O afeto, um assunto, ainda, pouco valorizado na educação escolar, se mostra fundamental na construção da pessoa.

Frequentemente ouvimos falar da importância do desenvolvimento da inteligência lógico-matemática ou linguística, das qualificações dos alunos, das notas e dos padrões, mas onde está a devida importância ao desenvolvimento emocional da criança?

A especificidade da educação de crianças de 0 a 6 anos na Educação Infantil está centrada no cuidar/educar e está garantido por lei (Lei de Diretrizes e Base de 1996, LDB).

A LDB considera o cuidar um compromisso com o outro, com a sua singularidade, com as suas necessidades, confiando em suas capacidades e habilidades. E vai depender, é claro, da construção de um vínculo afetivo entre quem cuida e quem é cuidado.

A afetividade na Educação Infantil contempla objetivos que estão muito além do assistencialismo (higiene e alimentação), das demonstrações de carinho, “colinho”e abraços dados aos pequenos e uso de diminutivos excessivos.

Na aquisição das aprendizagens, a afetividade está na dimensão humana que alimenta e é alimentada pela curiosidade e o despertar da paixão pelo conhecimento.

Por isso é que por trás da valorização da aprendizagem da criança, há todo um aparato pedagógico cuidadoso que garante o seu desenvolvimento com envolvimento.

Nesse investimento, a criança se sente alimentada cognitivamente e afetivamente de maneira autêntica. Quando se há um investimento afetivo real nela, ela investe e dá um bom retorno.

Quais os sinais de que a escola valoriza a afetividade no que ensina?

Falar do afeto como um importante fator do fazer pedagógico é dar sentido às formas de propor atividades, antes, durante e depois da realização das mesmas.

Várias práticas podem ser desenvolvidas criando um espaço afetivo e que promova várias manifestações identitárias da criança que pertence àquela turma.

Nela é possível ver a turma, é possível ver cada um dentro dela. É como se a criança dissesse: “Eu faço parte desta sala 😊”.

Não é nada muito requintado, apenas iniciativas importantes que apontam para a professora afetiva que vão além das atividades, organização e procedimentos. Portanto, a postura afetiva da professora frente a seu aluno faz toda uma diferença.

E que indicadores demonstram uma professora que sabe aliar a afetividade à sua prática pedagógica?

Posso garantir que usar diminutivos em abundância não é sinônimo de afetividade. A afetividade não está na infantilização das coisas. Então onde ela aparece?

A afetividade está em:

  • Falar com a criança de forma madura, sem infantilizá-la.
  • Ser autêntica diante das perguntas e necessidades da criança.
  • Buscar caminhos não agressivos para construir e impor os limites.
  • Valorizar as realizações das crianças, suas atividades, suas ideias e criações.
  • Atentar cuidadosamente às necessidades da criança, por meio de sua fala e de suas atitudes. 
  • Contar com a equipe pedagógica para ampliar as possibilidades de uma intervenção maior, quando necessário.
  •  Manter a relação com os pais e deixá-los informados.
  •  Acolher críticas e criar espaço para sugestões.

Tudo isso são indicadores relevantes de que os conteúdos e objetivos pedagógicos estão permeados pela afetividade.

E que tipo de atividades podem iniciar esta relação de afetividade?

É possível então que as crianças: 

  • Grafem estampas de identificação de seus materiais com seus próprios desenhos,
  • Deixem suas marcas pela sala com seus trabalhos, 
  • Criem um painel com fotos dos familiares e se reconheçam dentro dele, 
  • Possam expressar como se sentem diariamente em roda de conversa, 
  • Manifestem as suas insatisfações, 
  • Tragam seus saberes e ideias para que sejam escutadas e acolhidas, 
  • Riam, chorem e façam uma baguncinha.

E nesse processo de construção da própria identidade, o nome de cada um está presente como representação de parte da sua própria história e fazendo parte desta história é possível reconhecer seu aluno e melhor compreendê-lo.

Afinal, que possam ser crianças e respeitadas como crianças.

No ato de ensinar e aprender, a afetividade aparece como um compromisso da professora em estar atenta ao seu aluno no seu modo de ser. Dessa forma,  promover atitudes para que o aluno tenha um aprendizado efetivo, significativo e, consequentemente, prazeroso.

Esse comprometimento é um ato afetivo e de amor.

Nesse comprometimento, a professora usa seus saberes pedagógicos acumulados e toda uma dedicação direcionados à criança e não no conteúdo. Embutido em sua prática estão os questionamentos:

  • O que será que a criança gosta?
  • Do que ela não gosta?
  • Do que tem medo?
  • O que lhe é (in)suportável?
  • O que lhe é possível?
  • Como ela se sente diante de diversas situações de conflito?
  • Como ela socializa?
  • Como ela compreende o mundo? 

Tudo isso para saber como se torna possível desafiá-la para estimulá-la a ir além de seus saberes.

Uma pequena demonstração de afetividade

Melina (3 anos) é uma criança esperta, simpática e cheia de energia. Todo dia, ela joga seu lanche ao chão na hora de comê-lo. O lanche contém o que ela diz gostar de comer, mas prefere ficar sem comer e fica na birra. O que fazer?

Você colocaria o limite? Melina, então perderia o direito de lanchar? Você a perguntaria em tom de reprovação: Por que, Melina, você está jogando o seu lanche no chão”?

E se nada disso resolvesse?

Brigar com ela diariamente e colocá-lo de castigo não levaria à compreensão de uma situação que crianças pequenas nem sabem explicar.

Portanto, outras atitudes não tão convencionais poderiam ajudar nessas horas. Quem sabe, com o tempo isso irá se dissipar sem precisar estigmatizar a criança e reduzi-la a uma conduta momentânea de birra.

 Em uma aposta afetiva e com criatividade podemos:

  • Antevir o jogar o lanche ao chão com acolhimento, 
  • Ficar mais junto da criança na hora de comer e conversar com ela,
  • Oferecer a comida aos poucos até o momento em que ela começa a rejeitar a comida. A partir daí retirar o alimento e sugerir algo diferente para fazer. 
  • Observar como a criança tem reagido com os colegas nas brincadeiras e em outras situações. Tais situações geralmente não aparecem isoladas.

Por esse último quesito, é importante conversar com a família e com outros profissionais da equipe. Investigar o que pode estar acontecendo para Melina agir desta forma.

Não é nada simples, nem é de imediato, mas pensar afetivamente e de maneira criativa acolhe a criança e permite cuidar dela de verdade, principalmente, se encontrarmos na família a parceria.

E quanto a esse tipo de intervenção afetiva, que vai além do conteúdo, há teóricos que nos ensinam e confirmam que é importante dar um espaço relevante à afetividade no ambiente escolar.

O afeto à luz de Henry Wallon

As concepções do pensador Henry Wallon (1879-1962), que dedicou grande parte de sua vida ao estudo da afetividade, destacam a importância do afeto nas relações interpessoais no ato de aprender

A afetividade no desenvolvimento humano, especialmente na Educação, envolve o acreditar que a criança é capaz de se tornar uma pessoa mais autônoma nas resoluções de problemas em sua vida e ser socialmente participativa ao interagir com o meio.

Para Wallon, a afetividade envolve as emoções que são de natureza do humano. Faz parte dos sentimentos que se formam a partir de vivências inerentes ao mundo das relações.

Nas situações cotidianas de conflito, é possível intervir ampliando as possibilidades da criança de negociação com o outro. Isso gera uma convivência baseada no respeito, uma relação afetiva positiva entre professora e alunos, o que colabora demais no processo de desenvolvimento e aprendizagem do aluno como ser que também aprende a se relacionar com os outros.

Na área do diálogo e do respeito, a criança passa a ter confiança no adulto e por isso se sente mais confiante e segura. Nesse contexto, não é preciso tomar decisões por ela e nem fazer por ela, muitas vezes ela traz a solução.

Apesar de todos os percalços que podem ocorrer em sala de aula, professora-aluno-equipe pedagógica devem abrir brechas para que sejam propiciadas outras oportunidades no acolhimento e na expressão das emoções e dos sentimentos.

E para concluir, Ana Cristina Arruda, psicóloga escolar, inspira-se em Rubem Alves propondo repensar a educação.

A ideia é a educar para e pelo encantamento, proporcionando o afetar-se (de afeto) pelo mundo para colonizá-lo de forma mais humana, espontânea,  sensível e significativa à medida que vamos fazendo as pazes com suas cores,  os barulhos, os cheiros diversos, texturas outras, promovendo vínculos e conexões, formas (ir)regulares, contrastes que (ins)piram, vozes, balanços e relações nos movimentos.

Para colocar tudo isso em ação na escola ou em sala de aula, são necessários educadores que tenham desfilado sua história pela vida, apostando que o mesmo processo florescerá em seus alunos porque foi assim que se deu com ele.

Caso sua vida tenha se sucedido por caminhos não desejáveis para as crianças as quais ele ensina, tomar suas dificuldades e superações para recriar um novo mundo.

E assim vamos nos reconectando com o mundo em nosso interior, de fora para dentro e de dentro para fora, a despeito de toda a tecnologia, estabelecendo novas conexões, recriando posturas mais envolvidas com o desejo de viver e torná-lo melhor.

Gostou do texto? Se sim e se você tem interesse em saber mais sobre como escolher uma escola para trabalhar bem a afetividade do seu filho, temos o texto ideal para vocêcom dicas úteis para te ajudar no processo de escolha.