Segundas e quartas, aulas de inglês, terças e quintas, futebol, a psicóloga é na sexta, aula de circo na quinta, à noite, natação, judô e futebol… Ufa!

Você já parou para observar a rotina de atividades do seu filho? Será que está tudo bem programado?

Boa parte dessas atividades, sem dúvida, podem beneficiar o seu filho. Mas o seu filho corresponde bem a tudo isso? Ele está dando conta?

  • atividades esportivas;
  • aula de inglês;
  • robótica;
  • terapia;
  • aula de reforço.

Na programação diária, têm horas de lazer? Têm momentos descontraídos? E o direito de brincar “livremente”, sem o direcionamento do adulto? Já observou se a agenda dele tem espaço para o espontâneo e o inusitado?

Se você está preocupado com a criação do seu filhote, parou para pensar sobre esta rotina apertada?

O mundo competitivo que criamos

No mundo moderno existe um discurso geral que não dá espaço para as falhas. Pais não podem falhar e, portanto, precisam otimizar o tempo. Mas isso não é exclusivo do mundo adulto. A expectativa de acertar, sempre ter êxito e correr contra o tempo e em direção ao SU-CES-SO é repassada a crianças e jovens.

Sucesso pode ter muitos significados e ser diferente de um para outro, vamos encontrar no dicionário definições como: ter êxito em algo, bom resultado, triunfo.

Entretanto existe um senso comum de valia, de que o sucesso revelado tem a ver com a condição financeira adquirida ajustada ao padrão de vida que se leva: o carro, a casa, o tipo de emprego ou trabalho etc.

E como seria isso para as crianças e jovens que ainda nem trabalham e nem precisam ir atrás do sustento?

Por meio de atitudes e diante de suas realidades, jovens e crianças ressignificam o sucesso, como:

  • ser o melhor da turma;
  • ser o mais popular na escola;
  • conseguir visibilidade no esporte;
  • passar no concurso (vestibular, ENEM, Escola Técnica…);
  • ser valorizado pelo poder de consumo (celular, roupas de grife);
  • desejar o padrão de vida das celebridades;
  • mostrar-se nas redes sociais como invejado;
  • não fraquejar.

Esses são alguns dentre muitos exemplos que moldam a sociedade da competitividade e que, na maioria dos casos, criam efeitos colaterais indesejáveis, ocasionando um grau de ansiedade na criança que pode se tornar insuportável.

Estar submetido, desde pequeno, à lógica do sucesso imposta pela sociedade e pela família tem suas consequências indesejáveis e, quanto a isso, uma boa maioria de jovens, adultos e crianças não estão isentos.

Como a ansiedade pode adoecer?

Nem toda ansiedade é ruim e desnecessária. Mas quando ela é fruto de um excesso e desrespeita o ritmo da criança, ela se torna danosa.

A ansiedade excessiva provoca o medo de falhar e é justamente esse medo que faz falhar. Quando persiste faz até mesmo adoecer.

Entrar na linha da competitividade e atender à demanda do orgulho da família e da escola podem paralisar a criança e gerar graves sintomas. Nesta visão narcísica, a criança é classificada em bem-sucedida ou fracassada.

O insustentável mundo da perfeição e do sucesso incide sobre a criança na mais tenra idade e tem a origem nas expectativas dos pais sobre seus filhos de forma voluntária e/ou involuntária.

Afinal, quem não está preocupado com o futuro de seu filho? Quem não tem medo de falhar até mesmo como pai ou mãe?

Nem sempre a cobrança sobre a criança ou jovem traz os efeitos desejados, principalmente quando se trata dos excessos.

A expectativa dos adultos sobre o futuro da criança é normal, o que gera nela uma energia de proatividade, quando ela retribui a isso com resultados adequados à sua aprovação. Assim, em um movimento contínuo, a criança se sente capaz de ir em frente, principalmente ao se sentir amada e não somente cobrada.

Entretanto nem sempre a expectativa que se coloca sobre os filhos dá espaço para caminhos próprios da criança. A pressão permanente não permite sair dos trilhos, percorrer outros caminhos, engessando o verdadeiro potencial da criança. O que foge às expectativas pode ser considerado um erro.

A questão pode piorar quando as condutas de estímulo à competitividade se unem, vindo tanto da família como da escola. É aí que a ansiedade se torna uma grande inimiga do desenvolvimento saudável da criança.

Sobre padrões sociais impostos aos filhos, podemos assistir a um vídeo que todos que estão interessados no assunto sobre ansiedade devem ver:

O documentário A máscara em que você vive (The Mask You Live In) fala sobre a criação de meninos sob pressão de uma sociedade que não tolera o fracasso. Há depoimentos de todos os tipos de especialistas, o que nos ajuda a repensar acerca da cobrança excessiva e de valores questionáveis. Não deixe de assistir.

E afinal, o que é o transtorno de  ansiedade?

O transtorno de ansiedade, no aspecto patológico da palavra, é um distúrbio que provoca sensações desagradáveis e que estimula os pensamentos que impedem as pessoas de prosseguir com determinada tarefa ou com uma rotina.

Podemos compreender o transtorno de ansiedade por padrões de comportamento exagerados sujeitos a situações de estresse.

Não existe uma clareza acerca da causa da ansiedade em si. Alguns estudos afirmam que há uma predisposição biológica, outros atribuem ao cognitivo da criança, como ela compreende o mundo e atua sobre ele, e boa parte desses estudos indicam o ambiente como o principal propulsor do estresse.

Mesmo assim, uma criança pode ter pais ansiosos e fugir do padrão do comportamento familiar.

Também não podemos atribuir a ansiedade da criança a um motivo pontual, como uma simples relação de causa e efeito. Por exemplo, caso a criança tenha tido uma experiência ruim com uma professora, isso a tornará uma pessoa ansiosa ao extremo. Não, não se trata disso.

Dentre as incertezas sobre o que realmente causa a ansiedade na criança, o mais importante é procurar o que pode ser feito por ela. Como ajudá-la a lidar com a ansiedade e até mesmo reduzi-la.

Mas cabe alertar que a ansiedade pode se tornar paralisante e até mesmo virar uma fobia como:

  • medo de fazer prova
  • pavor de viajar de avião
  • não querer sair de casa 
  • fobias de animais específicos
  • medo de entrar no elevador
  • fobia social (medo de enfrentar o público)
  • ETC.

Quando a ansiedade causa uma angústia, ela passa a ser disfuncional agindo na contramão das aprendizagens e do desenvolvimento social, passando a ser um transtorno.

A ansiedade é potencializada a partir das más experiências vivenciadas e atrapalham a criança nas tarefas corriqueiras que aparecem como sintomas na hora de dormir, brincar com o amiguinho, ir à escola, participar de momentos coletivos, falar em público concentrar-se nos estudos.

Os sintomas muitas vezes são confundidos com a causa.

Se a criança rói as unhas ou se ela se dispersa demais, não adianta combater os efeitos da ansiedade, pois a ansiedade não vai passar.

Talvez a criança deixe de roer unha, mas vai criar outro tipo de sintoma como comer exageradamente. O sintoma acaba se tornando uma forma de escape da ansiedade.

Por isso é preciso ir além do sintoma e investigar o que mantém a criança nesse estado. Os adultos que convivem com a criança em seu meio têm um papel importante nessa descoberta.

Como a escola ou o professor pode ajudar um aluno ansioso?

Não existe um caminho único e pré-determinado. Ao identificar que certas atitudes da criança ou do jovem são resultado da ansiedade excessiva, podemos ampará-lo dando-lhe pequenos sinais de tranquilidade,  de modo que ele ganhe confiança no adulto e, aos poucos, em si.

Em certos casos é importante:

  • retomar com a criança o enunciado das atividades
  • verificar se ela realmente as compreendeu
  • abordar o assunto estudado de outras maneiras
  • dar espaço para a criança falar e se explicar
  • valorizar suas conquistas e avanços
  • criar junto às outras crianças um ambiente acolhedor.

Por meio da sensibilidade do adulto, a criança vai ganhando espaço e fortalecendo a sua autoestima. A família precisa corresponder ao investimento da escola.

Organize o tempo de modo que a criança compreenda que você está ali na sala, também, para atendê-la, que a rotina favorece a organização e a expectativa do que está por vir.

A previsão do que vai acontecer ajuda  a criança a entender o que lhe espera e isso pode lhe acalmar

Se a criança não atender à rotina e à velocidade dos acontecimentos, reveja a quantidade de conteúdos e organize a rotina de modo que não seja preciso avisar constantemente que o tempo vai acabar.

Valorize quando ela consegue aumentar a quantidade de atividades previstas.

Quando os adultos reagem com atitudes  explosivas, pressionam e gritam, isso afeta a criança. Ela fica tensa diante da expectativa de receber a pressão indesejada através da  bronca e não sabe nem sequer quando isso irá ocorrer. Ela se torna uma criança assustada.

É preciso entender que  cuidar não é retroceder. É dar a oportunidade da criança superar suas inseguranças, conquistar confiança no adulto e em si própria.

Não existe nenhuma mágica que faça a criança passar do estado ansioso para o não ansioso. Existe sim um investimento lento e duradouro, pautado nas atitudes dos adultos que darão a oportunidade da criança se sentir mais segura.

Se a criança manifesta medo de realizar certas tarefas  como falar em público, seja você o mediador entre o que ela sabe e o que deve ser dito. Valorize os saberes dela por outros caminhos.

O apoio dado pelo adulto (na escola e em casa) à criança, que apresenta ansiedade, tem que vir na direção da superação paulatina do transtorno e acontecer  na linha do respeito.

Conclusão

Atualmente não existe uma divisão de faixa etária em relação aos transtornos, dando a entender que fazem parte do mundo adulto assim como do mundo das crianças e dos adolescentes.

Quando uma criança sofre com algum distúrbio, isso é visto com o mesmo grau de preocupação que é dado ao adulto.

Mas de alguma maneira é possível apostar: quanto mais cedo o transtorno for detectado e cuidado, menores serão os danos futuros para a criança e adolescente.

Criança devidamente respeitada será criança segura ao longo de toda a sua vida. Se achou as informações do texto relevantes, compartilhe com seus amigos!