Durante os primeiros meses de vida, o filho é quase uma extensão sua. Você alimenta, cuida, limpa, veste, acolhe o choro, brinca, acompanha cada pequena conquista. Normalmente esse processo simbiótico começa até mesmo antes do nascimento, nos planos de concepção, gestação e em todo o preparo do espaço para receber a nova criança.

Aí, em um piscar de olhos, a criança chega na idade escolar (de acordo com a dinâmica de cada família) e você precisa, de repente, cortar o cordão umbilical e entregar essa sua pequena-grande parte aos cuidados de uma outra pessoa.

A adaptação ao universo escolar ou, até mesmo, a uma nova escola nunca é um processo fácil, mas algumas coisas podem ser feitas para que este momento de mudança ocorra de forma mais leve – tanto para a criança quanto para a família.

Vamos, então, pensar a adaptação escolar sob diversos ângulos e trazer algumas questões a considerar neste momento para que ele ocorra de maneira mais suave.

Por que o processo de adaptação é tão difícil?

Adaptação escolar é um processo delicado porque se trata de uma separação, que representa perdas, mas também ganhos.

O processo de separação se inicia no parto, que chega sem perguntar se a mãe está pronta para ter seu filho fora de si. A partir do momento do nascimento, o bebê que habita o imaginário da mãe deixa de existir para dar espaço ao bebê real. Essa é só a primeira de várias rupturas que acontecerão por muitos e muitos anos.

Inicialmente, enquanto a criança ainda não conquistou a fala, o adulto irá fazer as leituras daquilo que ele crê que a criança quer e precisa. A aquisição da fala é mais uma separação, quando a criança desenvolve a autonomia para se expressar, através da linguagem, por conta própria, sem precisar dos pais para dizer o que deseja.

Neste momento, os pais perdem um poder, eles deixam de saber tudo, deixam de ser porta-voz dos desejos da criança e de suas necessidades. Essa “independência” da criança é inconscientemente reprimida, pois na preocupação de que nada falte ao filho, ele perde a vez.

Esta é apenas uma das várias formas de superproteção – o desejo de estar sempre presente em uma postura, por vezes, intrusiva, quando a criança já adquiriu a linguagem e a autonomia para poder atuar no social, sem a presença dos pais.

É justamente no contato com as faltas que a criança vai aos poucos percebendo o seu próprio corpo como separado e independente do adulto, comunicando-se por gestos, adquirindo domínio dos movimentos, expressões, equilíbrio e se socializando.

De forma parecida, a conquista da linguagem verbal também ocorre no momento que a criança não se reconhece mais na fala do outro e começa a falar por si, expressar suas emoções, suas vontades, experimentar os limites. Este é o momento de separação entre o que a criança quer e o que se espera que ela queira.

Essas separações começam a acontecer bem cedo e são um verdadeiro desafio para todos os participantes deste processo – pais e criança.

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A entrada na escola é mais uma separação representativa na vida da criança e de seus responsáveis. Portanto, uma adaptação escolar bem-feita pode tornar este momento, certamente, menos doloroso para todos os envolvidos na empreitada em função dos ganhos que virão.

Qual é o papel da escola no processo de adaptação da criança?

A criança reage à adaptação de diversas maneiras, dependendo das suas experiências prévias, do modo como lida com as regras e frustrações e de sua relação com os pais.

Para que a adaptação flua, é essencial que o pequeno se sinta seguro e acolhido no novo ambiente e construa relações afetivas ali.

Durante a adaptação, a criança divide-se entre o deslumbre perante as possibilidades oferecidas neste novo ambiente e o medo perante ele.

A adaptação só ocorre quando o aluno consegue superar as dificuldades e se apropriar da rotina e dinâmica escolar, dominando os espaços e desenvolvendo uma relação de confiança nos adultos-profissionais da escola.

É a partir daí que se abre espaço para a curiosidade, para as trocas, interações e aprendizagens.

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Para a criança, a adaptação é ao mesmo tempo separação e construção de novos vínculos.

O momento de adaptação à primeira escola ou a uma nova escola demanda disponibilidade e disposição para proporcionar um verdadeiro acolhimento à criança.

A escola favorece o ambiente social para a criança que irá, ali, aprender a se relacionar com outras crianças e com adultos que não mais se restringem ao seu meio familiar. O aprendizado se dá através da interação, da observação, da troca de repertório de brincadeiras.

Assim, a escola de educação infantil, inicia a sua função de responsável por promover um ambiente de aprendizagem significativa sob o olhar cuidadoso de educadores atentos a este processo de separação.

À escola cabe, portanto:

  • Disponibilizar educadores preparados para este momento, capazes de acolher crianças e pais, colocar limites e fazer intervenções;

  • Reforçar a equipe no período inicial, para que as individualidades das crianças possam ser acolhidas e a promoção da socialização no ambiente escolar se inicie.

  • Conduzir este momento, orientar, respeitar as angústias que eventualmente ocorrerão;

  • Acatar certas rotinas da criança para que haja uma transição gradativa entre os hábitos e horários de casa e os novos, da escola;

  • Estar disponível para responder as dúvidas dos pais e, caso necessário, pensar em estratégias para promover a adaptação das crianças que precisem de outras abordagens.

Como a família ajuda no processo de adaptação?

Para os responsáveis, a entrada na escola, muitas vezes os remete à sua vivência escolar prévia e isso pode gerar um mix de angústia, culpa, medo, frustração e defesa. Isto geralmente aparece associado a um discurso que tenta racionalizar a situação, resgatando o que pode ser positivo nesta entrada na escola.

Ou seja, apesar de todas as inseguranças, os pais buscam se convencer de que estão fazendo o melhor para os filhos, que a escola trará muitos avanços, interações, amizades, conquistas.

(O que é verdade, mas o coração nem sempre consegue sentir exatamente isso).

Para os pais, o processo de adaptação escolar pode ser atenuado com algumas ações:

Escolha da escola

É muito importante pesquisar bem a escola que melhor se alinha com aquilo que você busca para o seu filho. Procure as opções viáveis, entenda as abordagens pedagógicas utilizadas, olhe as informações disponíveis nas redes, visite as escolas pré-selecionadas, converse com profissionais da escola e, só então, decida por aquela que te transmite segurança.

No momento da adaptação, confie na escola que você já escolheu com tanto cuidado e critério.

Você estar seguro(a) de sua decisão dará confiança à criança nesta fase tão importante da vida.

Inicie o processo de adaptação antes do início das aulas

Envolva a criança nos bastidores desta empreitada. Leve-a para conhecer a escola antes das aulas se iniciarem e, de repente, brinque com ela no parquinho da escola ou mostre o viveiro com animais que só tem ali!

A compra do material, mochila e uniforme escolar também pode contar com a participação da criança. Ela pode opinar, escolher entre algumas opções que você pré-estabelecer – “qual mochila você achou mais legal, essa azul ou essa amarela?” –, experimentar a roupa que usará quando as aulas iniciarem e, até mesmo, preparar o lanche que levará.

Organize a sua agenda para acompanhar a criança nos primeiros dias

Cada criança responde de uma maneira diferente ao período de adaptação escolar. Enquanto algumas se sentirão confiantes para se despedir dos pais rapidamente, outras podem precisar de alguns dias, semanas, ou até mais.

Se possível, coloque-se à disposição da criança durante esse processo. Aos poucos ele irá adquirir a confiança necessária para brincar, desenhar e realizar atividades sem a presença dos pais.

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Busque equilibrar as suas angústias

Sempre que bater aquela ansiedade, respire fundo, pense em distrações para a mente, ocupe-se com alguma outra coisa…

Às vezes a criança não quer ficar na escola porque percebe que a mãe ainda se sente insegura. Neste momento, é possível recorrer aos profissionais da escola que devem ter um olhar generoso, de escuta e de respeito com a família, afinal, não só a criança que passa por um processo de adaptação.

A mãe ou o pai pode ter vivido na infância algum processo semelhante e é preciso compreender que cada um, a seu tempo, vai vivenciando o seu processo.

A escuta da família sobre o exercício de se pensar como foi para eles esse momento delicado pode trazer um rico aprendizado e construir uma relação mais fortalecida com a escola.

Dê aconchego à criança e mantenha-se firme

O período de adaptação provavelmente deixará a criança mais sensível, frustrada, irritada e insegura. Por mais que seja difícil ver o seu filho enfrentando esta situação, saiba que ele está aprendendo a lidar com as suas emoções em um social mais amplo, o que muito importante para o seu crescimento emocional e desenvolvimento em geral. A superproteção desprotege.

Quando a criança se apresentar mais sensível e relutante a ficar na escola, é importante, por um lado acolher a angústia e mostrar-se empático a ela e, por outro, reforçar a sua confiança na escola, deixando claro que acredita que ele vai conseguir superar.

Explique para a criança o que vai acontecer

Dar previsibilidade do que vai acontecer também do lado de quem leva a criança para a escola pode ser uma maneira de trazer segurança e diminuir a ansiedade.

É importante falar sobre a escola, os professores e os amigos da criança de maneira entusiasmada.

Geralmente, quando a criança não quer ficar na escola, a mãe ou o responsável indaga a criança, pressiona para que ela fale se aconteceu algo e isso pode assustá-la. Conte sobre as coisas boas, das brincadeiras, do que ela vai ver e aprender, isso transmite segurança.

Além de reforçar as coisas legais que vão acontecer na escola, converse sobre quem vai deixar e buscar, o que a mãe ou o pai está fazendo enquanto a criança está na escola é importante. Muitas vezes o imaginário da criança faz com que fantasie, por exemplo, que a mãe estará brincando sem ela.

É hora de dar tchau!

A segurança na forma de se despedir é primordial. A criança é muito sensível a isso e percebe quando há resistências neste adeus.

As saídas podem ir acontecendo de forma gradativa, deixe-o envolvido em alguma atividade e diga que precisa ir no banheiro, por exemplo, mas já retorna. E retorne mesmo! É fundamental que a criança entenda que não está sendo abandonada, então não diga que volta já e aproveite para sair de fininho.

Quando for a hora de sair, explique o que vai fazer, que depois de alguma atividade específica – a hora do lanche ou o momento do parque – você voltará para buscá-lo. Dito isso, vá de fato, deixe o telefone ligado que se for realmente necessário a escola entrará em contato contigo.

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O processo de adaptação escolar envolve algumas perspectivas – da criança, da escola, dos pais – mas todas têm o mesmo objetivo comum, o desenvolvimento da criança.

Então, agora que já sabemos como é a hora de dar tchau, que tal, antes que nos despedirmos, compartilhar esse texto com outros amigos que estão se preparando para este momento?