que ele retorne a qualquer outro momento. Portanto não confunda causa com sintoma.

Cabe entender que a saúde emocional das crianças e adolescentes não é menos importante do que a dos adultos. Não interceder para ajudar a criança com manifestações excessivas de ansiedade pode causar mais sofrimento, prejudicar a aprendizagem, a socialização, a qualidade de vida e ainda deixar marcas que poderão ser levadas à vida adulta.

O intuito não deve ser o de eliminar a ansiedade, mas auxiliar a criança a administrá-la

A melhor forma de auxiliar a criança é ajudá-la a encontrar recursos para minimizar o seu sofrimento. Isso pode ocorrer a partir de atitudes mais sensíveis por parte do adulto em suas mediações.

O ato de dispor de atenção o suficiente para perceber as mudanças comportamentais na criança já é o primeiro passo para ajudá-la. Outro ponto importante é proporcionar um ambiente de aceitação, de modo que ela possa perceber que está sendo compreendida.

Os pais e adultos responsáveis também devem ter o auto cuidado e se monitorar. Um dos maiores fatores de risco para a produção de ansiedade nas crianças ou adolescentes é ter pais que também estão estressados.

Ao perceber as mudanças, os pais também precisam ter cuidado com as suas reações para com os filhos. É bom que eles encontrem acolhimento, compreensão e paciência.

Então aqui vai um vídeo bem curtinho da série Sentimentos e Emoções para auxiliar um pouco mais na compreensão dos acontecimentos quando o assunto é ansiedade infantil:

Quais os cuidados para prevenir a ansiedade infantil

Juliana Guedes de Melo, a psicóloga da Casa Escola deixa aqui algumas dicas que podem ajudar bastante no convívio mais harmonioso em família. Ela aconselha a

  • Exercitar a paciência que nem sempre é algo fácil. É algo diário que pode ser introduzido nas atividades cotidianas. A vida corrida, uma rotina intensa e a tecnologia facilitando muitos processos inibem a prática da paciência, que precisa ser construída, principalmente quando se esvai.
  • Promover contato livre com a natureza, prática de exercícios físicos, uma rotina equilibrada, são alguns itens essenciais para um dia a dia saudável.
  • Limitar o uso das telas e direcionar a criança para o bom uso dos aparelhos digitais.
  • Ter tempo livre para brincar de maneira espontânea (sem o uso de aparelhos).
  • Conversar  nos momentos das refeições, passeios, viagens, nas situações de conflito. Para isto ocorrer é preciso saber escutar o que as crianças têm a dizer. O exercício da escuta ativa pode ajudar bastante nas relações familiares e consequentemente ajudar na questão da ansiedade.

É fato que lidar com emoções não é uma tarefa simples nem para adultos, tampouco para crianças. No texto “Como ajudar os filhos a lidar com as emoções” ampliamos este tema, com algumas orientações. Confira e vamos seguir nesta conversa nos próximos artigos.